Empregos: Dois terços poderão ser automatizados

O avanço da robótica agrícola, certamente, acentuará as mudanças no perfil de empregos no campo


Edição 26 - 04.10.21

O avanço da robótica agrícola, certamente, acentuará as mudanças no perfil de empregos no campo, bem como trará impactos, sobretudo para os pequenos produtores rurais. Para entender melhor este cenário, PLANT conversou com Gabriel Delgado, representante do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) no Brasil, organismo que tem forte atuação nas questões relacionadas às relações de trabalho na agricultura. Confira:

SEU LEGADO É O LEGADO DA BASF
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Em diferentes ritmos, de acordo com cada país, cada realidade, a robotização avança na agricultura. Isso resultará em menos postos de trabalho no campo?

Quando consideramos os processos envolvidos nas etapas do trabalho, de fato, a robótica pode substituir mão de obra e isso acontece também em outras indústrias. Vi recentemente um estudo da Federação Internacional de Robótica (IRF) que mostra que a média mundial de robôs para cada 10 mil trabalhadores é de 99. Claro que as variações são enormes. Em Singapura é de 831; na Alemanha, 338; nos Estados Unidos, 217; e no Brasil, apenas de 12. Ou seja, com o desenvolvimento tecnológico, esses números ainda vão crescer muito e, consequentemente, os impactos no trabalho serão grandes. Por outro lado, outro estudo, do Centro para a Performance Econômica da London School of Economics em 17 países, mostrou que o aumento do uso de robôs teve impacto positivo no PIB e na produtividade do trabalho entre 1993 e 2007.

Então, temos uma questão econômica e um desafio social. Há uma grande discussão internacional sobre as muitas indústrias em que as tarefas de rotina provavelmente serão substituídas por robôs. Na indústria agropecuária e dos sistemas alimentares em geral, a reinserção desses trabalhadores pode acontecer em diversos outros planos, como nos sistemas de controle ou em processos que sejam criados para agregar valor à produção.

Os robôs ficarão encarregados de tarefas, digamos, mais rústicas, livrando as pessoas dessas funções. O caminho será o de capacitar as pessoas para outras atividades?

Será muito difícil substituir as tarefas criativas por robôs. Eu acho que a reinserção laboral das pessoas é muito importante e a capacitação é, certamente, um caminho, mas não acho que seja o único. Talvez tenhamos que fazer uma avaliação mais profunda dos trabalhadores envolvidos em todos os processos, porque percebe-se que as indústrias podem reinserir trabalhadores comprometidos e destacados, por mais que façam tarefas rotineiras, em outras áreas das empresas, principalmente se, com sua atitude e compromisso, agregam valor.

É verdade que a robótica, para além deste problema da substituição, que realmente pode surgir, também pode levar os seres humanos a deixarem de fazer trabalhos insalubres. Parece um dilema: continuar com mão de obra insalubre ou robotizar trabalhos insalubres e substituir mão de obra.

Se a tecnologia já permite que nós, seres humanos, deixemos de fazer trabalhos desumanos, por que não pensar que pode haver outra reinserção laboral mais humana para essas pessoas e permitir que as transformações tecnológicas facilitem, de alguma maneira, o desenvolvimento econômico, social e humano de nosso planeta?

Acho que será necessário eleger caminhos mais complexos, como o da reinserção das pessoas em novos processos e novos trabalhos, inclusive nas mesmas companhias. É preciso incentivar processos de investimentos para que a economia cresça e possamos criar empregos.

SUA UNISA PRECISA DE MANUTENÇÃO DURANTE A ENTRESSAFRA? NÓS TEMOS A SOLUÇÃO.
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Agora temos os empregos verdes. Espera-se que, depois da pandemia, os empregos terão que ser cada vez mais ambientalmente amigáveis. Já em 2012, o Radar: Tecnologia, Produção e Comércio Exterior, do Ipea, apontou que a agricultura e, sobretudo, a pecuária são os setores com o maior potencial para empregos verdes. Na época, o estudo indicava que mais de 85% dos postos nessa área têm a possibilidade de minimizar os impactos no meio ambiente de alguma forma.

Eu sou otimista com o uso da tecnologia e creio que o Estado tem que entrar de forma muito sólida nos programas sociais para não interromper processos tecnológicos. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), no relatório “O Futuro do Trabalho”, divulgado em 2019, afirma que até dois terços dos empregos do mundo poderão ser parciais ou totalmente automatizados nas próximas décadas, portanto a inteligência artificial, automação e robótica levarão a uma perda de empregos, mas esses mesmos avanços tecnológicos, juntamente com a economia verde, vão criar milhões de empregos se as novas oportunidades forem aproveitadas.

A robotização poderá ser acessada e trazer benefícios ao pequeno agricultor também?

Creio que muitas das novas tecnologias têm economia de escala. Por isso, é tão importante apostar que os pequenos produtores possam, através de diferentes sistemas de trabalho conjunto, como o cooperativismo, levar a cabo mudanças em seus processos produtivos que permitam que eles possam competir em escala, qualidade, preço e cuidado com o meio ambiente.

No entanto, com relação aos pequenos agricultores, antes de pensar nas externalidades positivas que a tecnologia pode gerar, temos ainda uma importante lição de casa, que é conectar o campo, para que esses produtores possam ter acesso à internet que permita que eles alcancem os mercados.

A inteligência artificial já está mudando a forma de produzir e, com a chegada do 5G, as mudanças serão aceleradas. O grande desafio é fazer com que os benefícios dos usos de inovações, das ciências e das tecnologias no campo cheguem aos pequenos agricultores de forma a evitar que algo positivo, como a incorporação de tecnologias com potencial para aumentar a produtividade, aumente também a desigualdade no campo.

Dois elementos são essenciais para que a tecnologia seja motivo de prosperidade no campo e não de aumento da desigualdade: a conectividade e, aí sim, a capacitação com assistência técnica e extensão rural. A incorporação plena de habilidades digitais é fundamental para a transformação positiva.

 

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Dois terços dos empregos poderão ser automatizados

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