Por Romualdo Venâncio
Quando Silvia Massruhá assumiu a presidência da Embrapa, em maio de 2023, a instituição que há meio século lidera a pesquisa agropecuária brasileira passou a ser comandada, pela primeira vez, por uma mulher. Menos de três anos depois, a história voltou a se repetir. Ao completar 50 anos de existência, a Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande (MS), escolheu como chefe-geral a zootecnista Mariana de Aragão Pereira – também a primeira mulher a ocupar o cargo. As duas chegaram ao topo após trajetórias construídas ao longo de décadas de dedicação à ciência e à gestão da pesquisa agropecuária. Ainda assim, o simbolismo é inevitável. “Antes da Silvia, eu mesma não me via nessa posição por não ter outra referência”, afirma Mariana, que assumiu o comando da unidade em janeiro, à frente de uma diretoria com forte presença feminina. Nascida em Campinas (SP) e criada no Rio de Janeiro, Mariana é formada em zootecnia, mestre em Economia Aplicada pela Universidade Federal de Viçosa (MG) e Ph.D. em Agricultural Management pela Universidade de Lincoln, na Nova Zelândia. Há 25 anos na Embrapa, ela chega ao novo cargo com o desafio de ampliar a relevância da unidade Gado de Corte, fortalecer o papel da ciência na construção de uma pecuária mais sustentável e disseminar essa visão por toda a organização. Nesta entrevista exclusiva, Mariana fala sobre os caminhos para alcançar esses objetivos e os desafios da pesquisa agropecuária em um setor cada vez mais pressionado por demandas de produtividade, competitividade e sustentabilidade.
Como uma garota nascida em Campinas se interessou pela zootecnia?
Quando criança, passava férias na fazenda de uma tia, em Minas Gerais, e também tinha um avô agrônomo, que se formou na Universidade Federal de Lavras e foi um dos pioneiros da extensão rural. Eu gostava de ouvir suas histórias. Pensei até em fazer veterinária, mas conheci a zootecnia e me encantei.
Estava nos seus planos se tornar chefe-geral de uma unidade da Embrapa?
Essa é uma história interessante. Entrei na empresa com 26 anos e não pensava nesse cargo. Só queria fazer meu trabalho, contribuir. Tive bons mentores e construímos muitas coisas juntos, como diversos trabalhos sobre viabilidade econômica das forragens, das pastagens, do ponto de vista da longevidade do processo produtivo. Quando retornei do meu doutorado na Nova Zelândia (2007-2011), passei a participar de várias palestras, viajar muito, até que fui convidada para coordenar o grupo de pesquisa sobre sistemas de produção de gado de corte.
O que o doutorado mais agregou para sua formação?
Foi um período muito importante, voltado para a área de economia e gestão rural, mas também passei a estudar psicologia para entender os processos de tomadas de decisão dos produtores, uma visão sobre economia comportamental. Isso desconstruiu um pouco o conceito da economia neoclássica, mostrando que as decisões financeiras não são puramente racionais. Fiquei encantada.

Como esse processo impactou seu trabalho na Embrapa?
Isso tudo não acontece com um virar de chave, é uma construção. Sempre trabalhei o autodesenvolvimento e me preparei até para superar crenças limitantes. Em vez de estar em um lugar e achar que meu potencial não era visto como deveria, passei a me ver como parte do processo e entender que posso contribuir para as mudanças necessárias. Passei a aproveitar e a capitalizar oportunidades, daí comecei a ser chamada para muitas coisas. Como pesquisadora, estava realizada, mas queria contribuir mais. Ser chamada para coordenar um grupo de pesquisa e gerenciar pessoas foi o grande teste que me credenciou para chegar aonde estou.
Qual é a relevância de ser a primeira mulher a chefiar a Embrapa Gado de Corte?
