O dragão entra na lavoura

A ofensiva chinesa que já transformou o mercado de automóveis avança sobre o agronegócio, levando tratores e colheitadeiras mais baratos às fazendas brasileiras
Edição: 55
28 de setembro de 2026

Por Mário Sérgio Venditti

Nos últimos seis anos, um instigante movimento vem agitando o segmento automotivo brasileiro: o lançamento de vários modelos chineses para rivalizar com as marcas tradicionais. Se a invasão está mudando o cenário das ruas do País, fenômeno semelhante acontece no campo. Máquinas agrícolas made in China também movimentam o agronegócio nacional. Com produtos de 15 a 30% mais baratos, elas ingressaram aos poucos no setor que, em 2025, vendeu 61 mil máquinas agrícolas no País, alcançando faturamento de R$ 67 bilhões, de acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). 

Pedro Bastos, da Abimaq: as principais marcas chinesas terão fábricas no Brasil

A Zoomlion é uma das companhias chinesas de olho nesse gordo faturamento. A empresa iniciou suas atividades no país em 2008, mas somente no ano passado passou a vender tratores destinados ao agronegócio. Huang Wei Che, head de Máquinas Agrícolas no Brasil, nasceu em Taiwan e mora há 37 anos no Brasil. Conhece, portanto, muito bem as particularidades de um mercado tão competitivo.  “Nosso primeiro passo foi criar uma rede de distribuidores que consiga atender os clientes de todas as regiões”, afirma. A Zoomlion é uma gigante chinesa com receita de US$ 10 bilhões por ano em todas as suas operações. Em 2026, o braço agrícola da empresa no Brasil projeta arrecadar R$ 500 milhões, cinco vezes mais que no ano passado. “Nosso portfólio é diversificado e inclui tratores de 75 cv a 410 cv, colheitadeira de grãos e tratores híbridos (diesel e eletricidade) de 200 cv a 700 cv, que consomem 20% menos em relação ao motor diesel. É um diferencial atraente”, acrescenta Wei Che.

Embora fabrique equipamentos de construção civil em Indaiatuba (SP), a Zoomlion pretende produzir máquinas agrícolas em outra cidade até 2030, seguindo o modelo de negócio aplicado na matriz, na cidade de Changsha. “Vamos separar bem as linhas dos produtos, avaliar quais modelos vendem mais e deixar o sistema de trabalho estruturado”, diz. “A tendência é começar com tratores pequenos, de 25 cv a 50 cv de potência, e progredir aos poucos, de acordo com a demanda dos clientes.”          

Wei Che sabe que o tabuleiro do agronegócio brasileiro exige uma peça decisiva: o pós-venda eficiente. Ele pode ser o calcanhar de Aquiles para uma marca que ainda não fabrica no País. Por isso, a Zoomlion exige que os concessionários mantenham um nível muito alto de peças em seus estoques. A ordem é não deixar nenhum trator do produtor parado. “Hoje, a nossa rede é composta por dez dealers, mas queremos encerrar 2026 com 16. Eles serão responsáveis por manter de 40 a 50 pontos de vendas e pós-venda.”   

As marcas chinesas se estabelecem no Brasil sem pressa e sem alarde. No entanto, já descobriram que participar dos eventos do setor é essencial para mostrar as qualidades de seus produtos a potenciais clientes. Em abril, a Zoomlion marcou território na Agrishow, uma das principais feiras do agronegócio brasileiro realizada anualmente em Ribeirão Preto (SP). Perto dela, estavam nada menos que 50 expositoras da China, a maioria de pequeno porte e que ainda mantêm representações modestas no mercado nacional.

O avanço irrefreável dos equipamentos chineses inaugura uma nova fase de concorrência no mercado brasileiro

O movimento é planejado. Elas desembarcam por aqui, sentem o mercado e, se o cenário econômico estiver propício, avançam. É o caso da Lovol, que pertence ao conglomerado Shandong Heavy Industry Group (SDHI). “Vendemos tratores no Brasil desde 2024, mas adotamos a cautela”, diz André Rorato, diretor de Operações da Lovol no Brasil. Com 14 importadores credenciados – querendo chegar a 20 até o fim do ano –, a Lovol quer dar um passo mais ousado e fabricar no País. Ele garante que isso acontecerá logo, mas não diz quando. 

Com a produção local, os clientes poderão se valer de linhas de financiamento oficiais para comprar as máquinas da Lovol e, consequentemente, aumentar o volume de vendas da companhia no Brasil. “O esforço agora é expandir a rede de concessionárias para atender o produtor rural de norte a sul, embora as vendas estejam concentradas em São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, estados onde o cultivo do café é mais forte”, diz Rorato.

