Por Amauri Segalla
Durante décadas, a agricultura brasileira foi associada a uma imagem difícil de desconstruir. Produzir mais significava avançar sobre novas áreas, expandir a fronteira agrícola e substituir a vegetação nativa por lavouras ou pastagens. Essa lógica ajudou a transformar o Brasil em uma potência agropecuária, mas também consolidou a percepção de que o crescimento da produção e a conservação das florestas eram objetivos inconciliáveis. Enquanto o agronegócio buscava atender à crescente demanda mundial por alimentos, ambientalistas alertavam para os impactos da expansão agrícola sobre o desmatamento, a biodiversidade e o clima. Durante muito tempo, parecia inevitável que uma agenda avançasse às custas da outra. Mas essa percepção começa a mudar. A combinação entre mudanças climáticas, novas exigências dos mercados internacionais, avanços tecnológicos e uma crescente valorização dos ativos ambientais inaugurou uma nova lógica de produção. Em vez de enxergar a floresta como um obstáculo à expansão dos negócios, um número cada vez maior de produtores passou a incorporá-la como parte da estratégia econômica da propriedade.

O produtor rural convive hoje com um cenário muito diferente daquele de 20 anos atrás. Secas prolongadas, chuvas irregulares, ondas de calor e eventos climáticos extremos passaram a afetar a produtividade de todas as cadeias agrícolas. Ao mesmo tempo, grandes tradings, bancos, fundos de investimento e compradores internacionais passaram a exigir garantias de que os produtos não estejam associados ao desmatamento. Nesse contexto, a sustentabilidade deixou de ocupar apenas os relatórios de ESG para se transformar em uma variável econômica. A questão passou a ser, sobretudo, como produzir mais utilizando melhor as terras disponíveis.
O Brasil possui dezenas de milhões de hectares de pastagens degradadas passíveis de recuperação, um patrimônio capaz de sustentar o crescimento da produção sem pressionar novos desmatamentos. Foi dessa necessidade que nasceu uma nova geração de tecnologias e práticas de manejo – Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), plantio direto, rotação de culturas, bioinsumos, manejo biológico e agricultura regenerativa, para citar apenas algumas – que compartilham um mesmo objetivo: aumentar a produtividade fortalecendo os processos naturais, e não substituindo-os.
O resultado é o surgimento de um modelo de produção em que a floresta deixa de ser apenas uma área protegida para se tornar parte da infraestrutura do próprio negócio. Árvores ajudam a regular a temperatura, conservar a umidade, proteger nascentes, reduzir a erosão, favorecer polinizadores, controlar naturalmente pragas e aumentar a capacidade do solo de armazenar carbono. Em outras palavras: elas prestam serviços ambientais que, cada vez mais, se convertem em ganhos econômicos mensuráveis. Não por acaso, estudos recentes indicam que o próprio agronegócio poderá se tornar um dos principais vetores da expansão das florestas brasileiras na próxima década, impulsionado pela recuperação de áreas degradadas, pelo avanço das florestas plantadas e pela bioeconomia.
Essa transformação está longe de alcançar todo o campo brasileiro. Há diferenças regionais, limitações de crédito, desafios tecnológicos e resistências culturais. Mas ela já indica uma mudança de direção – nos laboratórios das empresas de bioinsumos, nas áreas de integração lavoura-pecuária-floresta da Embrapa, nas fazendas que recuperam solos degradados, nas companhias que transformam biodiversidade em inovação e nas propriedades que descobrem que conservar também pode gerar receita. O agro brasileiro continua produzindo alimentos, fibras e energia em escala global. A diferença é que, para uma parcela crescente do setor, deixar a floresta em pé se tornou uma estratégia de negócios.
A nova era é resultado da convergência de fatores econômicos, tecnológicos e regulatórios que, juntos, alteraram os incentivos do setor. Há 20 anos, a principal variável para medir a competitividade de uma fazenda era a produtividade da lavoura. Hoje, essa equação se tornou mais complexa. A origem da produção, a saúde do solo, a emissão de carbono, o consumo de água, a conservação da biodiversidade e a capacidade de resistir a eventos climáticos extremos passaram a influenciar desde o custo do crédito até o acesso aos mercados internacionais. Grandes tradings, indústrias de alimentos e redes varejistas passaram a exigir cadeias produtivas rastreáveis e livres de desmatamento. Bancos e fundos de investimento incorporaram critérios socioambientais às análises de risco. Ao mesmo tempo, consumidores passaram a valorizar produtos associados à conservação da natureza.

