O campo toma a palavra

Movimento Vozes da Pecuária reúne produtores de oito estados para ampliar a representação do setor e influenciar a formulação de políticas públicas
3 de novembro de 2026

Por Romualdo Venâncio

Contrariados com as acusações sobre o impacto ambiental de suas atividades, pecuaristas resolveram “sair das trincheiras”, como muitos deles definem, e se lançar ao bom combate. Munidos de informação e preparados para o diálogo, decidiram ir para a linha de frente e defender a própria atividade. Assim surgiu o movimento Vozes da Pecuária, iniciativa do Instituto Pecuária Tropical pelo Clima que busca ampliar a representação do setor nos principais fóruns do País, evidenciar a diversidade da pecuária brasileira, apresentar as demandas e particularidades de cada território e contribuir para a formulação de políticas públicas mais alinhadas à realidade do campo.

A falta de uma sólida presença institucional é um problema crônico da pecuária. Uma das principais consequências disso é o setor assistir à sua história ser narrada por quem não o representa nem o conhece de verdade. É exatamente por essa razão que uma das etapas fundamentais do projeto foi a definição dos territórios e a identificação de suas particularidades climáticas e agronômicas, das características zootécnicas de cada sistema de produção, da estruturação comercial e de toda a bagagem cultural que envolve a produção de gado de corte nessas regiões.

Essa articulação começou em setembro do ano passado, com um encontro nacional que fincou bandeira em Brasília (DF). O evento colocou os pecuaristas frente a frente com deputados federais, ministros, diretores de confederações nacionais e formadores de opinião. O grupo aproveitou a oportunidade para reivindicar seu legado e apresentar suas demandas por meio de uma carta aberta que consolidou, de forma ampla, as diretrizes do setor. A mesma voz que ecoou para fora reverberou do lado de dentro.

“A partir do momento em que você começa a falar, passa também a se enxergar melhor, a ver com clareza qual é o seu papel nesse mosaico que é a pecuária”, diz a produtora rural pantaneira Ida Beatriz de Arruda Machado, uma das primeiras a integrar o Vozes da Pecuária. Proprietária da Fazenda Nossa Senhora do Machadinho, em Cáceres (MT), a pecuarista vê o projeto como um canal de duas vias. De um lado, conduz os pecuaristas na difusão de sua mensagem; de outro, ajuda-os a desenvolver uma visão mais abrangente do próprio negócio.

É como se essa ação coletiva furasse as bolhas e criasse conexões entre elas, permitindo aos pecuaristas sair de seu próprio círculo e acessar o de outros grupos – e vice-versa. Esse fluxo é benéfico até mesmo para compreender as distinções entre aquilo que os produtores priorizam no desenvolvimento de seus rebanhos e o que o consumidor, na outra ponta, deseja. “O acabamento de carcaça, tão valorizado na hora do abate, pode não fazer a menor diferença para a dona de casa que está comprando a carne”, diz Ida. “O que ela quer saber é como preparar essa carne, como aquele corte facilita sua vida e que preço ela vai pagar.”

Rebanho no pasto: diversidade de climas, territórios e sistemas de produção compõem o mosaico da pecuária brasileira

O projeto já está presente em oito estados: Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Rondônia, São Paulo e Tocantins. Segundo dados da coordenação do Vozes da Pecuária, a iniciativa abrange 37 municípios de referência e soma dez territórios. Em termos de rebanho, os participantes respondem por mais de 18,2 milhões de cabeças, volume que ainda pode crescer muito. “Esses oito estados reúnem mais de 120 milhões de bovinos”, diz a facilitadora do programa, Renata Miranda, que não é pecuarista, mas traz conhecimentos de áreas decisivas para o desenvolvimento do projeto.

Engenheira de alimentos formada pela Universidade Federal de Viçosa, Renata está há quase duas décadas imersa nos debates e nas políticas públicas relacionados à sustentabilidade no agronegócio. São 18 anos de carreira na Embrapa. No atual projeto, Renata divide a missão com o dramaturgo e especialista em estratégias e conteúdos digitais Cacau Guarnieri. Os dois são os únicos integrantes do grupo que não são pecuaristas e, apesar de desempenharem um papel estratégico em todo o processo, evitam se colocar como lideranças da iniciativa. “Quem lidera são os pecuaristas”, afirma Renata.