A Lovol atua em 120 países e o Brasil é um mercado estratégico. “Os tratores vão de 25 cv a 350 cv de potência, com preços de R$ 80 mil a R$ 700 mil. Mas a faixa de até 150 cv representa 80% das nossas vendas no País”, diz o executivo. Com uma ação mais agressiva, a companhia pretende mudar um pouco esse perfil, apostando alto no segmento de tratores de 100 cv. Além disso, mira um público abrangente e não apenas o pequeno produtor. Para o diretor, o diferencial dos equipamentos da empresa é a relação custo/benefício. A Lovol investe valores altos em pesquisa, desenvolvimento e engenharia, que se refletem na qualidade dos produtos, que custam de 15 a 18% menos que os similares feitos localmente. Outra vantagem dos equipamentos apontada por Rorato é o preço da manutenção abaixo da média do mercado. Isso porque a companhia não depende da cadeia de fornecedores: “Ela simplesmente fabrica tudo, o que facilita a logística de distribuição e permite a cobrança de um valor inferior”.

A exemplo de várias marcas conterrâneas, a XCMG começa a trazer suas máquinas com paciência oriental. “Nossa operação ainda é incipiente”, diz Daniel Sasaki, head da divisão Comercial da rede de distribuidores da XCMG Brasil. “Lançamos o trator de 100 cv de potência e apresentamos um protótipo de 85 cv com motor Cummins.” No momento, a companhia está estruturando a rede para dar andamento ao novo negócio. Já são 14 grupos econômicos que respondem por 100% da cobertura territorial.

A XCMG é novata no setor do agronegócio no País – desde 2014 fabrica equipamentos de construção e mineração na unidade de 800.000 m2 em Pouso Alegre (MG). São quatro galpões principais e dez instalações auxiliares, em um total de US$ 500 milhões investidos no desenvolvimento de infraestrutura da marca no Brasil. Com essas instalações, a XCMG não descarta a intenção de fabricar máquinas agrícolas por aqui. “As atividades no Brasil têm importância estratégica e contribuíram para a empresa alcançar o posto de terceira maior fabricante do mundo, em 2025”, diz Sasaki.

A empresa mantém um departamento de engenharia com atividades dedicadas à linha de produtos. Uma delas é a tropicalização. A gama de powertrain vem de marcas mundialmente reconhecidas, como sistema hidráulico Kawasaki nas escavadeiras e Danfoss nos compactadores. Os motores são da Cummins, Yanmar, Kubota e Perkins. Ao se associar com empresas renomadas, a XCMG espera fisgar o interesse e a confiança dos agricultores. Segundo Sasaki, o pós-venda também é um dos pilares da companhia. “Contamos com um departamento de engenharia de aplicação, de performance e toda uma estrutura de peças e serviços em Pouso Alegre”, afirma. “Além disso, abrimos filiais em estados como Minas Gerais, Pará, Maranhão, Mato Grosso, Espírito Santo e São Paulo, que contam com estrutura completa também em pós-vendas.” Assim, a base para a XCMG está preparada. Basta o sinal verde definitivo do quartel-general, localizado na cidade de Xuzhou.

As máquinas chinesas, que por enquanto chegam apenas como importadas, encontram resistência da Abimaq. Segundo Pedro Estevão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas, o crescimento das vendas se apoia na chamada “emenda Pix”, expressão dada à modalidade de transferência de verba que permite a deputados e senadores enviar recursos federais a seus currais eleitorais, sem necessidade de convênios ou obrigatoriedade de vincular o dinheiro a projetos específicos. “Com esse dinheiro, as prefeituras podem comprar equipamentos agrícolas chineses mais baratos, fora de linhas de créditos do Plano Safra”, afirma. Bastos ressalta que o movimento de importação de máquinas chinesas começou há três décadas nas áreas de construção civil e mineração. No segmento agrícola, o fenômeno é recente: “Há cinco anos, os equipamentos da China respondiam por 5% das importações. Hoje, estão em 10% no agronegócio e 32,5% no geral”.

O executivo diz que a ameaça para a indústria nacional é o encolhimento do mercado por falta de competitividade dos fabricantes locais diante de um produto mais barato. O dirigente da Abimaq acredita que, cedo ou tarde, as principais marcas chinesas fabricarão no Brasil. “Yto e Lovol já sinalizaram que farão isso, mas é uma decisão demorada e, até lá, as representantes oficiais não terão uma rede de distribuição de peças à altura da necessidade, principalmente em regiões mais distante dos grandes centros”, diz. Para tentar frear a invasão, a Abimaq aguarda a sanção do Projeto de Lei 4.133/23, que estabelece parâmetros mais favoráveis à proteção da indústria nacional, com a possibilidade de cotas maiores ou exclusividade em licitações públicas. O texto foi aprovado na Câmara dos Deputados no dia 17 de junho e agora segue para o Senado. Se passar, ou as importações perderão fôlego ou as companhias chinesas terão de acelerar o processo de fabricação local.

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