A alquimia das ervas

Por Romualdo Venâncio


Edição 28 - 18.03.22

Uma sommelière de chás e um chef de cozinha decidiram apostar em novas maneiras de se aproveitar essa bebida muito além de uma xícara vespertina ou uma solução emagrecedora. Eles dizem ter criado uma “agência de turismo gustativo”

Diz a história que praticantes da alquimia, ao realizarem experiências unindo diversos elementos, buscavam a cura de todos os males, a vida eterna ou até uma transmutação espiritual. De um jeito ou de outro, a essência dessa ciência ancestral, até considerada mística, era a procura do bem-estar, do equilíbrio. Hoje em dia, esse conceito pode estar em uma xícara ou qualquer outro recipiente no qual se possa saborear uma infusão de chás associados a outros ingredientes, mas sempre de forma equilibrada. Essa é a aposta do casal Juliana Zannini e Henrique Campos, ela sommelière de chás e ele chef de cozinha, que criaram um novo negócio com o intuito de fomentar diferentes maneiras de se apreciar o chá como bebida, muito além do convencional. “No Brasil, o chá está bastante ligado a resolver alguma questão, algo funcional, como um ‘remedinho’ ou uma solução para perder peso”, comenta Juliana.

A empresa de Juliana e Henrique ganhou um nome sugestivo – Infusiva – e toda a linguagem em torno dos produtos está alinhada para transmitir, em cada detalhe, o cuidado na composição dos blends dos chás. “Toda nossa coleção foi criada com muito estudo, olhando para o lado químico e fitoterápico dessa questão. O sabor é um dos pilares da Infusiva, e só é conquistado com a mistura exata que fazemos dos ingredientes”, diz Juliana, destacando a exclusividade de suas criações. Por conta dessas variadas combinações, é possível encontrar em uma mesma embalagem itens como capim-santo, clitória, ginseng, folha de oliveira, anis-estrelado e jasmim (receita chamada de “Brilha”), ou então cúrcuma, menta, abacaxi, canela, manjericão e pimenta preta (chamada de “Restaura”).

Pelo olhar da gastronomia, Henrique enxergou no chá uma bebida muito potente, que traz notas e impressões como faz o vinho, e amplia o repertório gustativo. E a possibilidade de investir em harmonizações, sem a necessidade de uma opção alcoólica. “Quase tudo que a gente prepara na cozinha é por meio de infusão, como o arroz, o macarrão, o preparo de algum vegetal. Mas não é cultural relacionarmos dessa forma, não pensamos na infusão com essa possibilidade de sabor”, afirma. O chef conta que um dos testes para validar essa ideia foi a preparação de drinques em um restaurante parceiro, localizado em Piracicaba (SP), para harmonizar com as refeições. “Era um ambiente menos ousado do que São Paulo, por exemplo, e a resposta foi positiva, as pessoas se mostraram interessadas em novidades.”

Muito dos processos da empresa na preparação dos produtos passa por esse conceito de oferecer uma nova experiência e despertar a busca por mais conhecimento, a curiosidade de saber o que mais está por trás daquelas misturas e o que mais elas podem proporcionar. “Quando conectamos o produto com aprendizagem, você sai diferente de onde o adquiriu, vai provar de forma distinta. Achamos muito importante pensar numa relação, no acolhimento, em um restauro. O chá acaba sendo a entrega final, o que vai fazer bem para o seu corpo”, explica Henrique. Diferentes segmentos do agronegócio já vêm investindo nesse conceito de satisfação para conquistar mais espaço junto aos consumidores, sobretudo os relacionados a alimentos e bebidas com preparo mais sofisticado. Vem daí a ideia do casal de chamar a Infusiva de uma “agência de turismo gustativo”.

Necessidade oportuna

Juliana se deparou com a alquimia quando optou por um intervalo na carreira dedicada à consultoria de projetos sociais e para empresas. O objetivo sempre foi terapêutico, primeiro como um tratamento alternativo para si mesma, depois ela se tornou a terapeuta. “Daí veio o contato maior com as plantas e a interpretação do energético com o fitoterápico, e a história do blend”, explica a sommèliere. Em meio a esse processo surgiu o contato com a Camellia sinensis, nome científico da planta original da qual derivam os chás verde, branco e preto. “Aqui, estamos acostumados a chamar de chá qualquer infusão”, comenta, lembrando que foi a partir desse momento que se dedicou mais a fundo aos estudos sobre o universo dos chás para se tornar uma sommèliere.