O próprio conceito de produtividade começou a ser revisto. Durante muito tempo, a agricultura concentrou esforços em aumentar a produção por hectare por meio de mecanização, fertilizantes, melhoramento genético e defensivos agrícolas. Esse movimento foi decisivo para transformar o Brasil em uma potência agrícola, mas revelou seus limites diante da degradação dos solos e da crescente instabilidade climática. Mas agora a nova fronteira passa menos pela abertura de novas áreas e mais pela capacidade de recuperar a fertilidade das terras já ocupadas.
Esse movimento encontra um terreno fértil no Brasil. O País reúne uma das maiores disponibilidades de terras agrícolas do mundo e, ao mesmo tempo, possui milhões de hectares de pastagens com algum grau de degradação. Recuperar essas áreas passou a ser, do ponto de vista econômico, muito mais vantajoso do que avançar sobre vegetação nativa. A conversão de uma pastagem de baixa produtividade em um sistema agrícola moderno pode multiplicar a renda obtida por hectare, sem a necessidade de novos desmatamentos. É justamente sobre essa lógica que se apoia boa parte da agricultura regenerativa. Embora o termo tenha se tornado popular recentemente, seu princípio é simples: utilizar os processos naturais para aumentar a produtividade da propriedade. O produtor passa a tratar o solo como um organismo vivo, rico em microrganismos, matéria orgânica e nutrientes que precisam ser preservados. Quanto maior a atividade biológica do solo, maior tende a ser sua capacidade de armazenar água, reduzir a erosão e oferecer nutrientes para as culturas.
É nesse contexto que práticas como o plantio direto, a rotação de culturas, o uso de plantas de cobertura e os bioinsumos ganharam protagonismo. O plantio direto, adotado hoje em milhões de hectares no Brasil, reduz o revolvimento do solo e mantém uma camada permanente de palha sobre a superfície, protegendo-o da erosão e diminuindo a perda de umidade. A rotação de culturas quebra ciclos de pragas e doenças, melhora a fertilidade e reduz a dependência de fertilizantes sintéticos. Por sua vez, os bioinsumos – um dos segmentos que mais crescem no agronegócio brasileiro – utilizam microrganismos, fungos, bactérias e extratos naturais para promover o desenvolvimento das plantas e controlar pragas, reduzindo o uso de produtos químicos convencionais.
Outro exemplo é a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Desenvolvido e aperfeiçoado pela Embrapa ao longo das últimas décadas, o sistema combina diferentes atividades produtivas em uma mesma área. Em uma mesma fazenda, árvores, grãos e pecuária deixam de competir por espaço para atuar de forma complementar. As árvores oferecem sombra ao rebanho, reduzem o estresse térmico, melhoram o conforto animal e contribuem para a ciclagem de nutrientes. A pecuária, por sua vez, fornece matéria orgânica ao solo, enquanto a agricultura aproveita uma área já recuperada e com maior fertilidade.
O aspecto mais interessante dessa nova realidade é que ela não depende apenas da boa vontade dos produtores. Ela responde a uma lógica econômica bastante objetiva. Quanto maior a produtividade das áreas já abertas, menor a necessidade de expansão da fronteira agrícola. Quanto mais saudável o solo, menor o gasto com fertilizantes e corretivos. Quanto maior a biodiversidade presente na propriedade, maior tende a ser o controle biológico de pragas e a estabilidade da produção. A floresta deixa de representar uma área improdutiva para prestar serviços ambientais cujo valor começa, finalmente, a ser incorporado às contas da fazenda.
Empresas que antes concentravam seus investimentos apenas na expansão da produção passaram a direcionar recursos para o monitoramento da biodiversidade. Se existe uma companhia capaz de ilustrar essa mudança, ela está no nordeste do Pará. Em Tailândia, município localizado em uma das regiões de maior biodiversidade da Amazônia, a Agropalma produz óleo de palma em um modelo que desafia a antiga ideia de que agricultura tropical e conservação ambiental são atividades incompatíveis. A companhia cultiva cerca de 39 mil hectares de palma, mas mantém preservados 64 mil hectares de floresta nativa – ou cerca de 60% de toda a área sob sua gestão. Desde 2002, a empresa adota uma regra que resume sua estratégia: para cada hectare plantado, preserva 1,6 hectare de vegetação nativa. Trata-se de uma das maiores áreas privadas de conservação florestal mantidas por uma empresa agrícola na Amazônia. “Nosso maior aprendizado em décadas de atuação na Amazônia é que a floresta não impõe limites, mas oferece oportunidades”, diz Tulio Dias Brito, diretor de Sustentabilidade da Agropalma. “O verdadeiro desenvolvimento acontece quando transformamos a conservação em um motor de inovação e geração de valor para toda a sociedade.”
