Por dentro da Cidade Expointer

O que faz da feira gaúcha, com história centenária, uma experiência única entre todas as outras


Edição 16 - 19.08.19

Por Patrícia de Lima, de Esteio (RS)

Quando o mês de agosto vai chegando ao fim, uma espécie de chave vira na cabeça e no coração dos gaúchos. Aquela melancolia que encontra eco na paisagem fria e infinita do Pampa aperta um pouco mais o peito. Gente que nunca viveu no campo e que mora nas entranhas de concreto da metrópole sente saudade. Uma espécie de memória ancestral, sentida apesar de não vivida, renasce com vigor juvenil. O campo, a natureza, os animais, as tradições, o passado e o futuro. Tudo chama as gentes campeiras e cosmopolitas para um encontro que tem endereço certo. É mais uma Expointer que já vai começar.

A mais tradicional feira agropecuária do Brasil tem a origem justamente na junção desses dois elementos tão díspares e, ao mesmo tempo, tão reveladores da identidade do gaúcho moderno: o campo e a cidade. Tanto é assim que, desde a década de 1970, o evento ocorre em uma espécie de cidade construída especialmente para sediá-lo em Esteio, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Mas não pense que a “Cidade Expointer” se parece com a estrutura de qualquer outro evento do gênero. Aqui, a tal cidade é feita mesmo de casas, construídas de alvenaria, que abrigam todo o tipo de gente envolvida no universo do agronegócio: desde bares e restaurantes até sedes de bancos e associações rurais, cada um tem o seu endereço fixo, que permanece ali durante todo o ano.

Até prefeito existe por lá. Frequentador da Expointer desde a infância, o veterinário José Arthur Martins assumiu neste ano como subsecretário do Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, o último dos parques de exposições públicos do País e também endereço de eventos menores voltados ao setor, como a Exposul e a Expoleite. Em 1977, Martins participou pela primeira vez da Expointer como servidor da Secretaria de Agricultura. “Quando entrei na Secretaria, a área total era de mais ou menos 64 hectares, a feira era muito menor. Agora, temos 141 hectares tomados por exposição e eventos. O modelo vem se modificando, mas tentamos manter uma essência que nos identifica e nos diferencia”, ressalta Martins.

NATIVISTA, SIM. SERTANEJO, NÃO

A vocação do Rio Grande do Sul para as exposições agropecuárias é antiga. A primeira de que se tem registro ocorreu em 1901, quando foram apresentados bovinos, equinos, suínos e produtos agrícolas no Campo da Redenção, atual Parque Farroupilha, na área central de Porto Alegre. Em 1909 é realizada a Exposição Agropecuária de Porto Alegre no Prado Rio-Grandense, área onde, mais tarde, seria construído o Parque de Exposições do Menino Deus, também na região central da cidade. Até 1969, as feiras foram sediadas neste local, que ainda hoje abriga a sede da Secretaria de Agricultura do Estado.

Desde muito cedo, o diálogo com os produtores dos países vizinhos foi intenso nessas feiras. No final dos anos 1960, no entanto, o Parque do Menino Deus não oferecia espaço suficiente para receber os cabanheiros do Uruguai e da Argentina, que vinham em número cada vez maior expor no Rio Grande do Sul. Então, sob fortes protestos dos produtores, o governo do estado comprou a área de uma antiga fazenda na cidade de Esteio e começou a construção do que hoje é o Parque Estadual de Exposições Assis Brasil. O local, na época considerado inadequado por ser distante de Porto Alegre, foi inaugurado em 1970. Já na primeira feira realizada na nova sede, a desconfiança se dissipou. Com mais espaço, o sucesso da 33ª Exposição Estadual de Animais foi enorme, abrindo caminho para o nascimento da Exposição Internacional de Animais (Expointer) dois anos depois.

Hoje, a Cidade Expointer tem, além das casas particulares de variadas entidades ligadas ao agro, 45,3 mil metros quadrados de pavilhões cobertos e 70 mil metros quadrados de área para abrigar 5,9 mil expositores. São 19 locais para os julgamentos dos animais e nove espaços destinados aos leilões, que negociam o que há de melhor na genética do País.

Talvez esteja na origem, uma exposição de animais, o caráter único da Expointer. Aberta ao público em geral e não somente aos empresários e trabalhadores do setor, a feira aproxima as pessoas dos bichos, que permanecem durante todo o tempo ao alcance das selfies. Desde os pequenos e mimosos coelhinhos, passando pelos cães e pôneis, até os majestosos touros e cavalos crioulos, todos estão disponíveis aos olhos dos turistas. Mais do que vê-los repousando, é possível acompanhar uma amostra das rotinas de campo. São comuns – e festejadíssimos – nascimentos de toda sorte de filhotes durante o evento. Na edição de 2018, foi instalada uma arquibancada no pavilhão do gado leiteiro, para que o público acompanhasse a ordenha, que ocorre diariamente. Foi um sucesso.

