A SUSTENTABILIDADE É TECH

A inovação é a chave para uma agropecuária que produza usando insumos de forma racional


Edição 26 - 27.08.21

Por Lívia Andrade

A União Europeia acaba de anunciar um novo plano para combater o aquecimento global com uma série de medidas para a transição para uma economia de baixo carbono. O pacote ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento e Conselho Europeu, mas sinaliza que haverá taxas extras para alimentos produzidos sem levar em consideração os cuidados ambientais.

Nesta nova configuração mundial, a sustentabilidade deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade. O agronegócio brasileiro mostra-se antenado a essa nova tendência de uma produção que cuida do solo, da água e da biodiversidade. Prova disso é o mercado de produtos biológicos, que cresceu 70% em 2020. Mesmo no segmento de defensivos convencionais, o agricultor está cada vez mais criterioso, escolhendo produtos mais modernos e seletivos e recorrendo a tecnologias para uma pulverização de precisão, em que a aplicação fica restrita aos pontos do talhão em que há pragas.

O agro do futuro será cada vez mais tecnológico e alicerçado em conhecimento. O produtor rural terá que conhecer no detalhe as propriedades do seu solo, do clima e da incidência de chuva na fazenda para escolher os insumos e as soluções que mais se adéquam a sua realidade. A boa notícia é que o portfólio de inovações disponíveis no mercado é cada vez mais extenso e começa com a biotecnologia das sementes, que já vem tratada para oferecer resistência a insetos, o que resulta em uma grande economia de defensivos agrícolas e diesel, pelos

SEU LEGADO É O LEGADO DA BASF
SEU LEGADO É O LEGADO DA BASF

maquinários que deixam de entrar na lavoura.

E as novidades não param por aí. Segundo o StartupBase, o Brasil tem 13.828 startups, sendo que 299 são voltadas ao agro. Estas agtechs têm soluções que ajudam o agricultor desde a gestão agronômica, uso racional da água até a comercialização dos produtos. A seguir estão algumas das soluções que vêm fazendo a diferença e auxiliando o produtor rural no desafio de produzir cada vez mais, na mesma área, usando menos recursos.

O HELP DA BIOTECNOLOGIA

A biotecnologia vem contribuindo para os recorrentes recordes na safra brasileira de grãos desde que o Brasil adotou os organismos geneticamente modificados (OGMs), em 1998.

Graças a avanços nessa área, o incremento da produção foi muito maior que o aumento da área cultivada. “As plantas transgênicas resultaram num volume adicional de produção de 55,4 milhões de toneladas de grãos, sendo 4,55 milhões de soja; 50,8 milhões de milho e 46 mil toneladas de algodão”, diz Adriana Brondani, diretora e fundadora da Biofocus Hub, empresa que se dedica a acompanhar as tendências da

Cultivo de melões na Agrícola Famosa (RN): menos água para mais produtividade
Cultivo de melões na Agrícola Famosa (RN): menos água para mais produtividade

pesquisa e desenvolvimento relacionados à produção sustentável de alimentos.

Um dos focos das empresas do setor tem sido o desenvolvimento de plantas com tolerância ao estresse hídrico, uma das consequências das mudanças climáticas. No entanto, as biotecnologias predominantes no Brasil são as plantas tolerantes a herbicidas e as plantas Bt (Bacillus thuringiensis), resistentes a insetos. “A diminuição das perdas pelo ataque de pragas e a melhora na produtividade dos cultivos de plantas transgênicas levaram à economia de área plantada em 9,9 milhões de hectares no Brasil. Isso é equivalente a toda a área de soja plantada no Mato Grosso na última safra”, explica Adriana.

Os benefícios não param por aí. Em 20 anos de adesão à biotecnologia no Brasil, houve uma economia de combustível estimada em 377 milhões de litros. Isso significa que menos máquinas precisaram entrar nas lavouras e, graças a isso, houve menos compactação do solo e menos gases do efeito estufa foram emitidos. “Desde que começamos a usar transgênicos no campo, deixamos de liberar 27 milhões de toneladas de CO2. Isso equivale a retirar 16 milhões de carros das ruas por um ano”, esclarece a diretora da Biofocus Hub. Com o uso de cultivares de soja, algodão e milho tolerantes a herbicidas no Brasil, também houve uma redução de 16 bilhões de litros de água entre 1996 e 2010. “Isso é a quantidade de água suficiente para abastecer 370 mil pessoas”, diz Adriana.

