O VALENTE CÃO GUARDA-NOTURNO DOS REBANHOS

Por que o cão Pastor Maremano Abruzês se tornou o xodó dos ovinocultores brasileiros


Edição 26 - 23.08.21

Por Irineu Guarnier Filho / Fotos: Isadora Guarnier

Desde que o homem domesticou animais para seu sustento, há milênios, a pecuária extensiva tem sido constantemente perturbada por predadores de todos os tipos. Ovinos sempre foram presas fáceis para lobos, ursos e felinos – como a onça e a jaguatirica, no Brasil. Além disso, há o abigeato, que causa enormes prejuízos às propriedades rurais brasileiras desde que o furto de animais deixou de ser um acontecimento eventual para se transformar numa atividade sistemática de quadrilhas especializadas. A melhor solução para enfrentar predadores e ladrões foi encontrada pelos pecuaristas no próprio reino animal: cães pastores.

A figura do pastor de ovelhas conduzindo o rebanho em companhia de seus cães atravessou os séculos e chegou aos dias atuais. Por meio de seleção genética, raças caninas foram desenvolvidas em várias partes do mundo com finalidades específicas de pastoreio (caso do Border Collie, por exemplo) ou de guarda, para proteger os rebanhos do ataque de predadores. São funções completamente diferentes – e não é aconselhável que se exija de um cão de pastoreio habilidades de guardião ou que se destine um cão de guarda ao trabalho de pastoreio. Cada raça tem seu papel muito bem definido no trato com os rebanhos.

O VALENTE CÃO GUARDA-NOTURNO DOS REBANHOS
Rústico, forte e musculoso: peso de adulto pode chegar a 45 kg. Na foto principal, Maremano em ação na Cabanha Hasam, em Gramado (RS)

Um animal que reúna as duas características é raro e valioso. É esse um dos motivos pelos quais os cães da raça Pastor Maremano Abruzês (PMA) têm sido cada vez mais vistos em companhia de criadores de ovinos por todo o Brasil, sobretudo nos estados do Sul. Uma das raças caninas de guarda mais antigas do mundo, com mais de 2 mil anos de história documentada, o PMA já era utilizado nos tempos do Império Romano. Com suas origens estabelecidas na região de Abruzo, mas difundido por criadores de Maremma, na Itália, o enorme cão branco das montanhas frias tornou-se desde cedo um atento vigilante e um corajoso defensor dos rebanhos contra todos os tipos de predadores, inclusive o homem, porém dócil e amigável com seus tutores.

Cachorro autônomo, teimoso, pouco obediente a comandos e de difícil adestramento, o PMA trabalha de forma independente – ele sabe o que tem de fazer e executa o seu trabalho com muita competência. Um pouco sonolento durante o dia

TRABALHO EM DUPLA

SEU LEGADO É O LEGADO DA BASF
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Introduzido no Brasil há cerca de 25 anos por criadores paulistas, que importaram os primeiros exemplares da Itália, o PMA virou xodó dos ovinocultores do Sul do país nos últimos anos, e pode ser visto em muitas fazendas gaúchas. O produtor rural Ramiro Cerutti de Oliveira, de Cruz Alta, na região noroeste do estado, aderiu ao PMA em 2016, para proteger seu rebanho de mais de 500 ovinos Île-de-France do abigeato, depois que ladrões levaram 55 animais da Cabanha da Divisa numa única noite. Começou com um casal. Gostou tanto da performance dos cachorrões brancos de origem italiana que hoje tem oito. Tornou-se também criador de PMA para comercialização.

Em cinco anos, Cerutti observou que os cães trabalham melhor em duplas: enquanto um se deita ao lado do rebanho, o outro circula pela propriedade. A intervalos mais ou menos regulares, trocam de papel. “Desde que os maremanos vieram para cá, não tivemos mais problemas com predadores. Nem com os predadores de duas patas, os abigeatários”, brinca. “O roubo de animais caiu 80%.” O ideal, acrescenta o produtor, é trabalhar com pares de cães. “Não é conversa de vendedor, mas sempre aconselho meus clientes a levarem dois cachorros. Não sei se os bichos combinam entre si o que fazer”, brinca, “mas o fato é que, assim, o trabalho deles rende mais”.

