Agrotrends: Cannabis e o medo de uma viagem errada

O potencial - e os dilemas - do mercado da maconha


Edição 18 - 27.02.20

Por André Sollitto

Enquanto aqui no Brasil ainda se discute as condições da liberação da maconha para fins medicinais, nos Estados Unidos o mercado que se desenvolveu em torno da Cannabis já é enorme e pode crescer muito. Em 2018, uma nova legislação permitiu o uso do canabidiol, ou CBD, extrato natural da Cannabis sativa, em diversos produtos. Desde então, ele já é encontrado em remédios para dores, adesivos, cremes, óleos, vaporizadores… A lista é enorme. No início deste ano, a consultoria Brightfield Group, especializada em análise do mercado da Cannabis, divulgou um relatório em que estimava um faturamento de US$ 5,7 bilhões para a indústria em 2019. O valor pode chegar a US$ 22 bilhões em 2022. 

O problema é que os investidores ainda estão receosos de fazer aportes em empresas e startups do setor, principalmente por conta de nebulosas questões regulatórias. O CBD ainda não é liberado em alimentos e bebidas. Em 2018, o extrato foi liberado na composição de um medicamento para epilepsia, e uma vez que uma substância é aprovada para uso em remédios controlados a lei americana impede que ela seja utilizada em alimentos. A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, tem discutido o uso de derivados da maconha, mas uma legislação capaz de dar mais tranquilidade a empresários e investidores ainda pode levar anos para ser estabelecida. 

Por conta desse cenário, o mercado é atualmente considerado de alto risco pelas consultorias americanas, mas com alto potencial de retorno. A área cinzenta em torno do que é permitido e o que ainda não está regulamentado é grande, e as empresas que se arriscam precisam ter muito cuidado com a maneira como divulgam e vendem seus produtos. Até agora, a FDA não retirou nada das prateleiras, mas a situação pode mudar.

E não são apenas as startups interessadas em produzir alimentos e bebidas com CBD que precisam tomar cuidado. Outros problemas afetam a produção de maconha usada em medicamentos. A cidade de Denver, no Colorado, é considerada o epicentro do cultivo e da inovação relacionados à maconha. Mesmo assim, testes feitos pelo Departamento de Saúde Pública de Denver encontrou mofo em 80% das amostras. Esses dados são preocupantes, já que esses medicamentos são usados por pessoas com problemas imunológicos. Em 2016, o mercado sofreu um duro golpe quando um paciente com câncer morreu, na Califórnia, após usar um remédio contaminado com bactérias e fungos. Há um debate sobre a validade e a maneira como o produto é embalado – e muitos acreditam que ele precisa ser regulado de maneira bastante cuidadosa, como acontece com alimentos e bebidas.

O mercado tem enorme potencial e de fato deve crescer muito nos próximos anos, mas ainda existem diversas questões legais e regulatórias que precisam ser resolvidas antes.

Leia mais sobre o mercado de Cannabis no Brasil na reportagem desta edição da Plant Project.

Confira as outras tendências identificadas pela nossa reportagem:

Agbiotech para mudar o mundo

Produção em escala, cuidados individuais

Até onde vão as proteínas alternativas

Uma década para as agfintechs

Um setor com menos intermediários

Cultivo high tech: a segunda geração das fazendas urbanas

O consumidor como protagonista

Pulses: vida nova para os antigos grãos

Índia, a próxima fronteira

Pecuária 4.0 vai digitalizar os rebanhos

Agricultura regenerativa

As proteínas que vêm da água

A tecnologia promove o bem-estar animal