Mais água no café

Por Felipe Porciúncula


Edição 28 - 14.03.22

Grunner – A tecnologia do campo para o campo

Cafeicultores do Cerrado Mineiro enfrentam mudanças climáticas protegendo suas nascentes e córregos.

No mês de julho passado, o Cerrado Mineiro sofreu muito com a geada e a estiagem. A intensidade dos fenômenos deve provocar efeitos duradouros na produção agrícola, sobretudo no café, que se adaptou bem na região e hoje tem sua qualidade reconhecida internacionalmente. Segundo a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), a safra 2022 já está comprometida, já que as floradas do cafezal foram prejudicadas. O prejuízo total ainda é avaliado por agrônomos, mas a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) já estima que possa ser 7 milhões de sacas de café no próximo ano.

“Essa é uma das culturas que mais dependem da água em todo o seu ciclo, porque mesmo quando não se perde a produção, a qualidade do grão é afetada. Em 2015, já tivemos esse problema e compramos café abaixo de nosso padrão de qualidade porque os grãos cresceram menos”, explica Guilherme Amado, líder do Programa AAA de Qualidade Sustentável da Nespresso.

Mudanças climáticas, que podem tornar ainda mais frequentes as crises hídricas, preocupam produtores e a indústria – mesmo em Minas Gerais, estado banhado por oito das doze principais bacias brasileiras. Já em 2019, um relatório da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) alertava que a elevação da temperatura por conta do veranico de dezembro de 2018 teria provocado uma queda na produção mineira em 24%.

Além disso, outro efeito colateral das mudanças climáticas ameaça a cultura: a redução de agentes polinizadores, que deve diminuir em 13% no Brasil inteiro até 2050, conforme o estudo “Efeitos das mudanças climáticas sobre os polinizadores de algumas culturas agrícolas no Brasil”, realizado em 2017, uma parceria entre a USP e o Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV), de Belém, Pará. A pesquisa mostra que a região onde o cenário futuro é mais desfavorável é o Sudeste brasileiro, onde estão os três principais estados produtores de café no Brasil: São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Dentre as 13 culturas agrícolas consideradas, o café é o terceiro mais afetado (15% de probabilidade de redução de polinizadores).

Para enfrentar tamanho desafio, um grupo de empresas (Lavazza, Nestlé e Nespresso), cooperativas de cafeicultores (Expocaccer e Cooxupé) e organizações internacionais como o CEPF (Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos, uma iniciativa conjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, União Europeia, da Fundo Global para o Meio Ambiente, do governo do Japão, e do Banco Mundial), além do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) resolveram agir. Criaram, em 2015, o Consórcio Cerrado das Águas, com o objetivo de mobilizar produtores a adotar práticas sustentáveis na produção do café. “A proposta desde o início já era unir a restauração ambiental com um modelo agrícola racional, que preservasse o nosso patrimônio que é o Córrego do Feio, a principal fonte hídrica da região, que banha uma área de 10 mil hectares”, enfatiza Fabiane Almeida, secretária executiva do Consórcio.

O primeiro passo foi levantar as principais necessidades da região, a partir de um estudo do Instituto Ipê, apoiado pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). Desde 2019, o Consórcio já investiu R$ 3,4 milhões no Programa de Investimento no Produtor Consciente envolvendo 124 produtores em Patrocínio (MG), principal município produtor de café arábica do País. Para se ter uma ideia, dos 1.200 fornecedores dos grãos da Nespresso, cerca de mil estão nesta região. “Além de apoiar as fazendas para serem mais sustentáveis, estimulamos um cuidado com a paisagem, para que o Córrego do Feio (que faz parte da Bacia do Rio Grande) pudesse ser mais saudável”, diz Fabiane.

Os resultados já podem ser percebidos. Um deles é a redução da erosão nas margens do córrego, o que garantiu uma menor retirada de água e um solo mais nutritivo. “Isso já dá para sentir hoje. Claro que a oferta maior de água só vamos sentir mais na frente, até porque com a seca recente isso atrapalhou um pouco. Mas já sentimos um movimento dos cooperados de se engajarem nesse novo modelo de produção, porque eles sentem a melhoria na prática”, explica Gláucio de Castro, presidente da Expocaccer (Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado). O trabalho está dando tão certo que já deve se expandir para outras áreas como a Serra do Salitre e o município de Coromandel, nesse mesmo formato.

Um bom exemplo é o do produtor Ricardo Bartolo. Ele tinha o desejo de produzir café orgânico, mas tinha uma falsa ideia de que fosse um processo semelhante ao extrativismo. Com a chegada do Consórcio, começou a perceber suas vantagens. “Hoje, nos meus 120 hectares, uso adubo de compostagem profissional e o defensivo é aplicado a partir de micro-organismos do arroz cozido, feito em uma biofábrica dentro da propriedade. Além de sustentável, é mais rentável, pois recebo 30% a mais por ser orgânico”, afirma Bartolo, que este ano ganhou o prêmio de Melhor Café, da Expocafé.