Além de ver os animais, também se vive uma espécie de versão pocket do dia a dia campeiro, com muita comida típica, música nativista (sertanejo universitário não tem vez no palco, segundo Martins), competições e, claro, negócios e mais negócios envolvendo todas as áreas ligadas ao agro. Essa experiência intensa do campo dentro da cidade tem atraído uma legião de jovens, que fazem bem mais do que postar uma foto ao lado do touro campeão. Vindos de famílias ligadas ao meio rural ou urbanos que optam pelo trabalho no agro, eles buscam diversão, informação e subsídios para atuar em todos os cantos do País. “Atrair os jovens e mostrar a eles o que há de mais novo em termos de pesquisa e tecnologia é um dos grandes objetivos da Expointer. Por isso, vamos aumentar a participação de delegações internacionais, para trocar experiências e mostrar ao mundo como o agro no Rio Grande do Sul funciona. O futuro do setor passa pela Expointer”, afirma Martins.

AS ESTRELAS DA FESTA

Em uma das pontas do parque, gente do campo e do apartamento se acotovela por um lugar na arquibancada do evento mais prestigiado de toda a programação da Expointer: as finais do Freio de Ouro, a principal competição do Cavalo Crioulo que, mais do que genética ou morfologia, exalta a simbiose entre o ginete e seu companheiro. Juntos eles dão o espetáculo mais disputado de todos, que demonstra a execução perfeita das lidas do campo que cavalos e homens, ainda hoje, cumprem nas estâncias, a muitos quilômetros dali.

As provas, que começam antes da abertura oficial da Expointer, são o ponto alto de uma jornada que percorre todo o ano, com credenciadoras e classificatórias em todas as regiões de criadores do País. No Cidade do Cavalo, como é chamada a parte do parque reservada aos crioulos, fica a elite de animais e ginetes que representam mais do que genética e treinamento. São um estilo de vida. “O Freio de Ouro é a principal data do nosso calendário e todos querem estar em Esteio nesse momento. Muitas pessoas nem ficam em hotéis, preferem acampar no parque mesmo, só para viver com mais intensidade esses dias. É muito emocionante ver isso acontecer todos os anos”, comenta a coordenadora de Relacionamento da Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulos, Camila Menezes.

A magia dos cavalos crioulos extrapola as provas. Antes e depois das finais, o pavilhão segue sendo um dos mais visitados. O restaurante, um dos mais antigos e tradicionais da Expointer, recebe centenas de visitantes todos os dias. As mais de dez lojas que funcionam dentro da Cidade do Cavalo vendem a moda que conquista os praticantes do estilo “cavalo crioulo” de ser. “Outra atração disputada são os leilões, que acontecem todos os dias e rendem um dos maiores faturamentos de animais na Expointer”, completa Camila.

CONGESTIONAMENTO ANIMAL

Antes mesmo da abertura da feira, que neste ano acontece no dia 24 de agosto, o Parque de Exposições Assis Brasil já pulsa com intensidade, tamanha a quantidade de gente que não para de chegar. Como em Porto Alegre ou em qualquer outra grande cidade, nas ruas há trânsito. Os principais congestionamentos, no entanto, são dos animais e seus condutores – as inscrições para a participação deles estão abertas desde o dia 1º de julho. São esperados mais de 4 mil exemplares de 151 raças, entre bovinos de corte e leite, gado misto, bubalinos, equinos, ovinos, caprinos, aves e pequenos animais.

Um dos primeiros produtores a chegar na Expointer já se tornou um personagem famoso e querido. Vasco da Costa Gama, de 85 anos, começou a expor gado holandês quando a feira ainda era realizada no Menino Deus. Desde que o evento passou a ser sediado em Esteio, não falhou nenhum. Neste ano, novamente pretende ser o primeiro a chegar com os pôneis e cavalos quarto de milha que cria na fazenda em Guaíba, cidade vizinha de Porto Alegre. Apaixonado pela Expointer, seu Vasco faz questão de passar os dias no pavilhão dos animais, conversando com as pessoas e posando para fotos. Ele também não esconde o orgulho por ser o criador de pôneis mais premiado da história da feira – em 2018, Hindu do Bom Fim foi o Grande Campeão. No ano passado, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul concedeu a seu Vasco a Medalha do Mérito Farroupilha, pela tradição de seu trabalho no campo.

