Quebrando o ciclo do desmatamento na Amazônia

A resposta está nas finanças? Por Tatiana Cneio Alves* ___________________________________________


29.08.22

A resposta está nas finanças?

Por Tatiana Cneio Alves*

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Historicamente, uma série de atividades econômicas (legais mas muitas vezes ilegais também) têm pressionado a Amazônia brasileira, esgotando seus ecossistemas críticos e empurrando-os ao que os cientistas alertaram estar perto de um ponto de inflexão – aquele em que a floresta perderá sua capacidade de manter-se em seu estado atual ou recuperar-se de distúrbios como a seca ou outros eventos climáticos extremos. Isso afetaria drasticamente o ciclo hídrico da região e, eventualmente, a floresta tropical poderia se tornar uma terra seca, uma savana, um território árido.

Isso tudo se soma aos 90 bilhões de toneladas de CO2 que seriam lançados na atmosfera no processo.

Da mesma forma, os meios de subsistência de muitas comunidades da região estão ligados a cadeias de valor e processos produtivos que não só degradam o ambiente circundante, mas esgotam as florestas naturais. Se por um lado esses processos fornecem meios de subsistência para comunidades rurais e florestais, eles não são sustentáveis para as pessoas ou para o meio ambiente. No curto prazo, muitas dessas atividades econômicas são seguras, na medida em que estão lá e fornecem uma renda, mas isso não significa que elas permanecerão assim no longo prazo.

Sem as ferramentas e recursos para investir e manter adequadamente o solo para que este continue sendo produtivo, muitos pequenos e médios agricultores acabam vendo suas terras se tornarem não aráveis e degradadas, sendo finalmente convertidas em pastagens. Uma vez que o gado pastou, os produtores de gado cortam e queimam mais florestas para ampliar o espaço para pastagem. Isso permite que o pasto cresça por algum tempo, mas em algum momento o solo é novamente arruinado.

Assim nasce o ciclo vicioso.

A maioria dos pequenos e médios agricultores na Amazônia não conseguem acessar financiamento para investir em atividades agrícolas sustentáveis, restauro produtivo e/ou pecuária sustentável, ou seja, atividades que respeitem a manutenção dos solos e, portanto, a produtividade da terra, bem como a manutenção das florestas existentes. Sem o financiamento para investir e mantê-los enquanto esperam que a colheita ocorra, eles escolhem, por uma questão de sobrevivência, algo que vai lhes render dinheiro no curto prazo – e muitas vezes atividades não sustentáveis como, por exemplo, a pecuária extensiva ou outras atividades que depredam a floresta e os solos é a resposta.

E no caso a pecuária pode ser uma opção viável quando feita corretamente, mas para isso ela também requer investimentos e assistência técnica para garantir sua sustentabilidade e viabilidade. Mas pequenos e muitos médios agricultores simplesmente não têm acesso nem ao financiamento nem à assistência técnica.

Até recentemente, os compradores e os grandes mercados internacionais de commodities não se importavam de onde vinham os produtos, como eram produzidos e se eram de origem sustentável. Agora há uma explosão de interesse em bens que são rastreáveis, sustentáveis, geram benefícios sociais e são livres de desmatamento. Os frigoríficos, por exemplo, estão sob grande pressão para monitorar suas cadeias de suprimentos, as tradings de soja, cacau e palma, entre outros, estão exigindo rastreabilidade e os clientes estão buscando produtos de origem sustentável que estejam associados a florestas em pé e outros impactos associados à forma como são produzidos. Há até um mercado crescente para os chamados “superalimentos”, muitos dos quais, como o açaí, são nativos da Amazônia e podem, sim, contribuir para uma floresta em pé que gere renda.

Tudo isso está culminando em uma enorme oportunidade de mercado para pequenos agricultores, comunidades de base florestal e pequenas e médias empresas que operam nessas cadeias de valor na Amazônia. Mas, só porque há um aumento da demanda por tais produtos, não significa que as economias da Amazônia estejam prontas ou capazes de atendê-la.

Então, qual é a solução?