No setor sucroenergético, o Brasil está na vanguarda da biotecnologia mundial, com as primeiras variedades transgênicas de cana-de-açúcar do mundo. O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) é quem está à frente dessas pesquisas. Desde 2017, a empresa já lançou seis variedades de cana Bt, sendo que duas já estão sendo cultivadas no País. Outras duas começaram a ser plantadas este ano e as variedades recémlançadas estão na fase de multiplicação. “Todas elas são resistentes à broca-da-cana, que é a principal praga da cana-deaçúcar e responsável por prejuízos ao setor em torno de R$ 5 bilhões/ ano”, diz Luiz Paes, diretor Comercial do CTC.

Economia: Broca-da-cana: novas variedades resistentes à praga ajudam no uso mais racional de defensivos
Broca-da-cana: novas variedades resistentes à praga ajudam no uso mais racional de defensivos

A diferença entre as canas Bt é que uma é mais precoce e para solos férteis, outra é tardia e para solos restritivos, uma variedade é para lugares mais chuvosos, outra para localidades com índice pluviométrico menor. Mas todas apresentam uma eficácia no controle da broca de no mínimo 95%, o que é excelente, uma vez que o controle químico protege no máximo 70%.

“O principal ganho da biotecnologia não é a economia de inseticida, que fica em torno de R$ 100 a R$ 200 por hectare. O maior benefício é evitar perda de produtividade causada pela broca”, diz Paes. Ao atacar uma cana adulta, a lagarta forma galerias, que são a porta de entrada para bactérias, fungos e outras doenças. “Cada 1% de infestação de broca come 1,5% da produtividade de açúcar. Se você tem uma área com 10% de infestação, a perda de produtividade será de 15%”, explica o diretor Comercial do CTC. Pelo fato de ser resistente à broca, a cana Bt gera de R$ 500 a R$ 2.000 adicionais por hectare.

Se toda cana do Brasil fosse Bt, isso implicaria na eliminação do consumo de 2 milhões de litros de defensivos agrícolas, economia de 144 milhões de litros de água e redução significativa nas emissões de CO2, já que as variedades são resistentes a pragas e reduzem a utilização de inseticidas, o que significa, menos gastos de combustível, já que haverá menor necessidade de uso de máquinas ou aviões para a pulverização.

Hoje, o Brasil é o segundo país em extensão de área plantada com transgênicos no mundo. A única preocupação não diz respeito à biotecnologia em si, mas ao descaso de parte dos agricultores em cumprir a exigência do refúgio, que consiste em cultivar uma faixa (que varia de 10 a 20% dependendo da cultura) de planta convencional ao redor da lavoura transgênica. Essa prática garante a manutenção de insetos suscetíveis à toxina Bt, o que prolonga a durabilidade da tecnologia.

SEM DESPERDÍCIO DE ÁGUA

O Brasil vive uma crise hídrica, com os reservatórios de água em níveis críticos. Além de comprometer o abastecimento de água da população, o drama atual está provocando o aumento da energia elétrica, comprometendo a irrigação de polos agrícolas e a navegação fluvial. E, infelizmente, essa situação caótica deve se repetir no futuro por causa do aquecimento do planeta, que acarreta as mudanças climáticas.

Nesse contexto, tecnologias que otimizem o uso da água na agricultura são fundamentais. Não por acaso, a Agrosmart – startup brasileira idealizada pela mineira Mariana Vasconcelos – ganhou o mundo inicialmente com inovações focadas em irrigação de precisão. A empresa instala estações meteorológicas nas fazendas e espalha sensores pelas plantações, que medem temperatura, umidade do ar, radiação solar e condições climáticas do solo e da planta. A partir desses dados combinados com imagens de satélites, um algoritmo dá a recomendação exata da quantidade de água que uma determinada plantação precisa, o que pode reduzir o uso do recurso hídrico em mais de 50%.

