Sorriso no rosto

Líder nacional em valor de produção agrícola, município mato-grossense transforma escala de grãos em agroindústria, riqueza urbana e um dos ecossistemas mais completos do campo brasileiro
Edição: 55
3 de agosto de 2026

Lucas Bresser e Giovanna Arruda

Chamar Sorriso, no Médio-Norte de Mato Grosso, de capital brasileira do agro já deixou de ser figura de linguagem. O município consolidou esse posto nos números. Segundo a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) do IBGE, Sorriso registrou em 2024 o maior valor de produção agrícola do País pelo sexto ano consecutivo, com R$ 7,2 bilhões, equivalente a 0,9% de todo o valor da produção agrícola nacional. Os números relativos a 2025, embora ainda não divulgados, tendem a confirmar essa posição. Mais do que um título simbólico, trata-se de um indicador objetivo do peso que a cidade alcançou no mapa do agronegócio brasileiro, num cenário em que Mato Grosso permaneceu como líder nacional em valor de produção agrícola, mesmo em um ano de retração de preços e de efeitos climáticos adversos sobre parte das lavouras.

O que faz de Sorriso um caso emblemático é a capacidade de transformar escala produtiva em ecossistema econômico. A cidade aparece de forma recorrente entre os maiores polos brasileiros de soja, milho, algodão e feijão. Em 2024, foi o primeiro município do Brasil em valor de produção de milho, com R$ 2,4 bilhões, o terceiro em soja, com R$ 3,3 bilhões, o sexto em algodão, com R$ 1,3 bilhão, e o quarto em feijão, com R$ 195,7 milhões. No ano anterior, pela PAM 2023, o município já havia movimentado R$ 8,3 bilhões, com R$ 5 bilhões em soja, R$ 2,1 bilhões em milho, R$ 1 bilhão em algodão e R$ 185,8 milhões em feijão, mostrando que a força local não depende de uma única cultura, mas de um arranjo robusto de produção e diversificação.

A soja e o milho, entretanto, são a espinha dorsal dessa estrutura. Em 2023, Sorriso foi o maior produtor municipal de soja do Brasil, com 2,3 milhões de toneladas, segundo o IBGE. O milho, por sua vez, tornou-se peça decisiva tanto na formação de renda quanto no adensamento industrial da cidade. Em 2024, Sorriso também voltou a liderar o País em volume produzido desse grão, com 3,7 milhões de toneladas, reforçando um padrão que explica por que o município é visto hoje como um território de alta eficiência logística, tecnológica e empresarial.

“Sorriso tem o título de capital do agronegócio pela extensão territorial de área consolidada, em torno de 602 mil hectares, e pela natureza muito pródiga e bastante estável ano a ano, com poucas variações, o que permite toda essa produção”, diz o secretário de Agricultura e Meio Ambiente do município mato-grossense, Clovis Picolo Filho. “O município já chegou a crescer 18% ao ano e hoje mantém um ritmo de cerca de 8%, impulsionado principalmente pelo agro.” Segundo o secretário, o crescimento é sustentado por uma demanda intensa por tecnologia nas fazendas e pela expansão de indústrias, comércio e serviços especializados. “O produtor local é altamente aberto à inovação e à busca constante por produtividade, o que exige uma rede ampla e qualificada de serviços.”

Sorriso é o primeiro município do Brasil em valor de produção de milho, o terceiro em soja e o quarto em feijão
Cristina Delicato, do Clube Amigos da Terra: pesquisa científica faz a diferença

O município conta ainda com outro importante diferencial competitivo: uma posição logística estratégica, no entroncamento da BR-163 com a MT-242, além da presença do Aeroporto Regional Adolino Bedin, que atualmente recebe voos comerciais regulares da Azul. Ou seja: Sorriso reúne algo raro mesmo para os padrões do Centro-Oeste – terra disponível, escala, conectividade e uma base empresarial organizada para produzir, armazenar, processar e embarcar.

Essa evolução foi acompanhada pelo avanço de práticas agrícolas voltadas à intensificação sustentável, impulsionadas também pelas exigências crescentes de mercados internacionais e pela necessidade de ganhos contínuos de produtividade. Segundo Cristina Delicato, coordenadora executiva do Clube Amigos da Terra (CAT) Sorriso, organização sem fins lucrativos criada em 2002 com o objetivo de promover o agronegócio sustentável, a própria transformação agronômica da região ajuda a explicar esse desempenho. “Os solos do Cerrado brasileiro, predominantes na região de Sorriso, apresentavam limitações naturais, como elevada acidez e baixa disponibilidade de nutrientes”, explica. “A transformação dessas áreas em regiões altamente produtivas foi resultado do investimento em pesquisa científica, especialmente conduzida pela Embrapa, aliado à capacidade de inovação e adoção de tecnologias pelos produtores rurais.” Delicato diz que práticas como correção da acidez do solo, adubação equilibrada, plantio direto, rotação de culturas e uso de técnicas conservacionistas permitiram melhorar a fertilidade e a estrutura do solo, tornando a agricultura eficiente e sustentável ao longo das décadas.

