A ERA DOS AGROBOTS – ROBÔS

Primeiro foram os drones. Agora é a vez dos robôs terrestres invadirem as lavouras


Edição 26 - 31.08.21

A ERA DOS AGROBOTS - ROBÔS

Por Ronaldo Luiz

Quem vê lama não vê tecnologia. Quem vê drones voando sobre as lavouras enxerga apenas o princípio de uma invasão de robôs. Se as máquinas voadoras se tornaram ícones da era da agricultura digital, talvez seja a hora de se acostumar com outras máquinas autônomas percorrendo os campos e executando, com precisão, tarefas que até há pouco tempo imaginávamos ser exclusivas dos humanos. É preciso ser delicado para colher um morango? Somente olhos treinados podem identificar, em um pomar, a maçã que está pronta para ser sacada? Analisar o solo exige a coleta de amostras e seu envio a um laboratório? Não mais.

Inovações como essa já estão em uso ou em testes, com protótipos rodando em áreas rurais de vários locais do mundo.

A robótica agrícola vem avançando de modo significativo a cada ano. A despeito de ser uma área que demanda investimentos elevados, sobretudo a médio e longo prazos, os robôs terrestres na agricultura já são uma realidade em muitos países da Europa, Ásia e Estados Unidos (veja quadro). As aplicações mais comuns, até o momento, são para controle de ervas daninhas, colheitas automatizadas, análise de solo, capinação, pulverização de insumos agrícolas, entre outras.

As inovações, em grande parte, são estimuladas pela necessidade de incrementar a produção agrícola em ambientes com pouca disponibilidade de mão de obra nas áreas rurais. Trabalhos repetitivos, insalubres, excessivamente pesados e mal remunerados são bem menos atraentes a jovens de nações desenvolvidas que os postos oferecidos nas cidades pelo setor de serviços e, com isso, as fazendas vinham perdendo produtividade e competitividade. Nesses casos que os robôs acabam se tornando uma alternativa.

Além disso, com a gradativa popularização da tecnologia, a expectativa é de que os robôs agrícolas possam não apenas contribuir para poupar as pessoas de atividades braçais como também possam entregar maior precisão, segurança e velocidade às tarefas de campo, atuando de modo decisivo para tornar mais eficiente a gestão operacional, reduzindo custos, diminuindo desperdícios, aumentando produtividade, com impactos positivos para o resultado completo do negócio.

ROBÔS CAIPIRAS

SEU LEGADO É O LEGADO DA BASF
SEU LEGADO É O LEGADO DA BASF

Aqui no Brasil, com mão de obra abundante, a ideia de inserir robôs nas lavouras pode gerar um debate, legítimo, sobre os aspectos sociais envolvidos em uma possível redução dos postos de trabalho. Talvez por isso mesmo os principais ramos de pesquisa da robótica agrícola se debrucem sobre a automatização de áreas em que esse impacto é praticamente inexistente.

Como não poderia deixar de ser, o principal expoente nas pesquisas desse ramo no País é a Embrapa. Em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) – campus de São Carlos –, cientistas da unidade de Instrumentação da empresa de pesquisa agrícola desenvolveram o Mirã, um robô automatizado que usa a tecnologia de raios laser para analisar dados do solo direto no campo.

Em uma plataforma robótica, sobre quatro rodas, os pesquisadores conseguiram desenvolver e embarcar uma técnica avançada, que produz luz com características específicas, capaz de coletar, analisar e transmitir remotamente dados da composição física e química do solo, como a do potássio (K). A tecnologia é multiúso e faz aquisição de dados georreferenciados e gera um mapeamento bidimensional das propriedades do solo de uma região.

Para realizar a complexa tarefa, o Mirã leva a bordo uma tecnologia chamada espectroscopia de emissão óptica com plasma induzido por laser (Libs), a mesma utilizada pela Agência Espacial Norte Americana (Nasa) nos veículos Curiosity e Perseverance, enviados a Marte para prospectar a presença de água no planeta. O módulo Libs, projetado especificamente para ser montado sobre a plataforma, é composto de laser, telescópio e sensores ópticos associados.

A Libs é uma técnica óptica usada para obter informação da composição química elementar de uma amostra. A leitura é realizada após um disparo de laser, que transforma uma parte do solo em plasma, o qual emite uma luz que é captada por um espectrômetro. “Quando excitado, cada elemento emite uma radiação num comprimento de onda específico. Esses espectros são lidos pelo equipamento, que desse modo identifica os elementos químicos presentes”, explica a física Débora Milori, responsável pelo projeto na Embrapa Instrumentação.

