O Templo Sagrado dos “Brutos”

Por Irineu Guarnier Filho, de Canela (RS) Fotos: Eduardo Scaravaglione


Edição 27 - 21.12.21

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Onipresente nas estradas brasileiras, mas também nas entregas de mercadorias nas grandes cidades, o caminhão é um dos mais antigos e persistentes símbolos do desenvolvimento nacional. Mais de 60% das mercadorias que circulam pelo Brasil – incluindo as safras agrícolas – são transportadas por cerca de 2 milhões de caminhões, que não raramente entregam suas cargas na porta do cliente. Coisa que nem trens nem aviões e muito menos navios conseguiriam fazer. Não por acaso, os caminhoneiros são a única categoria de trabalhadores capazes de, literalmente, parar o País.

Com toda a importância que esse veículo tem, curiosamente não havia, até bem pouco tempo, nenhum museu brasileiro dedicado à preservação dessas máquinas. Colecionadores particulares existem, mas não são muitos – a restauração de um caminhão custa caro e o acervo exige muito espaço. Acessíveis ao público, por isso, são raras as coleções desse tipo. Desde outubro de 2020, no entanto, os “brutos” ganharam um verdadeiro templo para exibir seus “músculos” e imponência: o American Old Trucks.

Localizado em um belo trecho da ERS-466, às margens do Bosque Sinosserra, em Canela, na Serra Gaúcha, a mais nova atração do Grupo Dreams (proprietário de outros museus automotivos, como o Hollywood Dream Cars, na vizinha cidade de Gramado) foi inaugurada em meio à pandemia e recebe grupos de aficionados e turistas com todos os cuidados sanitários que o momento exige. O American Old Trucks mantém em exibição permanente 53 caminhões e 11 picapes de diversas épocas, além de um ônibus double deck londrino, em um pavilhão coberto de 3.200 m2. O caminhão mais antigo é um Ford 1946, e o mais moderno, um Volvo 1994.

Impecavelmente restaurados pelos proprietários nos últimos 30 anos, os veículos contam a história do transporte rodoviário de cargas no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. Alguns desses modelos, como o brasileiríssimo FNM, o Mercedes “Bicudinho” ou o Scania “Jacaré”, foram o ganha-pão de muitas famílias ou a base de grandes transportadoras atuais, como lembra o curador do museu e também chefe de equipe da Fórmula Truck, Tony Martinez.

Algumas das marcas são bem conhecidas dos brasileiros, como Volvo, Ford, Mercedes e Scania, mas há também modelos raros de fabricantes pouco conhecidos no Brasil, como os alemães Bussing 600 1954 e Magirus-Deutz S3500 bombeiro 1951, um Mack DM800 1971, que trabalhou na construção da Usina de Itaipu, ou o gigante norte-americano Kenworth 523 1950. “Muita gente que vem aqui fica emocionada, porque trabalhou com um caminhão ou porque o pai teve um”, conta Martinez, que se surpreendeu com o interesse de um público bastante heterogêneo pelos pesos-pesados de vários eixos: crianças, mulheres e mesmo profissionais liberais que jamais subiram a uma boleia se encantam com as máquinas coloridas e repletas de cromados. Para este público, há ainda uma loja de suvenires, uma cafeteria e uma divertida pista de truckmodelismo, com caminhões em escala 1/14 radiocontrolados. Os turistas também podem fazer selfies no mockup de uma moderna e espaçosa cabine de caminhão. E logo o museu poderá contar com uma oficina de preparação de caminhões de corrida da equipe Dream Racing.

Diferentemente de automóveis antigos, que podem eventualmente ser encontrados com baixas quilometragens e bem cuidados, caminhões são máquinas que rodam bastante e geralmente viram ferro-velho ao final de uma longa vida de trabalho duro. “Caminhão é uma ferramenta que sofre muito”, diz Martinez. Garimpar essas preciosidades e devolver-lhes o brilho e a originalidade de quando saíram da fábrica é um trabalho que exige tempo, conhecimento, paciência e um bom saldo bancário – uma restauração de cabo a rabo, como as feitas pelo American Old Trucks, pode custar até R$ 300 mil.

Um dia inteiro pode ser pouco para um aficionado da história do transporte rodoviário de cargas conhecer tudo o que o museu de Canela exibe. Chama a atenção, por exemplo, a evolução das cabines: antes apertadas e desconfortáveis, atravancadas por enormes volantes, hoje são amplas e oferecem muito mais conforto e segurança aos motoristas – principalmente pela incorporação da tecnologia digital. “Um caminhão moderno é mais sofisticado do que qualquer automóvel de luxo”, compara Martinez. Se, no passado, era preciso ter muita força muscular para dirigir um veículo de dezenas de toneladas, hoje, com direções hidráulicas, freios a ar e muita assistência eletrônica, qualquer pessoa – devidamente habilitada – pode conduzir um bruto de mais de 50 mil quilos pelas estradas do Brasil.

Sim, caminhões autônomos já rodam por rodovias norte-americanas e europeias. Provavelmente esse seja o futuro do modal rodoviário. Mas, para quem ama essas máquinas, o reencontro com os reis das estradas de tempos passados é uma experiência insuperável.