Coragem para Mudar a Caatinga

Com sensibilidade e ousadia, grupo de mulheres transforma a vida na Caatinga. Por ROMUALDO VENÂNCIO


Edição 24 - 31.03.21

A FRASE "SANTANDER, NA CIDADE OU NO CAMPO, A GENTE APOIA O EMPREENDEDOR" SOBRE UM FUNDO VERMELHO
SANTANDER, NA CIDADE OU NO CAMPO, A GENTE APOIA O EMPREENDEDOR


Com a sensibilidade de enxergar o que ninguém via e a ousadia para tomar uma atitude inusitada, um grupo de mulheres transformou a própria vida e a produção rural no semiárido da Bahia

Silvany Lima nasceu e cresceu na zona rural do semiárido baiano, na cidade de Pintadas, região de Caatinga onde  predomina a agricultura familiar. Ainda bem criança, acompanhava a rotina de sua mãe e de seu pai na roça,  brincando sob a sombra de uma árvore com as bonecas feitas de milho ou da flor do mandacaru. Os pais plantavam mamona para vender na feira, além de milho, batata, feijão, abóbora e mandioca, e criavam algumas cabeças de gado para tirar leite, vendido in natura ou como requeijão. “Fomos criados com a produção da roça mesmo, vivíamos do alimento que plantávamos”, conta a produtora. Na estiagem, o pai buscava trabalho fora para dar conta do sustento de nove filhos. Silvany seguiu o pai na atividade, mas trilhou um caminho diferente, ajudou a impulsionar um empreendimento coletivo e se tornou uma liderança na cidade. Embora tenha se acostumado – e até se sinta confortável – com tal posição, prefere tratar de outra forma. “Como somos um conjunto, a liderança é de todas. Eu sou uma porta-voz”, afirma.

Quando fala na primeira pessoa do plural, a produtora se refere à Cooperativa Ser do Sertão, a CoopSertão, criada em outubro de 2008 por um grupo de mulheres que, como ela, acreditaram na possibilidade de um bom negócio a partir da agregação de valor ao umbu, fruto tão comum no sertão nordestino e que, exatamente por isso, era tratado com indiferença. “Temos muitos umbuzeiros na região. Um dia nos perguntamos o que mais poderia ser feito com aquela grande quantidade de umbu além de virar doce ou alimento para os animais”, lembra Silvany. “Fomos pesquisar e descobrimos que poderíamos fazer polpa.”

A partir dali, teve início uma jornada que mudaria a vida daquelas mulheres e de suas famílias e colocaria Pintadas, uma cidade com cerca de 11 mil habitantes, no mapa global de investimentos em projetos agropecuários mais sustentáveis. A CoopSertão abriu o caminho para o protagonismo feminino e para uma transformação socioeconômica em meio à Caatinga. Nesse novo cenário, até o umbuzeiro, que vinha sendo derrubado para dar espaço à formação de pastagens, passou a se parecer mais com a descrição feita por Euclides da Cunha em sua obra Os Sertões, publicada em 1902. O escritor chamou a planta de “árvore sagrada do sertão”, por sua importância histórica e cultural.

Registro fotografico Da Fruta Ambu.
foto: Bruno Felin/WRI Brasil

REVENDO CONCEITOS 

Como na maioria dos pequenos negócios, o início da CoopSertão foi modesto, com apenas 20 cooperadas. As  fundadoras da cooperativa buscaram apoio na prefeitura de Pintadas e na dos outros 14 municípios que compõem o Território Rural Bacia do Jacuípe, e saíram à procura de oportunidades. Com a abertura da pequena fábrica de polpa, já foi possível colocar o umbu na merenda das escolas locais e fornecer para outras cidades. “Antes a árvore não tinha tanto valor, o umbu dava e se perdia, porque a gente não dava conta de consumir. E ainda faltava energia elétrica para poder guardar a produção de polpa”, comenta Silvany.