O sistema de irrigação com água eletromagnetizada da empresa suíça Aqua 4D é outra inovação que, embora tenha mais anos de estrada, tem feito toda a diferença. Em Monte Carmelo (MG), município com a maior área (mais de 16 mil hectares) de café irrigado do Brasil, uma pesquisa da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) demonstrou a eficácia da tecnologia na irrigação por gotejamento. “Ao longo de cinco safras, acompanhamos o desempenho do sistema [num produtor da localidade] e observamos uma eficiência, em média, 5% maior na uniformidade de distribuição de água”, diz Eusímio Fraga Júnior, pesquisador da UFU, campus de Monte Carmelo (MG).

A pesquisa foi realizada na fazenda de Luiz Augusto Pereira Monguilod e os resultados foram expressivos. “Neste experimento, utilizando 25% de água a menos, eu mantive a produtividade que tinha nas áreas sem irrigação eletromagnetizada”, diz o cafeicultor. E mantendo a mesma quantidade de água, a produtividade aumentou entre 5 e 8 sacas por hectare com o sistema de eletromagnetização.

De acordo com Júnior, a tecnologia quebra os aglomerados de água, facilitando a absorção pela planta. E há vantagens ainda maiores para locais com água de baixa qualidade. “Com o sistema, você muda a condutividade elétrica da água, a viscosidade e a planta consegue suportar um teor salino maior”, explica o pesquisador

É exatamente o que acontece na Agrícola Famosa, empresa na divisa dos estados do Rio Grande do Norte e Ceará, que no ano passado produziu 200 mil toneladas de melão e melancia. “Temos muitos poços com águas salobras, o que é um dos principais agravantes para produzir frutas”, diz Luiz Roberto Maldonado Barcelos, sóciofundador da Agrícola Famosa, que hoje tem 5 mil hectares com a tecnologia.

A companhia faz a irrigação por gotejamento e, em 2014, começou a utilizar o sistema com água eletromagnetizada. “Hoje, são mais de 5 mil hectares com a tecnologia, o que resultou num aumento de produtividade entre 12 e 20%, quando comparado com os cultivos sem o sistema”, diz Barcelos. “Os custos variam entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil por hectare, dependendo da lâmina de irrigação adotada”, acrescenta. E há ainda benefícios indiretos. “O tratamento eletromagnético da água limpa as sujeiras que se acumulam nas paredes da tubulação, o que melhora o desempenho do sistema”, diz Júnior.

GESTÃO AGRONÔMICA

A revolução tecnológica no agro é um fenômeno recente. Começou de forma embrionária nos anos 2000 e ganhou fôlego a partir de 2010. Junto com ela, o agricultor foi aprendendo a tocar a propriedade rural não como “o campo da família”, mas como uma empresa. “É uma mudança positiva, o agricultor está entendendo a fazenda como negócio e está em busca de gestão”, diz Ivana Manke, diretora de Marketing da Checkplant, empresa que nasceu em 2003 voltada ao desenvolvimento de softwares agrícolas.

Um desses softwares, o Farmbox, é voltado ao gargalo inicial de quase todas as propriedades agrícolas, que é fazer o bê-á-bá bem-feito. Em outras palavras, adotar as boas práticas agrícolas e executar um bom manejo da lavoura. Há diferentes planos. O mais completo abrange desde o monitoramento para o diagnóstico do campo, o planejamento da semeadura, a gestão das aplicações de fertilizantes e defensivos e o controle de estoques e custos.

Na prática, um dos diferenciais do Farmbox é ajudar o produtor a fazer um minucioso Manejo Integrado de Pragas (MIP) e só entrar com defensivos agrícolas quando a incidência de insetos, ácaros ou ervas daninhas atingir um índice que pode causar dano econômico. “O objetivo é acertar o timing e fazer uma aplicação segura com base nas informações que vieram de campo”, diz Ivana.