A preservação faz parte do próprio sistema produtivo. As áreas florestais reduzem o chamado efeito de borda, protegendo as plantações contra ventos fortes, incêndios e variações bruscas de temperatura. Também servem de abrigo para inúmeras espécies que desempenham funções essenciais ao equilíbrio ecológico da região. Essa lógica explica a estratégia de manejo adotada pela companhia. Em vez de depender exclusivamente de defensivos químicos, a Agropalma desenvolveu um sistema de controle biológico baseado no funcionamento dos próprios ecossistemas. Em laboratórios instalados na fazenda, são criados insetos predadores, que, depois de adultos, são liberados nas áreas cultivadas para controlar lagartas e outras pragas da palma. Entre as fileiras de palmeiras, espécies leguminosas enriquecem o solo com nitrogênio, enquanto plantas atraem insetos responsáveis pelo controle biológico. Cada palmeira é monitorada individualmente e as informações alimentam um sistema digital que permite intervenções rápidas sempre que surge alguma anomalia. O resultado é uma redução expressiva da dependência de defensivos sintéticos, acompanhada pela manutenção da produtividade e pela proteção da biodiversidade local.

Empresas tradicionalmente associadas à mineração, à indústria química, ao papel e celulose ou ao agronegócio passaram a disputar espaço em um mercado que utiliza ativos biológicos como matéria-prima para novos negócios. Um dos exemplos mais surpreendentes surgiu da parceria entre Vale, Suzano e Basf. As três companhias uniram esforços para desenvolver soluções baseadas na biodiversidade brasileira, acelerando pesquisas capazes de transformar compostos naturais em novos produtos industriais de alto valor agregado. O mesmo raciocínio ajuda a explicar a expansão acelerada das florestas plantadas no Centro-Oeste. Mato Grosso do Sul, por exemplo, consolidou-se como o principal polo brasileiro da indústria de celulose e deve ampliar em cerca de 40% sua base florestal até 2028, impulsionado pelos investimentos de empresas como Suzano, Arauco e Bracell. Ao contrário da imagem tradicional das monoculturas florestais, esse crescimento vem acompanhado da recuperação de áreas anteriormente degradadas, da formação de corredores ecológicos e de programas de conservação de remanescentes nativos.
A transformação alcança também as grandes tradings agrícolas. A Amaggi, uma das maiores produtoras de grãos do País, tornou-se referência internacional por incorporar critérios socioambientais à gestão da companhia. Além de programas de rastreabilidade e conservação de vegetação nativa, a empresa investe na recuperação de áreas degradadas, na agricultura de baixo carbono e em mecanismos de monitoramento capazes de acompanhar toda a cadeia de fornecimento. Não se trata apenas de atender exigências regulatórias. Para companhias que operam em dezenas de mercados internacionais, demonstrar desempenho ambiental consistente passou a representar vantagem competitiva e condição para acessar determinados compradores e fontes de financiamento. Essa estratégia vem rendendo reconhecimento internacional. Em 2026, a companhia alcançou a sexta posição no ranking global Forest 500. “Seguimos avançando com responsabilidade, planejamento e transparência, mitigando riscos socioambientais e atuando no desenvolvimento sustentável do agronegócio brasileiro”, afirma Juliana de Lavor Lopes, diretora de ESG da Amaggi.

A mesma lógica começa a chegar às propriedades rurais de médio porte. Um exemplo é o programa Reverte, desenvolvido pela Syngenta em parceria com o Itaú BBA. A iniciativa oferece assistência técnica, financiamento e tecnologias voltadas à recuperação de pastagens degradadas, permitindo que produtores ampliem sua produtividade sem abrir novas áreas. O sucesso da experiência foi tamanho que o programa começou a ser levado para outros países da América do Sul. “O Reverte é um dos programas mais ambiciosos do mundo para restaurar terras degradadas para a agricultura”, afirma Petra Laux, diretora de Sustentabilidade do Syngenta Group. O agronegócio brasileiro continuará sendo medido pelo tamanho de suas safras. Mas, cada vez mais, também será avaliado pela capacidade de preservar aquilo que torna essas safras possíveis.


