Por Marco Damiani
Um gargalo histórico da infraestrutura que atende o agronegócio começa a ser superado graças a uma onda de investimentos bilionários viabilizada por contratos de longo prazo de concessão à iniciativa privada. Vitais para todo o ciclo do setor, do transporte de sementes ao escoamento da produção, as estradas brasileiras vêm ganhando em inovação, tecnologia e segurança. Após somarem compromissos de R$ 176 bilhões em investimentos em 16 leilões rodoviários no ano passado, os aportes devem alcançar R$ 350 bilhões nos próximos 15 anos, com o número de concessões chegando a 45 até o fim de 2026. A modernização das rodovias e suas perspectivas positivas interessam diretamente ao agronegócio.
Nada menos que 96% da produção de grãos do Brasil é escoada por caminhões, o que evidencia a permanente interação do agro com as estradas. Essa dependência vem crescendo. Segundo a Feagro-MT, o volume de cargas agropecuárias transportadas por rodovias aumentou 5,3% entre o ano passado e o anterior. Os vetores foram os fretes de soja, com alta de 25,7% em razão da safra recorde, e de fertilizantes, com crescimento acima de 5%. Com um volume calculado em 1,4 bilhão de toneladas, as cargas do agro demandaram 80 milhões de viagens rodoviárias em 2025, realizadas em veículos pesados guiados por 1 milhão de caminhoneiros registrados no Ministério dos Transportes. “O agro é o maior e mais estratégico setor econômico que temos como cliente”, diz Fábio Trujillo, diretor de Planejamento e Controle da EcoRodovias. “Os caminhões que, em grande maioria, transportam produtos agropecuários representam 60% do nosso tráfego.”

Com um portfólio que inclui a Rodovia dos Imigrantes, em São Paulo, principal corredor para cargas destinadas à exportação pelo maior porto do País, em Santos, a concessionária tem procurado dialogar com frequência com transportadores para implantar atualizações. “Na última etapa da viagem a Santos, o Pátio Regulador de Caminhões tem estrutura para receber os veículos pesados e organizar a ordem de chegada aos terminais portuários”, diz o executivo sobre a área de 443 mil metros quadrados, em Cubatão. “Essa estrutura surgiu de uma necessidade concreta dos transportadores de carga e da administração do porto. Filas antigas que duravam dias hoje não existem mais.”
Com dez rodovias sob concessão, entre elas a Rio-Minas, a Noroeste Paulista e a Cerrado, corredores importantes para o escoamento da produção agropecuária, a EcoRodovias administra 5,6 mil quilômetros de vias no País. Entre os projetos em estudo está a construção de uma terceira pista da Imigrantes, com 32 quilômetros de extensão, por meio de um aditivo aos contratos atuais. Segundo Trujillo, a nova estrutura poderia ser destinada exclusivamente ao transporte de cargas rumo ao Porto de Santos. Com um pacote de investimentos obrigatórios em seus contratos de concessão de R$ 50 bilhões, a companhia tem de aplicar em suas rodovias, nos próximos cinco anos, metade desse valor. As obras incluem duplicação de pistas, instalação de equipamentos para pesagem em movimento, com vistas a ganho no tempo das viagens, pavimentação com asfalto-borracha, que aproveita material de pneus usados, aumento de segurança operacional e instalação de pontos de descanso para caminhoneiros ao longo das rotas administradas.
No Paraná, a concessionária Motiva, antiga CCR, está destinando R$ 1 bilhão para a construção de um contorno urbano, com 42 quilômetros de extensão, em Ponta Grossa (PR). O município de 1,1 milhão de habitantes está no centro de rotas do agronegócio com destino ao norte e ao sul do País. O projeto tem nove dispositivos de interligação com outras vias e a operadora calcula que 7,5 mil caminhões deixarão de circular dentro da área urbana diariamente. “Vamos gerar economias de tempo que poderão ser contadas em horas nas viagens dos veículos pesados”, diz o gerente executivo de Estratégias de Operações da Motiva, Jorge Pereira. “Os 5 mil quilômetros de rodovias que administramos recebem atualmente metade do tráfego de caminhões do País, e um terço dos veículos de passeio.”
A Motiva opera 13 rodovias, que ligam 263 municípios, em sete estados brasileiros. A estrutura impressiona. São 3,3 mil câmeras de monitoramento, 2,1 mil telefones de emergência ao longo das vias, 187 guinchos e 147 veículos de resgate. “A pavimentação é projetada para aguentar cargas pesadas”, afirma o executivo. “Temos pessoal capacitado para socorrer caminhões em casos de quebras no percurso. Tudo para a segurança da utilização comercial e de passeio da estrada.”
O porta-voz da concessionária sustenta que as tarifas cobradas nas praças de pedágio hoje são mais bem compreendidas pelos empresários do campo e os operadores de transporte dos produtos agropecuários. “A modernização das estradas está sendo reconhecida pelos empresários rurais em seus negócios”, diz Pereira. “Em comparação ao custo de um pneu novo de caminhão, de cerca de R$ 3 mil, o valor de um trecho pedagiado, que pode ser de R$ 3, é marginal.”
Entre as principais rodovias do País, a BR-101 desempenha papel estratégico no abastecimento dos grandes centros urbanos e no acesso aos principais portos brasileiros. Com 4,8 mil quilômetros de extensão, ela percorre praticamente todo o litoral, ligando o Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul. Já a BR-163 se consolidou como o principal corredor do agronegócio, concentrando o transporte de soja, milho, algodão e carnes entre as regiões Centro-Oeste e Norte. Outra rota de destaque é a Rota da Celulose, formada por trechos das BRs 262 e 267. Com 870 quilômetros de extensão entre Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná, ela conecta a produção regional ao Porto de Paranaguá, o segundo maior do País em embarques agrícolas.
Vencedor de uma concorrência bilionária no ano passado, o consórcio Caminhos da Celulose, liderado pelo grupo XP, assumiu obrigações de R$ 6 bilhões em recuperação e melhorias em infraestrutura e R$ 3 bilhões para custos operacionais. Entre as obras em curso estão 146 quilômetros de duplicações e 38 contornos urbanos. Só após a entrega das obrigações iniciais a companhia poderá instalar e cobrar pedágio por meio do sistema eletrônico free flow. Até lá, contará com a receita das praças de pedágio tradicionais instaladas ao longo da rodovia.


