O agro que cultiva saúde emocional 

Empresas do agronegócio transformam a saúde mental em prioridade, investem na formação de líderes e ampliam programas de apoio emocional para colaboradores e suas famílias
Edição: 55
17 de agosto de 2026

Por Romualdo Venâncio

O dia 26 de maio, entrou em vigor a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego, que estabelece diretrizes para a gestão de saúde e segurança nas empresas. A principal mudança foi a inclusão formal dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), tornando obrigatória a avaliação de fatores relacionados à saúde mental, ao ambiente organizacional e às práticas de liderança. A atualização reflete uma realidade que há anos vem se impondo ao mercado de trabalho: o avanço dos transtornos mentais e comportamentais entre os trabalhadores brasileiros. Em certa medida, a norma chega para responder a um problema que já se tornou visível tanto nos indicadores de saúde pública quanto nas disputas trabalhistas. Apenas no ano passado, a Previdência Social concedeu 546 mil benefícios por afastamentos relacionados a transtornos mentais e comportamentais, um crescimento de 15% em relação aos 472 mil registrados no ano anterior. Entre os diagnósticos mais frequentes estão os transtornos de ansiedade e os episódios depressivos, que vêm figurando entre as principais causas de afastamento do trabalho nos últimos anos.

Inserra, CEO da Zilor: “É possível elevar os resultados se o cuidado com as pessoas vem junto”

Embora os transtornos mentais tenham origens diversas, especialistas concordam que o ambiente de trabalho pode exercer influência decisiva sobre eles, seja como fator de proteção, seja como elemento de agravamento. Nesse contexto, a atuação das lideranças ganha importância estratégica. Algumas empresas do agronegócio já vêm incorporando essa visão às suas práticas de gestão. É o caso da Zilor, companhia do setor sucroenergético que transformou a preocupação com a saúde mental em uma agenda de desenvolvimento de líderes. A empresa, que emprega mais de 4 mil colaboradores, passou a incluir o tema em seus programas de capacitação. Desde o ano passado, foram realizadas mais de 360 horas de treinamento envolvendo 75 gestores. O objetivo é ampliar a capacidade de identificar sinais de sofrimento emocional e fortalecer o cuidado com as equipes. “Nossas lideranças precisam estar atentas às pessoas. Muitas vezes, o sinal de que alguém está enfrentando dificuldades está ao nosso lado e passa despercebido. Ainda mais hoje, em um mundo cada vez mais virtual, em que as pessoas conversam menos entre si”, afirma o presidente da Zilor, Andre Inserra.

A capacitação das lideranças integra um programa mais amplo de promoção da saúde mental, lançado pela Zilor em 2023. A iniciativa reúne uma série de ações, entre elas atendimento psicológico disponível nas unidades e durante o expediente, a criação da Brigada Vida e Saúde, o desenvolvimento de ferramentas digitais de acompanhamento, o mapeamento de riscos psicossociais e campanhas de conscientização, como o Setembro Amarelo e o Janeiro Branco.

Desde que assumiu a presidência da companhia, no fim de 2024, Andre Inserra reforçou essa agenda. Com uma trajetória de 35 anos liderando equipes em dezenas de países e envolvendo milhares de profissionais, ele afirma que desempenho e bem-estar caminham juntos. Para o executivo, o engajamento das equipes depende diretamente da saúde emocional dos colaboradores. “É possível elevar o nível de resultados quando o cuidado com as pessoas vem junto”, afirma.

O acesso facilitado ao atendimento psicológico, aliado à garantia de confidencialidade, tem sido um dos fatores que mais contribuem para a adesão dos colaboradores ao programa. “É fundamental que as pessoas se sintam seguras para buscar ajuda. Por isso, as lideranças precisam compreender a importância desse processo e incentivar esse movimento”, afirma João Victor Hercos Juliano, médico da área de Saúde do Trabalho da Zilor. O programa oferece inicialmente até dez sessões de terapia, realizadas durante o expediente, com possibilidade de continuidade conforme a avaliação clínica de cada caso. O primeiro colaborador a participar da iniciativa foi o líder de Fertirrigação Luiz Carlos de Carvalho, que trabalha na empresa há 44 anos. Em 2020, ele enfrentou a perda de um filho de 34 anos, uma experiência que abalou profundamente sua vida pessoal e profissional. “Teve dia em que cheguei à empresa, conversei com o médico e fui orientado a voltar para casa”, lembra. Quando o projeto foi lançado, em 2023, Luiz Carlos foi convidado a integrar o programa e encontrou no acompanhamento psicológico um importante apoio para atravessar o período de luto.

Desde então, Carvalho tornou-se um dos principais defensores da iniciativa dentro da empresa e passou a ajudar a derrubar preconceitos que ainda cercam a saúde mental. Ele próprio admite que precisou rever suas convicções. “Antes, eu não entendia como uma pessoa não conseguia controlar o emocional”, recorda. A experiência do luto o fez enxergar uma realidade que até então lhe parecia distante. “Muita gente ainda acha que procurar ajuda psicológica é coisa de doido ou sinal de fraqueza. Como pode ser frescura se existem pessoas que chegam a tirar a própria vida por causa disso?”, questiona.

Hoje, ainda em acompanhamento terapêutico, Carvalho costuma recorrer a uma analogia simples para explicar o impacto do tratamento. “É como uma bola muito cheia dentro de uma caixa onde existe um sensor da dor. A bola bate o tempo todo nesse sensor. À medida que a bola vai esvaziando, ela encosta menos e a dor diminui.” É essa imagem que ele procura compartilhar com as equipes que lidera. Para quem passou boa parte da vida acreditando que os problemas de casa deveriam ficar fora do trabalho, a mudança de perspectiva foi profunda. Carvalho aprendeu, na prática, que as pessoas não conseguem separar suas emoções em compartimentos estanques e que cuidar da saúde mental é também uma forma de cuidar do desempenho, dos relacionamentos e da própria vida.