Como se já não bastassem todos os obstáculos impostos pelas condições climáticas e pela falta de infraestrutura naquela região, as mulheres da CoopSertão ainda enfrentaram desafios como o descrédito e o preconceito. Girlene Almeida, presidente da cooperativa, conta que chegaram a ser motivo de piada ao anunciarem que comprariam umbu, pois o fruto era encontrado em qualquer propriedade, estava disponível em todo lugar. “Começamos pagando R$ 0,60 o quilo para quem era cooperado e R$ 0,50 para não cooperado. Chegamos a comprar quatro toneladas naquele primeiro momento”, afirma a dirigente.

Os números que surgiram daquele início impressionaram os moradores e o olhar de deboche foi dando espaço à curiosidade. “A pessoa que mais vendeu para a cooperativa recebeu uns R$ 400, então logo surgiram os comentários sobre como era possível faturar aquele valor em cerca de 15 dias”, diz Girlene. Dali para a frente, a safra do umbu, que vai de janeiro a março, ganhou outro significado. A colheita é manual, seja apanhando os frutos maduros que já estão no chão, seja chacoalhando a árvore para facilitar a queda daqueles que estão no ponto. Apesar da valorização financeira comprovada já na estreia da cooperativa, essa etapa de apanhar o umbu era chamada, pejorativamente, de “coisa de mulher”. “Diziam que não dava dinheiro, que trabalho de homem era a pecuária ou a colheita de outras culturas”, afirma a presidente da CoopSertão.

Para Girlene, a evolução da cooperativa mudou esse conceito de gênero e deu sustentação ao empoderamento da mulher rural. “Eu sempre trabalhei na roça. Em muitas situações, quando não era safra e os maridos iam trabalhar fora, as mulheres tiravam leite das cabras, das vacas, e as notas vinham em nome deles. Mas elas é que faziam todo o trabalho”, comenta. Conforme o negócio foi ganhando força, os homens se aproximaram, até de maneira bem discreta no começo.

Registro fotográfico de Mulheres trabalhando produtos embalados
foto: Luís Fernando Ricci/WRI Bras

Alguns chegaram a entrar na fábrica, mas não aguentaram a lida”, diz a dirigente. Hoje, a participação masculina nessa cadeia do umbu está mais no transporte da colheita até a cooperativa.

A presença feminina também cresceu em outras áreas. “Há uma associação de lanchonetes e restaurantes só com mulheres, cerca de 80%  do corpo docente da cidade é formado por professoras e ainda temos as ‘mulheres sambadoras’ na manifestação cultural do samba de roda”, diz Silvany. Ela explica que isso acontece porque as mulheres foram se aproximando, conversando mais entre si e ocupando seu espaço. Pintadas virou referência nesse campo, tanto que passou a ser comum a visita de mulheres de outras regiões para conhecerem o que era feito por lá, e depois levarem consigo esse conceito de que juntas podem ser mais fortes. “As crianças, como minha filha de 11 anos, crescem vendo isso e já entendem esse potencial”, acrescenta a produtora, que já trazia essa referência de sua própria mãe. “Ela era muito batalhadora e sempre foi uma inspiração para mim.”

SUPERAÇÃO EM ESCALA

O processamento do umbu pela CoopSertão começou com uma despolpadeira que tinha capacidade de 100 quilos por hora, os frutos eram lavados à mão e a polpa era colocada nas embalagens com o uso de uma caneca. Ainda que fosse limitada, aquela estrutura mostrou um horizonte jamais imaginado na região. “Começamos a conversar sobre o excedente de outras frutas e pensamos em montar uma pequena indústria. Passamos a contar a nossa história e isso chamou a atenção”, diz Girlene.

Os relatos chegaram até o Adapta Sertão, uma coalizão de organizações que dá suporte a produtores da agricultura familiar que vivem na Caatinga, bioma bastante fragilizado.  Um estudo veiculado no Climatic Change, publicação científica voltada aos impactos das mudanças climáticas, mostra por exemplo que desde 1962  o volume de chuva da Bacia do Jacuípe, que variava entre 600 mm e 800 mm por ano, caiu pela metade, aproximadamente. Foi por meio do Adapta Sertão que a CoopSertão conseguiu acesso a equipamentos mais potentes.