Por sua propriedade ficar próxima da nascente do Córrego do Feio, sua oferta de água é bem generosa. Para apoiá-lo de forma mais efetiva, a Lavazza, marca italiana de cafés especiais, implantou um sistema de monitoramento da irrigação da fazenda. A meta é que em cinco anos Bartolo retire apenas o essencial para sua produção, evitando o desperdício. O trabalho conta com o apoio técnico da Esalq/USP.

Um dos braços importantes do projeto é a restauração de áreas degradadas, principalmente as APPs. Já foram recuperados 100 hectares, em grande parte usando o processo de semeadura direta, com o apoio da Rede de Sementes do Cerrado. “Antes de começar o plantio propriamente dito foi feito um treinamento com alguns produtores na Chapada dos Veadeiros, onde fazemos a coleta e a armazenagem das sementes. No começo usaram sementes embaladas aqui, mas em um futuro próximo os próprios produtores vão estocar suas próprias sementes no Cerrado Mineiro”, diz Camila Mota, presidente da Rede de Sementes do Cerrado. Por conta da pandemia, uma grande parte da capacitação foi feita online.

Hoje a Rede de Sementes calcula que em torno de 70 kg por hectare é suficiente para reflorestar uma área degradada. O centro de armazenamento da rede conta com uma capacidade de 10 toneladas, com cerca de 68 espécies. Para cada plantio se faz uma seleção de espécies adequada para a região. No caso do Cerrado, além de frutíferas, se agrega gramíneas como a braquiária e arbustos. “Um fator importante a favor do café é que seu plantio já é realizado de forma consorciada com outras espécies por conta do sombreamento, que favorece a maior produção do café”, diz Camila.

A meta é que em breve os produtores possam receber por essa atividade de reflorestamento. “No começo já tínhamos esse pensamento. Acho que isso deve acontecer em breve. O importante é que os cafeicultores assimilem a importância do modo sustentável de produção. São dois movimentos essenciais: da porteira para dentro para cuidar bem da propriedade e da porteira para fora: favorecer a paisagem do Cerrado para que toda a região tenha corredores ecológicos”, lembra Michael Becker, coordenador do CEPF.

Um dos produtores já convencido dos benefícios do sistema é Sebastião Sereia, que entrou no projeto em 2019. Com uma propriedade de 32 hectares, tem 6,5 hectares de APP. “Aqui já foi reflorestado 0,5 hectare. Por enquanto estamos gostando, mas seria bom que recebêssemos por esse trabalho porque é muito árduo. A ideia do projeto é considerar a água um bem valioso. Quem vive do café sabe que sem o Córrego do Feio não temos chance de crescer. Nessa última geada perdi 3 hectares e só devo recuperar o prejuízo nos próximos anos. Aqui tiro normalmente 40 sacas por hectare e esse ano só vou conseguir colher dez sacas”, enfatiza Sereia.

Um indicador de como a situação da água se agravou na região é o grande aumento da área irrigada. O que antes era feito só com a chuva, hoje precisa do apoio dos aspersores. No caso do café, se faltar água no momento da pós-floração, o prejuízo é duplo, pois além de os grãos crescerem pouco, o que compromete o seu ganho, prejudica o próximo plantio, pois as sementes para a safra seguinte também serão afetadas.

“Aqui sentimos de perto o maior aquecimento da região, tanto é que vemos que muitos produtores buscaram terras mais altas (cerca de mil metros de altitude, com temperaturas entre 18 e 22 graus)”, diz Amado, da Nespresso. Para quem não consegue essas condições climáticas menos quentes, a saída é o plantio de arbustos, que protege o plantio do aquecimento. “Então a restauração ambiental, além de proteger os mananciais de água, com o sombreamento, favorece uma maior produtividade do café. O grande salto desse projeto é que todos os atores estão sintonizados com esse objetivo”, reforça Amado.

Não adianta se ter uma grande chuva só em um período e faltar em outro. É preciso regularidade em todo o ciclo. A estimativa é de que uma produção de café irrigada chega a produzir 50 sacas por hectare, enquanto a mesma produção no sequeiro chega a 35 sacas.

Uma das maiores vantagens do projeto para melhoria da produção do café no Cerrado Mineiro é que o acompanhamento técnico das propriedades melhorou o cuidado com o solo. “Hoje temos uma mudança de conceito no modo de produção, porque, aos poucos, estamos reduzindo a erosão no solo, com a introdução de massa verde. Já temos cerca de 20 cooperados no projeto e eles estão entendendo a necessidade não só de cuidar da sua propriedade mas da paisagem e do Córrego do Feio, porque sem a união de todos não teremos uma boa colheita de café a longo prazo”, lembra Castro, da Expocaccer.