O caso de Sorriso também chama a atenção porque a riqueza produzida pelo agronegócio deixou de ficar restrita ao campo. O município passou a estruturar, nos últimos anos, uma cadeia agroindustrial cada vez mais sofisticada, capaz de agregar valor localmente à produção de grãos. O milho é talvez o maior exemplo dessa transformação. Tradicionalmente associado à segunda safra, o cereal passou a abastecer uma nova indústria de etanol de milho que alterou profundamente a dinâmica econômica regional. A FS, referência nacional no segmento, mantém operação em Sorriso com capacidade industrial integrada para produção de etanol, energia elétrica e DDG – coproduto utilizado na nutrição animal. Somadas, as plantas da empresa em Mato Grosso processam mais de 5 milhões de toneladas de milho por ano e posicionaram o estado como principal polo brasileiro de etanol de milho.

Clovis Picolo, secretário de Agricultura: “Crescemos 8% ao ano, impulsionados pelo agro”
O crescimento da oferta de farelo, DDG e outros coprodutos estimula cadeias como suinocultura, avicultura e bovinocultura

“A força da produção agrícola criou as condições para o avanço da agroindústria, que hoje está em plena expansão no município”, diz Clovis Picolo Filho. “Sorriso conta com estrutura de processamento relevante, incluindo esmagadora de soja, nichos como soja convencional e uma indústria de etanol de milho que já alcança produção próxima de 1 bilhão de litros por ano.”
O crescimento da oferta de farelo, DDG e outros coprodutos também estimula cadeias como suinocultura, avicultura e bovinocultura intensiva. Dados do Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (Indea) mostram que Sorriso já ocupa posição de destaque nessas frentes: no levantamento de 2024, o município aparece com 6,1 milhões de cabeças de aves comerciais, atrás apenas de Nova Mutum no estado, e com 258 mil suínos em estabelecimentos tecnificados, terceira maior marca de Mato Grosso. Esse é um sinal claro de complementaridade econômica: a mesma agricultura que gera grão, óleo e etanol passa a abastecer cadeias de proteína animal, criando um círculo de agregação de valor que fortalece renda, emprego e arrecadação.

Outro exemplo concreto de adensamento industrial é a presença da Caramuru Alimentos. Em sua unidade de Sorriso, a empresa processa cerca de 1.200 toneladas de soja por dia, produzindo lecitina de soja, proteína concentrada de soja (SPC), glicerina refinada e biodiesel. Em números, isso significa até 103 milhões de litros de biodiesel por ano, promovendo uma cadeia industrial que amplia a captura de valor dentro do próprio município. Isso mostra que Sorriso foi deixando de ser apenas uma plataforma de produção agrícola para se afirmar como plataforma agroindustrial. Esse movimento – do grão para o esmagamento, do milho para o etanol, do farelo para a ração, da commodity para o produto processado – ajuda a explicar boa parte da riqueza que hoje circula na economia urbana local.

As exportações se somam ao cenário para traduzir essa relevância. Em 2024, Sorriso ultrapassou US$ 2 bilhões em embarques internacionais e manteve a China como principal destino das vendas externas, especialmente de soja e milho. O município ainda ampliou relações comerciais com países do Oriente Médio, Ásia e América Latina, reforçando o caráter globalizado da produção local.

A força econômica teve reflexos evidentes sobre o desenvolvimento urbano. O crescimento da renda impulsionou a expansão imobiliária, a criação de novos bairros, a abertura de empresas e a ampliação da rede de serviços. Hoje, segundo estimativas da prefeitura, o município conta com cerca de 140 mil habitantes e é um dos que registram crescimento mais acelerado no Centro-Oeste. “Saúde, educação e demais serviços se desenvolveram para atender às pessoas que vieram investir, trabalhar e crescer dentro do ecossistema do agronegócio”, diz Picolo. A transformação é visível nas ruas. Hospitais privados, escolas, condomínios residenciais, centros empresariais e um comércio aquecido redesenharam a paisagem urbana da cidade ao longo da última década. O agro financiou máquinas e silos, mas também infraestrutura urbana, serviços médicos, educação e novos padrões de consumo.

O município conta com cerca de 140 mil habitantes e é um dos que registram crescimento mais acelerado do País

Naturalmente, a prosperidade tem reflexos nos indicadores de desenvolvimento humano, refletindo o impacto direto do agronegócio sobre renda e qualidade de vida. O município apresenta IDHM de 0,744 – considerado alto –, sustentado por avanços em renda, educação e longevidade, além de um PIB per capita superior a R$ 124 mil, um dos mais elevados do Centro-Oeste. No campo educacional, Sorriso apresenta taxa de escolarização de 98,85% entre crianças de 6 a 14 anos e IDEB de 6,3 nos anos iniciais, acima das médias estadual e nacional, além de investimentos públicos acima do mínimo legal, com cerca de 27% da arrecadação destinados à educação.