 

“A razão pela qual a cor selecionada para esta raça é branca é porque o branco é prático: facilita o controle da raça e também é da mesma cor da lã das ovelhas dos Abruzos e, portanto, mais aceita por elas.”

Quem também se deixou seduzir pela eficiência do PMA como cão vigia de rebanhos foi o pecuarista André Felker, de Guaíba, na Região Metropolitana de Porto Alegre, que comprou as primeiras quatro fêmeas em 2017, para proteger seu recém-formado rebanho de 350 ovinos da raça Poll Dorset. “Tivemos problemas logo na primeira parição dos cordeiros: ataques de sorro e de pumas. Mas funcionou. Depois disso, teve ano que vizinhos perderam metade dos cordeiros nascidos por causa dos predadores e nós não sofremos nenhuma perda”, diz.

NÃO É UM PET

Zootecnista com pósgraduação em Comportamento Animal, Roberta Farias Silveira, de Pelotas, no Rio Grande do Sul, começou a estudar os cães PMA em 2015, no Uruguai. Autora do livro Cães de Guarda de Rebanhos Ovinos, ela presta consultoria a fazendeiros interessados em proteger seus rebanhos da predação e do abigeato e faz sucesso nas redes sociais com o perfil Maremano Sul. Roberta está convencida de que o PMA é o cão de guarda mais bem adaptado às condições brasileiras. Mas, em suas pesquisas, descobriu que só a carga genética não torna um maremano um bom guardião de rebanhos – é preciso cuidar, também, de sua formação, que se completa por volta de 1 ano de idade.

Nesse sentido, a zootecnista alerta que o cão de guarda deve ser visto como uma ferramenta de trabalho na propriedade, e não como uma animal de estimação. Quanto menos contato com as pessoas da propriedade, melhor. Os filhotes devem ser inseridos no rebanho a partir dos 3 meses de vida – e ser impedidos de se aproximar das casas. As ovelhas passam a ser a sua família, a qual ele deve proteger. “Os cães devem se alimentar junto com o rebanho. Nada de levá-los para casa e fazer carinhos. Não se pode ter pena por causa da chuva e do frio”, ensina.

“Em relação à sua pelagem, foi cientificamente descoberto que o pelo deste cão não é branco, mas simplesmente transparente. A percepção da cor branca é o resultado do reflexo das ondas visuais através de espaços vazios, sem pelos.

Pode parecer duro, mas, como explica Roberta, se o produtor quiser um vigilante eficiente para o seu rebanho, precisa abrir mão de sentimentalismos. “O cão é destinado às ovelhas.” Um bom cão de guarda é o resultado da combinação de três fatores: genética, formação e conduta do seu tutor, resume a autora. O ovinocultor Felker concorda, e aconselha os novos criadores: “Não tratem os maremanos como pet e os mantenham com o rebanho desde que nascem. As nossas cadelas parem no campo. São animais rústicos e assim devem ser criados. Isso não significa descuidar de vacinas e de uma boa alimentação. O instinto da raça cuida do resto”.

Mas, lindos e dóceis como são, sobretudo quando filhotes, muitos moradores da cidade não resistem aos encantos dos PMA e os transformam em… pets – que podem custar entre R$ 500 e R$ 3 mil, dependendo do criatório. Grupos de tutores de maremanos urbanos afirmam, nas redes sociais, que eles também podem ser fofos cães de companhia, desde que haja algum espaço para se exercitarem. Nada contra, dizem os criadores. Mas essa não é a finalidade para a qual eles foram selecionados ao longo dos séculos. O cão que convive com pessoas dentro ou em volta da casa não se adaptará à espartana lida campeira. A vida mansa pode anular completamente o instinto milenar de guardião de rebanhos que o consagrou.

 

CURIOSIDADES SOBRE O PMA

 

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