O boom de investimentos se explica por ajustes na legislação de concessões feitas nos últimos anos, estabelecendo nos contratos obrigações detalhadas e maior equilíbrio comercial. Os modelos de financiamento incluem debêntures incentivadas e permitem que as receitas das operações sirvam como garantia para os empréstimos junto a instituições de financiamento. No ano passado, o BNDES financiou R$ 30 bilhões em operações rodoviárias, destravando R$ 110 bilhões em investimentos diretos no setor.


Nesse cenário, o principal contraponto ao avanço das grandes concessões rodoviárias está nas estradas vicinais, responsáveis por conectar a produção rural às vias principais. Do 1,8 milhão de quilômetros da malha rodoviária brasileira, apenas 215 mil são pavimentados, o que evidencia o enorme desafio ainda existente. No Centro-Oeste, essas rotas secundárias, muitas delas sem cobertura asfáltica, foram classificadas pelos usuários como regulares, ruins ou péssimas em pesquisa recente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT). “As más condições das estradas vicinais representam prejuízo para o produtor rural”, afirma Fernanda Rezende, diretora executiva da CNT. “A fluidez é limitada, o desgaste de pneus fica maior, o tempo de transporte aumenta e, como resultado final, a competitividade das regiões com pior infraestrutura rodoviária fica comprometida.”
A qualidade do pavimento é o principal problema. Apenas 4,4% da malha rodoviária brasileira apresenta piso em condições perfeitas, enquanto mais da metade está desgastada e quase um terço possui trincas e remendos. Não por acaso, somente 31,8% das rodovias federais pavimentadas receberam classificação boa ou ótima na pesquisa da CNT. Os reflexos dessa realidade são sentidos diariamente pelo setor produtivo. Em Santa Catarina, por exemplo, o diretor executivo do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados, Jorge Luiz de Lima, critica o atraso no plano de concessões rodoviárias do estado. Segundo ele, o péssimo estado de conservação da BR-280, utilizada por gigantes da proteína animal como JBS, BRF e Aurora para acessar o Porto de São Francisco do Sul, está ligado à demora na realização das obras necessárias para que a rodovia possa ser leiloada. “O cenário é triste, os buracos estão por toda parte. O que está salvando o transporte regional do agronegócio são as estradas estaduais”, afirma. Lima lembra que o problema afeta um dos estados mais diversificados do País na produção agropecuária, com posições de liderança em aves, suínos, arroz, algodão, fumo e outras culturas.
Apesar dos avanços nas rodovias, especialistas alertam que a competitividade futura do agronegócio dependerá de uma expansão mais acelerada da infraestrutura ferroviária e hidroviária. Para o professor Thiago Guilherme Péra, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, o crescimento desses modais precisa superar o ritmo de expansão da produção agrícola e das exportações. “Por mais que as estradas ganhem melhorias, é fundamental para o agronegócio que o País apresente crescimento de infraestrutura ferroviária e hidroviária em ritmo superior ao crescimento da produção agrícola e exportação”, afirma. “Caso contrário, dentro de dez anos o agronegócio poderá estar limitado pela sua capacidade de infraestrutura logística desequilibrada.” Nesse cenário, as concessionárias rodoviárias pedem passagem para liderar a modernização da infraestrutura de transporte do País.