Também nesse terreno, o agro extrapola os limites da fazenda. Por meio do Programa Sorriso Vivo, o CAT Sorriso desenvolve desde 2005 o projeto Agro na Escola, com palestras, materiais didáticos e concursos culturais em escolas urbanas e rurais. “Ao longo desses mais de 20 anos, milhares de crianças e adolescentes tiveram a oportunidade de compreender de onde vêm os alimentos que chegam às suas mesas, conhecer a realidade do produtor rural e entender que agricultura e meio ambiente podem caminhar juntos”, diz Cristina. “O projeto contribui para a formação de cidadãos mais conscientes e ajuda a reduzir a distância entre o campo e a cidade.”

Na área social e de infraestrutura, os indicadores revelam tanto avanços quanto desafios típicos de cidades que crescem rapidamente. O município investe significativamente em saúde – cerca de 25,8% da receita, bem acima do mínimo constitucional – e apresenta expectativa de vida de 75 anos, embora enfrente pressão sobre o sistema público, evidenciada pelo número de atendimentos acima da população residente. Em saneamento, Sorriso já alcança níveis elevados de cobertura de água (94,6%) e coleta de resíduos (95,1%), mas ainda possui baixa cobertura de coleta de esgoto. Esse contraste ilustra um padrão de desenvolvimento acelerado, no qual a expansão econômica convive com a necessidade de ampliar infraestrutura urbana, reforçando o caráter de cidade em transformação.

Esse processo, evidentemente, não ocorreu de forma espontânea. Ele foi construído por gerações de produtores, muitos deles migrantes, que apostaram no Cerrado mato-grossense, por empresas que se instalaram para esmagar soja, fabricar biodiesel, produzir etanol e estruturar cadeias de proteína, e por uma rede de serviços técnicos, revendas, transportadores, tradings, cooperativas, consultorias, oficinas e laboratórios que passou a orbitar em torno do núcleo produtivo. Entre esses pioneiros está o produtor rural Darcy Getúlio Ferrarin, de 73 anos, nascido em Constantino (RS), que chegou a Mato Grosso em busca de oportunidades e acabou acompanhando de perto a transformação da cidade. “Escolhi Sorriso porque vi aqui a possibilidade de crescer junto à cidade, ajudando a construir uma agricultura forte e sustentável”, afirma. Ele produz soja e milho e relata que, ao longo dos anos, também trabalhou com algodão e sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP). Para Ferrarin, a adoção do plantio direto no Cerrado foi um marco importante, pois trouxe benefícios ambientais significativos, como a conservação do solo, a redução da erosão e a melhoria da infiltração de água. “Hoje, entendemos que é possível produzir mais utilizando áreas já abertas, conciliando produtividade e preservação dos recursos naturais.”

Sorriso já contabiliza uma parcela relevante de sua área agrícola com certificações ambientais e mantém percentuais significativos de preservação dentro das propriedades rurais, evidenciando um modelo produtivo que busca equilibrar intensificação e responsabilidade ambiental. “Hoje, cerca de 25% da área do município já conta com certificação de produção sustentável”, afirma Clovis Picolo Filho. Ele ressalta ainda que a conservação ambiental é parte estrutural da lógica produtiva local. “Sorriso mantém aproximadamente 27% de sua área como reserva, sob responsabilidade dos produtores rurais. O produtor é, por natureza, conservacionista, e isso se reflete em um modelo de produção ambientalmente equilibrado e reconhecido.”

Sorriso possui parcela importante de sua área agrícola com certificações ambientais

Na experiência de Darcy Ferrarin, os investimentos em sustentabilidade também se traduzem em ganhos concretos na escala da fazenda. “Nossa propriedade participa de programas de certificação em sustentabilidade, o que proporciona benefícios econômicos pelo reconhecimento das boas práticas adotadas no campo”, afirma. “Além da remuneração adicional, a certificação contribui para melhorias na gestão da propriedade, organização dos processos e maior preparo para atender às exigências dos mercados consumidores.”

É justamente nessa capacidade de articular campo, cidade, indústria e sustentabilidade que Sorriso parece condensar uma das grandes narrativas do agronegócio brasileiro contemporâneo. O município continua sendo, em essência, uma potência agrícola. Mas sua relevância vai além da lavoura. Sorriso representa um modelo em que produtividade, tecnologia, integração de cadeias e agregação de valor se convertem em desenvolvimento local. Em tempos em que o mundo discute segurança alimentar, rastreabilidade, competitividade e transição energética, a cidade mato-grossense oferece um retrato concreto de como o agro pode se sofisticar sem perder escala. E de como essa sofisticação, quando bem capturada, muda a paisagem econômica e social de um território inteiro.

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