Estamos em um momento no qual as questões de gênero estão mais em alta, temos uma presidente na Embrapa, muitas mulheres diretoras, então nos sentimos valorizadas e validadas. Ser mulher não é garantia para estar no cargo, pois trata-se de um pleito muito pesado, o processo de avaliação da capacidade, da qualidade técnica, é muito intenso e rigoroso. Mas quando uma mulher se vê representada, acredita que pode chegar lá. E ser a primeira mulher na Embrapa Gado de Corte é outro marco, pois a pecuária de corte é um ambiente muito mais masculino, mais conservador.
Qual é sua visão sobre o momento atual da pecuária, considerando questões de mercado, conflitos internacionais e a geopolítica?
Se olharmos historicamente, há momentos de calmaria e outros mais turbulentos. Agora, vivemos um período mais turbulento e isso pesa nas decisões de curto prazo. Porém, nosso trabalho é bastante voltado para o longo prazo, realizamos hoje os grandes indutores para o futuro. Questões como sustentabilidade, rastreabilidade, saúde animal, tudo isso continua na mesma direção em termos de linhas de pesquisa. Em relação a questões de curto prazo, sobretudo de mercado, temos outras instituições e vários especialistas que podem analisar e orientar.
Como o produtor deve lidar com esse cenário?
Por ser um tomador de preços, precisa olhar com muito critério seu sistema de produção para reduzir o que for possível nos custos. É o caso dos fertilizantes. O produtor vai deixar de usar ou vai racionalizar? O plano de longo prazo não pode ser interrompido por causa de algo pontual. Muitas vezes, sem esse plano de longo prazo, o produtor acaba perdendo o rumo quando surge um problema assim. Daí a importância de profissionalizar nossos produtores. Temos um papel social importante, que é promover a tecnologia junto aos pequenos e médios produtores, pois os grandes já estão em outro nível. Precisamos de uma rede e de políticas públicas que ajudem o pequeno produtor. Imagine um pecuarista que tem 20 cabeças e precisa colocar chip nos animais.
Por falar em chip de identificação, como avançar nesse ponto?
A Embrapa é uma empresa de pesquisa e desenvolvimento. A parte de pesquisa é onde temos o maior foco, é o nosso core, então fazemos com muita eficiência. Já a parte de desenvolvimento, de como chegar ao campo, fica mais difícil, pois há muito tempo faltam extensionistas, é uma ação muito limitada. Trabalhamos como facilitadores dessas ações e apoiamos o desenvolvimento de políticas públicas. Nossa expectativa é de que isso mude bastante. Assim, nossa pesquisa chegará com mais facilidade aos grupos que têm dificuldade, como os pequenos produtores.
Como a Embrapa contribui para a elaboração de políticas públicas que auxiliem nesse ponto?
Trabalhamos em parcerias públicas e privadas. Em Mato Grosso do Sul, existe um sistema de pagamento por serviços ambientais e antes disso houve uma série de discussões sobre produção e preservação no Pantanal, conduzidas pela Embrapa Pantanal. Participamos ativamente dessas conversas, levando informações técnicas para contribuir com o embasamento científico. Quando fizemos esse trabalho dos pagamentos por serviços ambientais, que é muito difícil de mensurar, já usamos a base do que foi realizado sobre o Pantanal. Hoje, os pecuaristas estão recebendo recursos para preservar áreas que poderiam, por lei, ser desmatadas. Muitas decisões ficam só no âmbito econômico e temos de envolver também o social.
Pelo que está dizendo, esse é um trabalho feito a várias mãos. Como funciona o trabalho conjunto entre as próprias unidades da Embrapa que atuam na pecuária de corte?
Nesse caso entra a Coalisão Pecuária do Futuro, uma das ações que estamos promovendo. Já fizemos a primeira reunião e estou agendando a segunda. Temos várias unidades trabalhando pesquisas para a pecuária e nem sempre sabemos o que cada uma está fazendo. Precisamos ter conexão disso tudo, saber como podemos, coletivamente, ajudar a cadeia produtiva.
Como mostrar ao público esse posicionamento agregador e seus benefícios?
