Agrotrends: Agbiotech para mudar o mundo

Como soluções biológicas estão aumentando a produtividade agrícola


Edição 18 - 27.02.20

Por André Sollitto

Um levantamento feito pelo fundo AgFunder, um dos mais importantes dedicados a agtech do mundo, mostrou os investimentos feitos no setor de inovação do agro em 2018. Dos US$ 17 milhões registrados, a maior parte foi para produtos voltados para o consumidor final, mas o relatório apontou um crescimento em aportes feitos em startups com soluções dentro da porteira. Nessa categoria, US$ 1,5 bilhões do total de US$ 7 bilhões foram destinados às chamadas agbiotechs, empresas que desenvolvem soluções biológicas para aumentar a produtividade agrícola.

Muitas dessas empresas oferecem ferramentas de edição genética, como o CRISPR, cujo objetivo é oferecer sementes com maior resistência a climas e doenças específicos, ou com um valor nutricional maior. São apenas exemplos de uma tecnologia revolucionária que ainda está longe de ser aplicada em todo o seu potencial.

Um dos exemplos mais representativos é o da Indigo, agtech mais valiosa do momento – e cujo sucesso despertou o interesse de investidores e empreendedores pela área. A empresa americana hoje oferece um gama enorme de ferramentas aos produtores, de uma plataforma de frete a opções financeiras. Mas sua estrutura foi construída sobre soluções de tratamentos de semente, presentes nas principais culturas, do trigo à soja e ao algodão. O produto só precisa escolher a semente, bem como o nível de germinação, o vigor e o tratamento químico. A Indigo entra com seus micronutrientes e entrega as sementes prontas para o plantio.

Mas a Indigo não está sozinha. A também americana Benson Hill é outra agbiotech que usa a edição genética para otimizar a produção. Em 2019, fechou uma parceria com a Ambev para otimizar a produção de cevadas. O objetivo final é bastante modesto: tornar a produção de cerveja mais sustentável. Recentemente, inaugurou um companhia de sementes para oferecer suas descobertas mais recentes em soja – o grão desenvolvido pela empresa tem maior densidade nutritiva e é mais saudável como alimentação para o rebanho.

Além do Vale do Silício, outra região dos Estados Unidos tem se destacado na área de inovação biológica para o agro: o estado de Nevada. O governo estadual desenvolveu um plano de fomento para esse tipo de agtech, já que Nevada oferece três ingredientes muito importantes: é um dos dez maiores produtores agrícolas do país, possui um ambiente de inovação e pesquisa científica, e um crescimento acelerado em trabalhos na área de tecnologia. Não à toa, empresas maiores estão abrindo escritórios por lá, caso da brasileira Solinftec, e startups menores estão surgindo nesse ecossistema.

Ainda existem debates sobre alimentos produzidos a partir da edição genética. Os efeitos a longo prazo ainda não são plenamente conhecidos. Além disso, a legislação varia de acordo com o continente. Nos Estados Unidos os alimentos não são considerados transgênicos, já que não há adição de genes exteriores. A Europa, por outro lado, não vê o tema da mesma maneira. Mas essas questões devem se resolver nos próximos anos, à medida que o potencial e os benefícios da tecnologia forem comprovados.

Confira as outras tendências identificadas pela nossa reportagem:

Produção em escala, cuidados individuais

Até onde vão as proteínas alternativas

Uma década para as agfintechs

Um setor com menos intermediários

Cannabis e o medo de uma viagem errada

Cultivo high tech: a segunda geração das fazendas urbanas

O consumidor como protagonista

Pulses: vida nova para os antigos grãos

Índia, a próxima fronteira

Pecuária 4.0 vai digitalizar os rebanhos

Agricultura regenerativa

As proteínas que vêm da água

A tecnologia promove o bem-estar animal