A nova conquista trouxe também outros desafios. “Não tínhamos onde colocar esses novos equipamentos, onde armazenar”, lembra Girlene. Com o apoio da Companhia de Abastecimento Rural da Bahia, foi possível entrar em outro projeto que viabilizou a questão do espaço e abriu a oportunidade de trabalhar com uma diversidade maior de frutas, mantendo  a valorização das nativas.“Passamos a falar ainda mais com as mulheres para valorizarem o umbu. Quem vinha desmatando passou a mudar de ideia”, diz a presidente da CoopSertão.

O conceito de preservação dos umbuzeiros foi intensificado com mais uma parceria, um projeto que chegou até a CoopSertão por meio do WRI Brasil, organização integrante do World Resources Institute e que atua no desenvolvimento de estudos e implementação de soluções sustentáveis em clima, florestas e cidades. Ou seja, criar oportunidades de melhorias socioeconômicas em equilíbrio com a preservação ambiental. “Recebemos o contato de uma instituição internacional interessada em investir em algum projeto no semiárido”, diz Mariana Oliveira, analista de Pesquisas do WRI Brasil.

Mariana conta existir um ambiente, uma espécie de fórum, em que representantes de fundações, agências de desenvolvimento, investidores e organizações conversam sobre essas oportunidades. “Cada um tem lá seu tema de interesse, como a Caatinga, a fome, entre outros. E a base dessa busca é a ciência, com muitos dados e informações”, acrescenta. “Esse pessoal que decidiu investir na CoopSertão tinha preferência por um projeto de restauração da vegetação, mas de forma que o negócio se tornasse capaz de andar sozinho depois.” Outro fator favorável a essa parceria, segundo Mariana, é que o investidor também queria trabalhar com a questão de gênero, então foi bem positivo ser uma cooperativa formada por mulheres.

CAATINGA RENOVADA

registro fotográfico de Silvania no seu local de trabalho

Entre os objetivos do trabalho de restauração iniciado com o apoio do WRI Brasil estavam o fim da derrubada de umbuzeiros e o incentivo ao plantio de novas árvores, pois era possível desenvolver uma convivência harmoniosa entre as atividades agrícolas e pecuárias. “A gente não vai lá falar para a pessoa plantar árvore e perder espaço de pastagem, a proposta é de uma alteração, um ajuste, uma adaptação”, diz Mariana. Para isso, foi imprescindível conhecer bem o cenário e suas dimensões. “Visitamos cerca de 600 propriedades para saber quantas árvores havia para coletar frutos e fornecer à cooperativa. Praticamente metade dos produtores se mostrou interessada em participar.”

Esse garimpo também foi desafiador. Mariana conta que, no início, houve desconfiança por parte dos moradores de Pintadas. A relação vai mudando conforme passam a entender que a ideia é otimizar o que já existe na região, tornar mais eficiente, e não mudar o ambiente das pessoas. Poder contar com uma liderança, mesmo que informal, ajudou muito nesse processo. “Houve a necessidade de se fazer um trabalho de capacitação, de entendimento das questões ambientais e da restauração. A Silvany foi muito importante nesse momento”, afirma a analista do WRI Brasil.

Mais do que a posição de liderança na cidade, a influência de Silvany veio também por ela estar convencida do quão positiva é a restauração da vegetação local e o sistema agroflorestal. “A gente não tinha ideia da importância do umbu, mas quando descobrimos que também poderia virar dinheiro, faturamento, passamos a cuidar melhor”, conta a produtora. “Com essa mudança, até meus filhos começaram a se preocupar mais. Um deles conseguiu comprar um computador com o dinheiro do umbu que colheu.”

Ao fazer parte da CoopSertão, Silvany passou a ter uma dupla satisfação: pela evolução da cooperativa e pelas melhorias em sua própria vida. A produtora, que completou 54 anos agora em janeiro, é mãe de mais dois filhos além da jovem adolescente, um com 30 anos e outro com 20. O mais velho já com curso superior concluído e o mais novo, cursando. Quando se casou, Silvany continuou morando na zona rural, onde ela e o marido trabalham até hoje. Mas há 15 anos se mudaram para uma casa na cidade. A cooperativa completa 13 anos agora em 2021. “Nossa maior renda vem da pecuária, e também temos uma quitanda de frutas e verduras. O umbu é um complemento da renda, até porque são só três meses do ano”, comenta.