A Infusiva começa a surgir como negócio em 2019, mas ainda bastante voltada às experimentações. As criações dos blends eram compartilhadas com familiares, depois com amigos, e essas degustações acabaram atraindo mais pessoas. “A empresa já nasceu com essa entrega para as pessoas, e a primeira resposta que me impactou foi elas gostarem dessa combinação de sabores. A segunda foi a confirmação de que fez muito bem para elas, como fitoterapia mesmo”, diz Juliana. A participação de Henrique, naquele primeiro momento, era mais como provador. “Como chef de cozinha, eu trabalhava umas 14 horas por dia no restaurante, quando chegava em casa via as caixinhas já prontas. Mas fui experimentando e dando feedback”, afirma. Logo passou a se arriscar nas criações também. “O primeiro produto que desenvolvi para a Infusiva foi uma goiabada com chá.”

Paralelamente a esse processo, a sommelière foi investigar melhor o universo dos chás, e para sua satisfação constatou que o mercado estava em plena expansão. De 2013 a 2020, por exemplo, o consumo de chás no Brasil cresceu 25%, conforme dados de uma pesquisa da Euromonitor International, divulgados pelo Canal Rural. Uma das motivações, segundo o estudo, é a redução no consumo de refrigerantes e de cafeína, por conta da crescente busca por alternativas mais saudáveis. A informação bate, em parte, com uma das interpretações de Henrique para a inserção do chá em uma refeição: “É uma bebida mais completa e que não seja água ou refrigerante”.

A sinalização de que o negócio poderia dar certo foi um grande estímulo para começarem as vendas por meio do e-commerce em janeiro de 2020. Em seguida, uma combinação de fatores incentivou o casal a dar passos mais arrojados. Havia grande chance de se mudarem para Portugal, devido a uma proposta para que Henrique fosse trabalhar em um restaurante de lá. Mas o primeiro trimestre do ano passado mudou a vida de todo mundo: a chegada da pandemia da Covid-19 congelou planos e projetos. Além disso, a Europa começou a tomar medidas preventivas antes, e fechou suas fronteiras mais cedo. Se não iam mais cruzar o Oceano Atlântico, era preciso fazer as coisas acontecerem por aqui. “Aí nos dedicamos para fazer a empresa de fato, como parceiros em um negócio”, diz Juliana.

Infusão na tradição

A relação que estabeleceram no comecinho, com familiares e amigos, passou a ganhar mais intensidade e amplitude. E, de certa forma, acabaram sendo favorecidos pela pandemia. Na verdade, pelas mudanças de comportamento que a Covid provocou, pois é difícil associar essa situação toda que ainda passamos a algo positivo. Com as pessoas passando mais tempo dentro de casa, abriu-se uma oportunidade maior de estimular o consumo de chás, e uma coisa leva a outra, pois o público atendido acabava compartilhando a ideia com outras pessoas, e novos clientes iam surgindo.

Essa propagação abriu espaço para mais uma etapa. Em setembro deste ano, a Infusiva abriu uma loja física na Vila Madalena, bairro da cidade de São Paulo que tem tudo a ver com o negócio, pois é uma região de muitas misturas, diversas combinações culturais que costumam gerar experiências interessantes e até surpreendentes. “As pessoas estão vindo à loja por terem visto nossos produtos na casa de alguém”, comenta Henrique. Agora o casal já busca uma propriedade para investir na parte agronômica, com a produção de chás em sistema agroflorestal.

Aliás, é exatamente na parte agrícola do negócio que a inovação se funde com a tradição. Afinal, sendo o chá uma cultura milenar, seria improvável não se conectar às origens. A Infusiva trabalha com diversos fornecedores de matéria-prima, entre eles está o Sítio Shimada, tradicional produtor de chás localizado em Registro, cidade paulista do Vale do Ribeira que é considerada a capital brasileira dos chás. “Eles têm até um terroir de lichia que dá um sabor diferenciado, o chá deles já foi premiado”, afirma Juliana. “E temos parcerias com produtores de orgânicos que têm um determinado tipo de erva disponível.” Quando certos itens não são encontrados exatamente da forma como necessitam, o próprio casal busca o aprendizado para fazer o processamento ideal. “É o caso da cúrcuma desidratada, que não há disponível da maneira como usamos”, diz Henrique.

Agora, a aposta é espalhar cada vez mais essa ideia e multiplicar a conquista de adeptos, como já vem acontecendo com vinhos, cafés especiais, cervejas artesanais, entre outros produtos. Se depender do cuidado com que Juliana e Henrique demonstram tratar a infusão de chás e da empolgação com que falam do assunto, o agronegócio brasileiro pode ganhar mais uma forte vertente de cultura e sabores. Espaço no mercado nacional certamente não falta.