Essa visão também orienta as iniciativas do Grupo Jacto, que decidiu ampliar o alcance das ações voltadas à saúde mental para além dos colaboradores. A empresa parte do princípio de que bem-estar emocional e qualidade de vida não se limitam ao ambiente de trabalho e estão profundamente ligados às relações familiares. Por isso, seu plano de saúde permite que os funcionários incluam não apenas cônjuge e filhos como dependentes, mas também pais, mães, sogros e sogras. O cuidado se estende a outra frente: o Instituto de Desenvolvimento Familiar, criado para fortalecer vínculos e promover relações mais saudáveis dentro e fora de casa. A iniciativa oferece cursos e atividades voltados ao desenvolvimento pessoal e familiar e já acumula cerca de 3 mil matrículas.

Outra iniciativa é o Programa Saúde Integral, criado em 2019 para complementar a assistência oferecida pelo plano de saúde. A proposta reúne médicos, terapeutas, psicólogos e psiquiatras em uma abordagem multidisciplinar. A adesão é voluntária, mas há uma condição: toda a família deve participar. “A família é a origem de tudo na vida de uma pessoa. Quando alguém entra no programa, olhamos para o contexto completo”, afirma Wilson Branco, diretor de Recursos Humanos do Grupo Jacto. A partir de um diagnóstico inicial, é elaborado um plano de acompanhamento voltado às necessidades físicas, emocionais e comportamentais do núcleo familiar.

Os resultados aparecem em diferentes indicadores. Em 2025, os participantes do programa perderam, juntos, cerca de 1,5 tonelada. Segundo Roger Pampana Nicolau, diretor de Governança do grupo, muitas vezes questões emocionais estão por trás de problemas aparentemente distantes da saúde mental. “A obesidade é uma das principais razões pelas quais as pessoas procuram ajuda. Em muitos casos, ela está associada à ansiedade e a outros fatores emocionais. Quando estamos ansiosos, tendemos a buscar mais comida ou bebida porque elas proporcionam uma sensação imediata de prazer”, explica. Por isso, o acompanhamento envolve profissionais de diferentes especialidades, integrando saúde física, emocional e qualidade de vida. Com operações em cinco países e presença comercial em 22 mercados, a Jacto procura adaptar suas iniciativas às particularidades de cada região. “Temos uma estratégia global, mas respeitamos as características culturais, religiosas, jurídicas e regulatórias de cada localidade”, afirma Nicolau. As práticas são desenvolvidas no Brasil, país de origem do grupo, e ajustadas às realidades de cada operação.

Desafio semelhante enfrenta a AGCO, multinacional dona de marcas como Massey Ferguson, Valtra, Fendt e PTx. Presente em diferentes continentes e com forte atuação na América Latina, a companhia entende que o bem-estar dos colaboradores depende de um conjunto de fatores que vai muito além do ambiente físico de trabalho. “Procuramos oferecer benefícios que apoiem as pessoas de forma ampla. O plano de saúde, por exemplo, muitas vezes é determinante para garantir qualidade de vida e segurança”, afirma Angélica Kanashiro, vice-presidente de Recursos Humanos da AGCO para a América do Sul e Business Partner Global da Massey Ferguson.

Angélica Kanashiro, da AGCO: “Estamos trazendo uma abordagem mais humana”

A comunicação ocupa papel central nessa estratégia. O trabalho envolve tanto a capacitação das lideranças para identificar sinais de sofrimento emocional quanto ações voltadas a todos os colaboradores. Um exemplo é a Connection Week, evento interno que promove discussões sobre temas como saúde emocional, equilíbrio financeiro e qualidade de vida. “Estamos trazendo uma abordagem mais humana para essas conversas”, diz Angélica.

A relevância desse suporte tornou-se ainda mais evidente durante as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, em maio de 2024. Além de afetar a fábrica da companhia em Canoas, a tragédia atingiu diretamente colaboradores, familiares e comunidades inteiras. A resposta mobilizou uma ampla rede de apoio envolvendo parceiros, fornecedores e concessionárias da empresa. Ao mesmo tempo, a assistência emocional tornou-se prioridade. “As lideranças reforçaram a importância de buscar ajuda. Criamos grupos presenciais de apoio e promovemos várias rodadas de conversas. As pessoas compartilharam suas experiências, ajudaram umas às outras e encontraram forças para seguir em frente”, afirma Angélica. “Ali ficou muito clara a importância da resiliência e do suporte emocional.”

Hoje, 6% dos colaboradores da AGCO participam de programas voltados ao bem-estar psicológico. Entre eles, 86% relatam melhora em quadros como ansiedade e depressão. A meta é ampliar esse alcance nos próximos anos. “Tenho muito orgulho do que estamos construindo. Estamos passando por uma transformação cultural que acontece em todas as nossas operações”, diz a executiva.

Apesar dos avanços, ela acredita que ainda há barreiras importantes a superar, especialmente em regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos. O preconceito diminuiu, mas não desapareceu. E é justamente por isso que iniciativas de conscientização continuam sendo essenciais. Quanto mais natural for falar sobre saúde emocional, maiores serão as chances de prevenir o adoecimento, identificar sinais precoces de sofrimento e oferecer ajuda a quem precisa. A nova NR-1 transformou essa discussão em uma exigência regulatória. Para muitas empresas, porém, trata-se de algo maior: uma mudança de mentalidade que começa no trabalho, mas cujos efeitos se espalham por toda a sociedade.

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