Em 2019, a CoopSertão processou 27 toneladas de umbu colhidas em Pintadas. “No ano anterior já havíamos conseguido esse volume, mas contando com a colheita de outros municípios”, diz Girlene, presidente da cooperativa, que hoje conta com 275 cooperados e trabalha com diversos itens.   Com uma fábrica bem estabelecida, foi possível até criar uma linha de produtos com marca própria, Delícias de Jacuípe, que pode ser encontrada até na cidade de São Paulo. É bem verdade que ainda em um único ponto, é uma exceção, no entanto, já um passo gigantesco.

A capacidade de processamento de frutas da cooperativa é de 1,5 mil quilos de polpa por dia, mas pode chegar a 2 mil ao processar uma única fruta, como a acerola, que é menor. A produção é embalada por uma empacotadora automática com desempenho de 1,2 mil quilos por hora. Na produção de leite, por exemplo, são 5 mil litros diários coletados pela Betânia Lácteos em 14 tanques resfriadores, com capacidade de até 2 mil litros, distribuídos pelas comunidades. “Estamos sempre pesquisando para encontrar o melhor negócio. A Betânia, por exemplo, é nossa parceira por ser a opção mais positiva de preço e de garantia de pagamento”, afirma.

A meta é seguir crescendo e diversificando, inclusive nas porções, o que permitiria abrir mais mercado e tornar a marca mais conhecida. Atualmente, a cooperativa trabalha apenas com embalagens de um quilo e meio quilo. “Com medidas menores poderíamos aumentar as vendas, mas ainda não temos equipamentos para fazer embalagens diferentes”, explica Silvany. O histórico da CoopSertão indica que pode ser apenas uma questão de tempo. A valorização do umbu na região é prova disso: hoje a cooperativa compra o quilo do fruto por R$ 1,50, três vezes o valor pago lá em 2008. “Antes a gente tinha vergonha de oferecer suco de umbu a uma visita, hoje é nosso suco preferido”, afirma Girlene.

MELHORAMENTO GENÉTICO DO UMBU 

registro fotográfico da fruta Ambu
foto: Marcelino Ribeiro

O reflorestamento da Caatinga com umbuzeiros foi reforçado por cultivares desenvolvidas pela Embrapa.  A pesquisa, iniciada ainda nos anos 1980, foi concluída em outubro de 2019 com a geração de quatro novos materiais genéticos já registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa): BRS 48, BRS 52, BRS 55 e BRS 68. Seus frutos são maiores e pesam mais do que os do umbu tradicional (entre 20g e 30g). As variedades 48 e 68 pesam, em média, 85g e 96g, respectivamente, e ambas são indicadas para o consumo in natura ou de mesa. Já a 52 teve peso médio de 42g, enquanto a 55 chegou a 51g, em média. Essas duas também podem ser consumidas in natura ou utilizadas como matéria[1]prima nas agroindústrias.

Essas variedades ampliam as possibilidades de se utilizar uma árvore tão tradicional da Região Nordeste como veículo de reflorestamento, de recuperação da vegetação na Caatinga. Para o pesquisador da Embrapa Semiárido, Viseldo Ribeiro, que participou dessa pesquisa, a disponibilidade de mudas desses materiais será valiosa para o estabelecimento de uma fruticultura de sequeiro e da agroindustrialização. “Além disso, é um passo significativo para domesticar a espécie e viabilizar seu cultivo comercial com materiais de bom potencial produtivo e frutos de qualidade”, diz Ribeiro. Outro fator positivo desse trabalho da Embrapa é a possibilidade de estender o período de colheita, restrito aos três primeiros meses do ano, porque a pesquisa considerou acesos mais precoces e tardios em relação ao período reprodutivo anual. E reduziu para cerca de oito anos o intervalo entre o cultivo e a primeira safra, que normalmente dura entre 15 e 20 anos.

 

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