O princípio por trás do software é o uso racional de insumos agrícolas. Fora a aplicação de fungicidas, que realmente deve seguir um calendário, as demais precisam ser avaliadas. “Muitos agricultores aproveitam que vão entrar com o fungicida e já colocam mais um pesticida para combater outra praga que ele nem sabe se está presente no campo e em qual quantidade. Mas com o Farmbox ele consegue enxergar isso”, diz a diretora da Checkplant.

Essa gestão minuciosa, além de resultar em uma produção sustentável, também significa economia para o produtor. É o que prova o experimento da Fertigeo. A empresa de pesquisa e consultoria agronômica fez um plantio de 80 hectares de soja no município de Rio Verde (GO) na safra 2020/21. Ela plantou dois talhões pareados. No primeiro, seguiu as recomendações de manejo do Farmbox; no segundo, fez as aplicações calendarizadas.

Com o uso do Farmbox, o resultado foi uma economia de R$ 81,57 por hectare pela redução de uma aplicação de inseticida. E houve ganhos indiretos: o manejo com o software trouxe um maior equilíbrio entre pragas e inimigos naturais, devido à utilização de produtos mais seletivos como os microbiológicos e a aplicação de controle apenas quando necessário.

O leque de tecnologias à disposição dos produtores é enorme. Hoje, as principais empresas do setor no mundo têm plataformas digitais voltadas a ajudar o agricultor a produzir mais, na mesma área, utilizando menos recursos. Só para exemplificar, a Basf tem o xarvio, a Bayer tem a Climate FieldView; a Syngenta, a Cropwise; e a Corteva, a Granular.

PULVERIZAÇÃO DE PRECISÃO

economia: Pivô de irrigação: Inteligência embarcada nos equipamentos permitem otimizar uso de água nas lavouras
Pivô de irrigação: Inteligência embarcada nos equipamentos permitem otimizar uso de água nas lavouras

A gestão dos insumos usados em campo será mais eficiente à medida que o produtor conhecer mais a fundo cada talhão de sua propriedade. A maior parte das plataformas de agricultura digital em uso já incorpora soluções de sensoriamento remoto, que se baseiam na análise de imagens para gerar informações sobre diferentes variáveis relevantes para agricultores e pecuaristas, da situação hídrica à presença de plantas daninhas. Tudo começa com o monitoramento, que pode ser feito por veículos aéreos não tripulados (Vants), drones, satélites ou sensores embarcados em máquinas agrícolas, que capturam as imagens. Os sistemas de análise, em geral dotados de tecnologias de inteligência artificial, indicam quais talhões da lavoura têm maior ou menor incidência de pragas, por exemplo. Com base nesse mapeamento, o operador entra com o maquinário na lavoura e, ao invés de pulverizar toda a área, faz aplicações localizadas apenas nos pontos com infestação.

A conexão de diferentes tecnologias já permite a automação de operações como irrigação e pulverização de acordo com os dados obtidos pelo sensoriamento remoto e também de sensores localizados nos próprios equipamentos de campo. Pivôs de irrigação inteligentes, por exemplo, conseguem combinar imagens de satélite, de drones e de câmeras embarcadas na própria estrutura para gerar informações sobre eventuais anomalias no campo, ajudando não apenas na gestão da água utilizada em cada ponto, mas também na definição de aplicações de fertilizantes e defensivos.

A fabricante de máquinas Jacto trouxe outra inovação para a pulverização de precisão. Sua mais recente família de pulverizadores conta com uma solução chamada EletroVortex, que nada mais é que um sistema que utiliza fluxo de ar aliado ao conceito de eletrostática para fazer o defensivo agrícola chegar em toda a área foliar da planta, mesmo quando a lavoura está em fase avançada de desenvolvimento. “Esta tecnologia permite usar o produto químico de maneira racional por causa do mecanismo de cortina de ar, que possibilita aplicações mesmo em condições adversas”, diz Wanderson Tosta, diretor de Marketing da Jacto. Isso reduz a deriva em 35%, otimizando o desempenho operacional. Para chegar a uma agricultura mais sustentável, como se vê, a tecnologia oferece muitos caminhos. economia economia economia economia economia 

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TAGS: Agronegócio, ambientais, aquecimento global, Biotecnologia, carbono, economia, PULVERIZAÇÃO