A aposta nas gigantes

Por Sergio Quintanilha


Edição 29 - 23.05.22

Montadoras apostam nas picapes de grande porte para seduzir os consumidores do agro.

Se o agro é gigante, as picapes também precisam crescer. O pensamento parece ter se instalado em parte do segmento automotivo de picapes, que entende que tamanho é documento quando se trata de acompanhar a pujança do agronegócio brasileiro. As opções de modelos de grande porte ainda são poucas, mas, com a concorrência acirrada entre as pequenas e as médias – mercado liderado por marcas tradicionais como Nissan, Chevrolet, Ford, Fiat, Renault e Mitsubishi –, já há indícios de que elas podem se tornar o próximo trunfo de algumas marcas para seduzir o público rural, capitalizado com sucessivas safras recordes e com a valorização dos preços das commodities agropecuárias.

A corrida das gigantes apenas começou. A marca que mais aposta nesse filão é a Ram, que pertence ao grupo Stellantis (dona de grifes como Jeep, Fiat, Citroën e Peugeot). Ainda este ano a Ram vai lançar sua terceira picape de grande porte no Brasil: a 3500 HD. Será a mais potente à venda no País. A 3500 HD (de Heavy Duty ou Trabalho Pesado) terá 12 cavalos a mais do que a Ram 2500 Laramie, ou seja, 377 cv de potência. Ela também terá mais força – 65 Nm de torque a mais e um total de 1.150 newton-metros. Essa combinação de potência e torque permite que ela carregue 1.752 kg e reboque até 9.021 kg. São números incomparáveis para o mercado brasileiro. Em relação à picape Ram 2500, a Ram 3500 terá 664 kg a mais na capacidade de carga e 1.160 kg a mais na capacidade de reboque.

A nova aposta mostra que os consumidores brasileiros estão pensando cada vez maior quando se trata de picapes. De 2016 a 2020, a única opção no segmento de picapes grandes era a 2500, com motor 6.7 turbodiesel de seis cilindros em linha. Com 365 cavalos, 1.085 Nm, câmbio automático de seis marchas e tração integral temporária, a Ram 2500 só pode ser conduzida por motoristas que tenham carteira de motorista da categoria C. Também há algumas restrições para circulação na cidade. A mesma regra vai valer para a Ram 3500. Por causa dessas restrições, em 2021 a Ram trouxe o modelo 1500 Rebel, que pode ser conduzido por motoristas com CNH da categoria B.

Mais leve e mais esportiva, a Ram 1500 Rebel significou uma virada no mundo das picapes grandes. Já no primeiro ano houve uma corrida pelo modelo, que tem motor a diesel 5.7 V8 aspirado de 400 cavalos. Mais de 500 unidades foram vendidas. Com uma aceleração digna de carro esportivo (5,7 segundos para ir de 0 a 100 km/h), a Ram 1500 Rebel fez tanto sucesso que aumentou também a procura pela Ram 2500 Laramie. As vendas subiram de 1.475 para 2.227 unidades em apenas um ano.

Mas se a Ram faz tanto sucesso com suas picapes importadas dos Estados Unidos, por que está sozinha no mercado? Questão de prioridade das marcas para atuar no Brasil. Tanto a Ford quanto a GM têm picapes que competem com os modelos da Ram – e são mais tradicionais do que elas! Do lado da Ford, as picapes F-Series (F-150 e F-250) são as mais vendidas do mercado americano há 48 anos. A Ford também foi a primeira marca a responder à Tesla, que apresentou uma picape 100% elétrica, a Cybertruck. A Ford F-150 Lightning estreou em grande estilo como primeira picape elétrica de grande volume e foi conduzida por ninguém menos que o presidente Joe Biden. Desde 1948, a Ford já vendeu 40 milhões de picapes  F-Series.

Para o Brasil, entretanto, as ambições da Ford são outras. Depois que encerrou a produção no País, a Ford deu prioridade a dois projetos: a nova geração da Ranger (picape média produzida na Argentina) e a inédita Maverick (picape compacta produzida no México que estreia no Brasil para ser uma espécie de anti-Fiat Toro, posicionada abaixo da Ford Ranger). Para além disso, a Ford teve um certo desencanto com a F-250, que foi produzida no Brasil e na Argentina de 1998 a 2012. A Ford não tem planos imediatos de entrar na briga das picapes grandes – talvez o faça quando o mercado estiver maduro para receber a F-150 Lightning (elétrica).

A General Motors, por sua vez, também está envolvida no desenvolvimento de uma anti-Toro, a nova geração da Chevrolet Montana, que vai crescer de porte. Há também investimentos na Chevrolet S10, com novas versões, como a recente Z71, mais esportiva. Quanto às suas picapes de grande porte, dificilmente a GM apostará em marcas na marca GMC. Faz sentido ficar só com a Chevrolet. Afinal, com exceção da Hummer EV – uma picape capaz de andar de lado, como caranguejo, que ataca diretamente a Tesla Cybertruck –, as picapes GMC Canyon e GMC Sierra não passam de variações dos modelos da Chevrolet.

Na linha Chevrolet, a GM tem os modelos Colorado (similar à nossa S10), Silverado e Silverado HD. Para não ficar atrás da Ford Lightning, a GM apresentou recentemente a novíssima Chevrolet Silverado EV (sigla de Electric Vehicle). A picape Silverado totalmente elétrica terá autonomia de 640 km, aceleração excepcional (0 a 100 em 4,5 segundos), 590 kg de carga útil (não é muito) e 4.535 kg de reboque. A Chevrolet Silverado EV chega ao mercado norte-americano em 2023. Mas a Stellantis não quer ficar atrás da Ford e da GM neste eldorado dos carros, por isso já anunciou que também terá uma picape totalmente elétrica, baseada na Ram 1500, a partir de 2024.

Ainda em relação à GM, a Chevrolet Silverado tem a vantagem de ter algumas versões produzidas no México, que possui livre-comércio com o Brasil e a Argentina. A GM chegou a anunciar a chegada da Silverado para o mercado argentino, mas depois preferiu focar em outros projetos. Por isso, pelo menos por enquanto, as três picapes da Ram – 1500, 2500 e 3500 – têm campo aberto para explorar a sede de consumo dos apaixonados por picapes no agronegócio brasileiro. Uma nova classe de consumidores surgiu nos últimos anos, formada por empresários que atuam no agro, mas que moram em grandes cidades. É a este público que se destina a Ram 1500 Rebel e os modelos mais esportivos das tradicionais picapes médias (Toyota Hilux, Chevrolet S10, Ford Ranger, Nissan Frontier, Mitsubishi L200 e Volkswagen Amarok).