Segundo o professor Marcelo Becker, pesquisador da Escola de Engenharia da USP de São Carlos, que também atuou no desenvolvimento do Mirã, o robô é um modelo prático, utilizado para provar a viabilidade do conceito e validá-lo em baixa escala, mas que já sinaliza os benefícios de sua adoção na agricultura de precisão, com ganhos de produtividade, redução de custos e de forma sustentável, porque não deixa resíduos químicos. “O produtor rural poderá obter informações estratégicas das condições do solo direto no campo, sem precisar de análises de fora da propriedade”, ressalta Becker, acrescentando que o Mirã também permite o embarque de sensores para diagnóstico de doenças e pragas.A ERA DOS AGROBOTS - ROBÔS

PPP TECNOLÓGICA

No Brasil, é claro, o desenvolvimento dessa área passa por mais investimentos em pesquisa e por um intercâmbio mais ativo entre os desenvolvedores de tecnologia, o produtor rural e os profissionais do campo, com destaque para os engenheiros agrônomos. “Isso é fundamental, porque senão teremos que importar soluções, que na maioria das vezes terão que ser adaptadas, já que nosso modelo de agricultura é diferente, de características tropicais”, afirma Becker. Outro ponto relevante, segundo ele, é a busca de parcerias públicoprivadas (PPPs) que possam viabilizar não só a parte da pesquisa em si como também a transformação da tecnologia em produtos comerciais, fato que, ainda, por exemplo, não aconteceu com o Mirã.

Considerado um dos cientistas mais influentes no mundo, de acordo com levantamento da Universidade de Stanford (EUA) publicado no Journal Plos Biology, Jayme Garcia Arnal Barbedo, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária, de Campinas (SP), acredita que o desenvolvimento da robótica terrestre na agricultura brasileira ocorrerá, em primeiro plano, em culturas que ocupam áreas menores e de maior valor agregado, como, por exemplo, os hortifrútis. Segundo Barbedo, grandes fazendas de grãos já estão bem automatizadas, com maquinários agrícolas altamente tecnológicos, e, nas tarefas onde pode haver encaixe para um robô, a questão de o custo da mão de obra ainda ser mais em conta se sobressai. “Há um componente financeiro-social nesse raciocínio de decisão para efetivação de uma troca.”

AGTECHS EM AÇÃO

As agtechs, empresas de tecnologia da informação que desenvolvem produtos e serviços para o agro, também são um outro elo da cadeia produtiva que vem enveredando pela criação de soluções robóticas para o setor. “Não restam dúvidas de que o futuro do agronegócio está totalmente atrelado à TI, já que esta é a ferramenta-base das soluções que vêm revolucionando o setor, e o melhor caminho para verticalização da produção e de garantia de maior produtividade e rendimento”, diz Felipe Matos, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups).

No Rio Grande do Sul, a AurosRobotics está desenvolvendo um robô autônomo para a área da fruticultura, inicialmente para maçã. Ainda em fase de prototipagem, segundo Alexandre Horn, diretor da empresa, o equipamento deve atuar na colheita dos frutos, mas retirando do pé os que estejam maduros, conforme parâmetros de um software de inteligência artificial embarcado no dispositivo robótico.

Outra jovem empresa gaúcha, a Instor Projetos e Robótica, desenvolveu, em parceria com a Saur Equipamentos, um robô para classificação de amostras de grãos no ato da entrega dos carregamentos que chegam das lavouras para os armazéns. Este já está disponível comercialmente. “Combinado ao braço robótico, que dispensa a necessidade de operador em todo o processo, há um sistema inteligente de processamento de imagem, que aponta as características das amostras em relação a variáveis, como, por exemplo, umidade, impurezas etc.”, diz Miguel Serrano, diretor de projetos da Instor.

Já o hub AgVenture, uma das aceleradoras credenciadas no programa de Inteligência Artificial do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), quer atuar como intermediadora de parcerias entre desenvolvedores de robótica agrícola de Israel – país de destaque quando se fala em agricultura digital – com parceiros brasileiros. “Estamos lançando neste segundo semestre um programa com este objetivo. Temos convênios com instituições como, por exemplo, a Fundação Procafé, de Minas Gerais, para a realização de projetospiloto de testagem de tecnologias internacionais no Brasil”, menciona Alain Marques, diretor de investimentos do AgVenture.

Locado em Israel, Ricardo Lomaski, parceiro de negócios do AgVenture, é o encarregado de filtrar as soluções em robótica agrícola desenvolvidas por lá e que possam ter encaixe no agro brasileiro. Segundo ele, os mais promissores são robôs para colheita de frutas, ordenha de leite, gerenciamento de granjas, entre outros.

SALVA VIDAS

Os usos são inimagináveis e devem ser estimulados, sempre com a preocupação de que a convivência deles com o trabalho humano seja prioridade. Um exemplo de como os robôs podem ser úteis nas fazendas, e não uma ameaça a empregos, foi o equipamento criado por dois estudantes de engenharia da Universidade de Nebraska – Omaha, nos EUA. Eles criaram um robô que pode evitar acidentes dentro de silos de armazenamento. Infelizmente, esse tipo de ocorrência não é exatamente incomum. No ano passado, 35 agricultores norteamericanos ficaram presos debaixo de toneladas de grãos. Vinte deles morreram.

O robozinho desenvolvido pelos estudantes chama-se Grain Weevil, tem o tamanho de uma pequena mesa de centro e conta com brocas de plástico giratórias na parte inferior, que ajudam a mover os grãos para os lados. Com comandos via controle remoto, ele inspeciona toda a área do depósito, quebra as crostas de grãos aglomerados e nivela a superfície se ela estiver irregular. Uma tarefa que antes exigia que um trabalhador se expusesse a um ambiente de risco pode ser executada, assim, por uma máquina amiga do homem. robôs

 

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