Andamos um pouco no fio da navalha por causa das narrativas. Muito se fala que a pecuária de corte é apenas para grandes produtores, ou que é uma atividade prejudicial, que polui e desmata. Estamos trabalhando internamente uma mudança de cultura para mostrarmos a pecuária de corte como parte de uma bioeconomia, de uma economia circular. A pecuária faz serviços ecossistêmicos sobre os quais precisamos falar mais, até em nível global.

Pode dar um exemplo desses serviços ecossistêmicos da pecuária de corte?
Está todo mundo falando sobre o DDG (Dried Distillers Grains ou Grãos Secos de Destilaria), subproduto da indústria de etanol de milho que entra na alimentação animal. Porém, não temos um estudo que fale sobre o que seria feito com esse material caso não virasse alimento para o gado. A pecuária está resolvendo um passivo ambiental e gerando lucro para toda uma cadeia produtiva. Falamos muito sobre a carne, mas precisamos tratar também de todos os outros itens do setor, das demais oportunidades, de componentes que podem gerar bionergia. Hoje, temos diversos produtos de baixo carbono que surgiram de nosso protocolo de carbono neutro para a pecuária. E seguimos buscando pesquisas de integração com cadeias produtivas alternativas.
Quando se fala da imagem da pecuária brasileira no mundo, qual é o impacto da relação que se faz entre o setor e as mudanças climáticas?
Primeiro, precisamos ter essa consciência aqui, por isso estou trabalhando muito com a minha equipe, muita gente já está familiarizada com essas questões e outras precisam entender um pouco melhor. Segundo, vem uma internalização da própria Embrapa, por isso a Coalisão Pecuária do Futuro. Muitos chefes já trabalham com essa ideia, mas ela precisa chegar com mais força também aos pesquisadores. Depois, é uma reverberação natural. Precisamos mostrar a realidade do Brasil lá fora e não deixar que o País seja descrito apenas por pessoas que não conhecem a nossa realidade.
Essa comunicação também deve chegar ao consumidor final no Brasil?
É fundamental, mas bem mais difícil, pois a distância que nos separa desse público é bem maior do que em relação a quem está no nosso ambiente. Nossa conversa com o consumidor virá a partir da comida e não do boi. O discurso deve ser mais sobre carne do que sobre sistema produtivo. Tenho dialogado sobre isso inclusive com a Embrapa Alimentos e Territórios. Quando minha mãe vai comprar carne, ela não está preocupada se o boi comeu pasto ou ração. Talvez pense no impacto ambiental, se há desmatamento, porque aí entra a questão de que comer é um ato político.
Qual é, então, o fator de decisão do consumidor quando compra carne bovina?
A grande maioria continua escolhendo a carne pelo preço. Esse é o maior diferencial para a decisão de compra. Muito depois vem a preocupação com resíduos de algum produto e, bem mais à frente, o interesse sobre emissão de gases de efeito estufa. Enquanto a conversa for sobre preço, vamos priorizar a produção eficiente com baixo custo, oferecendo carne de qualidade com segurança sanitária. Para um público mais exigente, que avalia outros pontos, temos de considerar diferentes atributos de qualidade, como origem. Seria interessante trazermos o pessoal da gastronomia para participar mais dessa conversa, como fazem na Austrália, levando chefs para conhecer a cadeia produtiva.
Além de todas essas ações que estão no dia a dia da unidade, qual é seu grande projeto para a Embrapa Gado de Corte?
É a construção de um hub de inovação em pecuária de corte, o que espero ser um grande divisor de águas. A ideia é ter uma fazenda de 300 hectares, dentro da nossa estrutura, para desenvolver sistemas de produção que sejam viáveis para replicação em escala comercial. Usaremos tudo o que há de novidades tecnológicas, como inteligência artificial, para observarmos todas as variáveis de cada projeto. Desenvolveremos tecnologias e processos para os pequenos produtores de forma que possam ser extrapolados para os grandes, até porque o contrário não seria possível, devido ao nível de investimento necessário. Não queremos deixar ninguém de fora. Vamos definir toda a parte de planejamento ainda em 2026 para que seja implementado em 2027. Esse projeto será a menina dos olhos da minha gestão.