Apesar de populares, os animais não são mais a principal fonte de faturamento da feira – no ano passado, a comercialização fechou em R$ 10,2 milhões, de um total de R$ 2,3 bilhões. Máquinas e implementos agrícolas são, como em todas as feiras, os campeões de rendimento: R$ 2,28 bilhões em 2018. “Desde os anos 1980 a configuração da feira vem mudando. No começo era uma exposição de animais com algumas máquinas. Hoje a área de máquinas dobrou e as montadoras planejam fazer seus lançamentos anuais na Expointer. O campo mudou e o evento mudou junto”, explica o “prefeito” Martins.

Mesmo assim, a Expointer ainda é o principal evento do ano para os criadores, não só pela visibilidade, mas pelo rigor dos julgamentos das raças. Uma roseta de Grande Campeão significa valorização imediata dos animais e sua genética, abrindo portas e mercados para os produtores.

O BOULEVARD DA CARNE

Como em qualquer cidade, a Expointer também tem a sua avenida da badalação. Pelo Boulevard passam turistas e frequentadores da feira, todos inebriados pelo aroma dos entrecots e das picanhas que assam nas brasas temperados apenas com sal grosso, como manda a tradição sulina. O local virou ponto de encontro tanto dos antigos expositores, que se reúnem com os velhos amigos nos deques dos restaurantes, quanto da galera jovem, que imprime um novo vigor ao agronegócio. Tudo isso acontece nas casas das associações de criadores de gado de corte, que com o tempo se tornaram parada obrigatória para quem quer ver e ser visto no evento. De uns anos para cá, até o horário de fechar as portas mudou graças ao movimento no Boulevard. Antes conhecida por ser uma feira que terminava cedo em função dos animais, a Expointer está cada vez mais noturna. A maioria dos braseiros se apaga somente nas primeiras horas da madrugada.

Idealizados para ser uma espécie de vitrine do melhor das raças, os restaurantes montados nas casas das associações foram ganhando prestígio e hoje disputam o interesse do público, com cardápios assinados por chefs prestigiados e concursos gastronômicos. “O restaurante é a estrela principal da Expointer para nós, pois é com ele que divulgamos as qualidades da raça, mudando os hábitos de consumo das pessoas. Quem prova a nossa carne entende a diferença e quer comprá-la depois”, relata a gerente administrativa da Associação Brasileira de Criadores de Angus, Katiulce Santos.

Além de atender uma média de 7 mil pessoas durante o evento, o restaurante Angus também tem um espaço reservado para os eventos da associação, que reúnem clientes e fornecedores – o que se repete em praticamente todos os outros restaurantes do Boulevard. “A carne passou a ser o grande motivo de celebração na Expointer. Trabalhamos para apresentar o produto final da nossa genética da melhor maneira ao público. Revelar a excelência da carne gaúcha e da nossa raça é o principal objetivo da associação, que se realiza de forma muito intensa nos dias de feira”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Hereford e Braford, Luciano Dornelles.

Atraídas pelo entusiasmo do público na pequena avenida, que fica perto do pavilhão do gado de corte, outras entidades do setor resolveram investir em atrações para divulgar seus produtos. Foi o caso do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados (Sindilat/RS), que em 2017 inaugurou o Pub do Queijo com a proposta de valorizar a produção gaúcha e estimular o consumo dos laticínios, especialmente de queijo. Em 2019, além de organizar degustações e cursos de harmonização, o pub também vai oferecer grelhados – o par perfeito para os queijos, segundo o Sindilat.

“Já está provado que a Expointer cria novas culturas gastronômicas, especialmente no Rio Grande do Sul. É comum ver novos pratos em restaurantes de Porto Alegre inspirados na gastronomia da feira. Por isso vamos combinar o queijo com a carne, que é o produto gaúcho por excelência, para promover a indústria local”, explica o secretário executivo do Sindilat, Darlan Palharini.

Depois de provar o melhor da carne gaúcha, basta atravessar a rua para mergulhar em um universo de moda único. São marcas que podem até não estar presentes nas lojas de shoppings famosos, mas são amadas por quem tem ao menos parte de sua vida no campo. É o caso da Malacara, marca gaúcha de botas e artigos de couro que nasceu justamente dentro da Expointer, há 11 anos. No início, fabricava somente botas de montaria para o público do cavalo crioulo – atualmente, 80% dos itens são voltados para as mulheres. A grande vitrine continua sendo a loja da Expointer, onde ocorrem os lançamentos anuais das coleções e onde os clientes mais fiéis se encontram todos os anos.

“Já abrimos outras lojas em Porto Alegre e Gramado e temos presença forte na internet e nos eventos do cavalo crioulo. Mas nosso principal objetivo continua sendo a Expointer, que dita as tendências da moda rural para o resto do ano no País”, revela o sócio-diretor da empresa, Francis Barbosa.

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