Não basta simplesmente fornecer aos pequenos agricultores, seus fornecedores ou comunidades rurais e florestais acesso a linhas de crédito ou financiamento. Recursos devem ir lado a lado com a assistência técnica para apoiar e ensinar aos pequenos agricultores como implementar práticas sustentáveis, colocar sistemas agroflorestais em práticas agrícolas e pecuárias e combinar diferentes culturas para fornecer receitas ao longo do tempo e em diferentes estágios de cultivo.

Além disso, é também fundamental apoiar o ecossistema que os cerca. Desde as cooperativas que trabalham com pequenos agricultores apoiando-os na coleta sustentável, até a logística e transporte de mercadorias para o mercado, e a colocação da infraestrutura para refrigerar itens ou rastreá-los através da cadeia de valor, a jornada só começa com o apoio aos pequenos agricultores e comunidades de base florestal, mas muito mais é necessário e deve ser fomentado em conjunto.

Se não resolvermos as falhas de mercado em torno dos produtores, comunidades de base agrícola e florestal, canalizar as finanças para a região está fadado ao fracasso. Devemos fornecer, apoiar e fortalecer meios de subsistência alternativos que fomentem um uso sustentável dos recursos naturais e dos quais a comunidade tenha orgulho de fazer parte e onde se sinta confortável trabalhando para ganhar uma vida sustentável.

A solução do lado da demanda também é multifacetada, seja com a criação de veículos de investimento que permitam financiamento público e privado (conhecidos como mecanismos de “blended finance”) a fim de preencher a lacuna para empresas e cooperativas que agregam agricultores familiares ou compram seus produtos, seja com o fornecimento do suporte técnico para a implementação de melhores práticas, ou com uma maior organização interna para estruturação de melhores práticas e processos que levem a uma sustentabilidade de fato das corporações que compram desses produtores, levando apoio técnico às suas cadeias para estruturarem melhores práticas e uma melhor governança na região.

 

Certamente não é simples, mas é possível. E vimos que já começou.

Muitas empresas que compram, processam e vendem commodities estão agora trabalhando com diferentes players em suas cadeias de suprimentos para melhorar suas estruturas e assim garantir o fornecimento de produtos cultivados de forma sustentável e que gerem valor àqueles que participam destas, construindo conexões mais próximas com os agricultores e apoiando a implementação de práticas sustentáveis por meio de assistência técnica, finanças e garantia de compra.

Os bancos comerciais também estão dando passos nesse sentido buscando formas de facilitar o acesso a financiamento às práticas sustentáveis na região. Alguns exemplos fora do Brasil já implementam mecanismos de assistência técnica associado ao financiamento que concedem, mas tanto em outros países da Amazônia como no Brasil podem ir além, combinando forças com fundos de investimento de impacto focados na região, fornecendo produtos complementares em diferentes pontos das cadeias de fornecimento, combinando esforços em assistência técnica junto aos diferentes players e chegando até comunidades rurais que atuam nessas cadeias, viabilizando assim a produção e o fornecimento de produtos sustentáveis, rastreáveis e sem desmatamento para o mercado. Uma completa integração no fornecimento de produtos sustentáveis.

A floresta não está desmatando a si mesma; há incentivos para que as pessoas façam isso acontecer. Mas, se pudermos abordar os incentivos perversos agora, temos a oportunidade de não apenas salvar nossas florestas, mas melhorar as condições atuais para que as comunidades rurais e florestais ao seu redor colham os benefícios de estarem ligadas a cadeias de valor sustentáveis e rentáveis.

Só então vamos quebrar o ciclo.


*Tatiana Cneio Alves é diretora de Finanças Sustentáveis e Gestora de Fundos Selva na Palladium. Possui 25 anos de experiência trabalhando com mercados financeiros e ambientais, desenhando mecanismos financeiros e programas para canalizar investimentos em mitigação e adaptação climática na América Latina, com foco no uso da terra. É bacharel em Economia, mestre em Economia e Finanças pela Universidade de São Paulo, e mestrado em Assuntos Internacionais com foco em Finanças Ambientais e Política pela Columbia University.