O dramaturgo Cacau Guarnieri: projeto busca desenvolver uma narrativa mais forte para o setor
Renata Miranda, do Vozes da Pecuária: espaço permanente para a troca de ideias

A presença de Renata e Guarnieri é um dos diferenciais da iniciativa, pois ambos trazem outro olhar e uma experiência que confere mais consistência à construção de uma narrativa forte para o que está sendo proposto. “A ideia de dar voz ao pecuarista, com outro posicionamento, está sendo exitosa. Criamos uma clareira, mostrando que isso é possível e que não se trata de apenas uma pecuária”, diz Guarnieri. “Há um olhar para o futuro, revisitando o legado do pecuarista. E trazendo conciliação, algo que é muito importante para seguirmos em frente.”

Embora esteja sendo edificado de maneira inovadora, o projeto traz referências de ações anteriores, como a Liga do Araguaia, iniciada em 2016, no Vale do Araguaia, e que contou com a participação de Guarnieri. “É um dos primeiros projetos, se não for o primeiro, de pecuarista para pecuarista, baseado na união para irem à frente da sua representação, sem intermediários”, diz. Outra inspiração é o projeto Terra Adorada, antes chamado de Morada Comum, que o comunicador também integra. A partir do propósito de apoiar audiências que costumavam estar distantes das pautas ambientais, identificou-se uma demanda interna para amplificar a voz do pecuarista. “Dali em diante, surgiu a ideia de resgatar a narrativa pela causa pecuarista, fazendo com que aquela ideia do Vale do Araguaia ressoasse em outros biomas”, diz Guarnieri. 

Comitiva de especialistas em visita de campo: iniciativa busca levar as demandas dos produtores ao debate público

Em meio às rodas de escuta, vieram à tona desafios muitas vezes não percebidos, compreendidos ou considerados nos debates sobre a cadeia produtiva da carne bovina. A deficiência logística é um exemplo, pois, dependendo da localização da fazenda, a falta de estradas dificulta até mesmo a chegada de insumos. Outro fator é o custo do licenciamento ambiental, como aquele que recai sobre a construção de um confinamento. Na esteira dessa questão, vem a insegurança jurídica provocada pela falta de uniformidade das exigências. “O pecuarista faz um aceiro por orientação do Corpo de Bombeiros, aí recebe uma multa da Secretaria de Meio Ambiente porque, para fazer esse aceiro, precisou desmatar”, diz Renata.

A estruturação do projeto também leva em consideração a velocidade cada vez maior com que as transformações acontecem na pecuária, como demonstrou o chamado efeito Boi China. “Abatíamos bois com quatro ou cinco anos e, de um dia para outro, passou a ser com dois anos. E queriam novilhas”, diz Ida. Os importadores chineses decidiram que não comprariam mais qualquer produto, estabeleceram os padrões dos bovinos que desejavam e se dispuseram a pagar melhor por isso. Quem quis participar da negociação teve de se enquadrar.

As mudanças também chegaram por meio das inovações tecnológicas, que impactam de maneira distinta as diferentes gerações de pecuaristas. Foi por isso que as rodas de escuta do Vozes da Pecuária levaram em consideração os grupos específicos presentes nas fazendas. Ida conta que, em seu território, os diálogos foram divididos entre homens, mulheres e jovens. Em meio às diferenças de percepção, chamou atenção, segundo ela, a tranquilidade com que os mais novos encaram o avanço das exigências sobre a atividade. “O sarrafo está subindo e eles estão tranquilos com tudo isso. Na verdade, eles mesmos estão elevando o nível e se antecipando às exigências que estão chegando ao Brasil”, diz a pecuarista.

Agora, o Vozes da Pecuária parte para o diálogo com aqueles que poderão estar à frente das principais decisões da nação. A partir das ações territoriais e da identificação de embaixadores do projeto, será elaborado um documento a ser apresentado ao poder público. Além desse avanço, está nos planos a criação de um instituto com o objetivo de fortalecer a voz e a participação dos pecuaristas na construção do futuro da atividade, criando um espaço permanente de escuta e comunicação.

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