A nova era do etanol

Da cana ao milho, do E2G ao biometano, a indústria brasileira amplia rotas produtivas, transforma resíduos em energia e se prepara para ocupar novos espaços na transição para uma economia de baixo carbono
26 de outubro de 2026

Lucas Bresser

Durante boa parte de sua história, o etanol brasileiro foi associado quase exclusivamente à cana-de-açúcar e ao abastecimento de automóveis. Essa imagem ainda corresponde a uma parcela importante da realidade, mas já não descreve a indústria que emerge no País. Nas usinas mais modernas, cana e milho dividem espaço com palha, bagaço, vinhaça, torta de filtro, sorgo e outros resíduos agrícolas. O combustível continua no centro do negócio, porém passa a integrar uma plataforma mais ampla de energia renovável, nutrição animal e insumos industriais.

A mudança ocorre em escala relevante. Dados reunidos pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que o Brasil produziu 36,2 bilhões de litros de etanol em 2025, dos quais 26,7 bilhões vieram da cana e 9,5 bilhões do milho. Ao final daquele ano, o País tinha 330 usinas sucroenergéticas em operação, com capacidade para produzir 48,3 bilhões de litros. No segmento de milho e cereais, eram 37 unidades, com capacidade de 12,4 bilhões de litros.
Essa transformação é particularmente visível no milho. Em pouco mais de uma década, o combustível produzido a partir do cereal deixou de ocupar uma faixa marginal para responder por aproximadamente um quarto da oferta nacional. O avanço acompanha o crescimento da segunda safra de milho e aproxima a industrialização das regiões produtoras. Na temporada 2025/26, a colheita brasileira das três safras do cereal foi estimada em 141,7 milhões de toneladas, com 109,4 milhões provenientes da segunda safra.

A cana, porém, não perde importância. Ela segue como base do sistema brasileiro e reúne vantagens construídas ao longo de cinco décadas, como escala, conhecimento agronômico, infraestrutura industrial e ampla utilização de biomassa renovável. O que mudou é que ela deixou de ser a única rota capaz de sustentar o crescimento da oferta. Em nota, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma que a complementaridade entre matérias-primas é uma das principais diferenças em relação ao setor de dez anos atrás. A cana permanece fundamental, enquanto o milho estende a produção ao longo do ano e fortalece novas regiões.

Na unidade da Inpasa em Balsas, babaçu e caroços de açaí são aproveitados na geração de energia; abaixo, operação da Atvos
Renato Teixeira, diretor da Inpasa: “Nossas biorrefinarias aproveitam 100% dos insumos”

O resultado é um sistema menos dependente de uma única safra, região ou fonte de receita. Em uma planta integrada, a cana pode fornecer etanol, açúcar e energia durante a safra, enquanto o milho mantém parte da estrutura operando na entressafra. O bagaço gera vapor e eletricidade; a vinhaça pode ser convertida em biogás e biometano; e o processamento do milho entrega DDG e DDGS para nutrição animal, e óleo vegetal para biodiesel, diesel verde ou combustível sustentável de aviação.

A integração entre cana, milho e outras matérias-primas amplia a produção e reduz a dependência de uma única safra

É esse o conceito por trás do Complexo de Transição Energética que a Atvos implanta na Unidade Santa Luzia, em Nova Alvorada do Sul (MS). O projeto reúne etanol de cana e milho, bioeletricidade e biometano. A primeira planta de milho da companhia terá capacidade para processar 642 mil toneladas do grão por ano e produzir 273 milhões de litros de etanol, 183 mil toneladas de DDG e 13 mil toneladas de óleo. Integrada à estrutura canavieira existente, utilizará energia renovável gerada com a biomassa da cana. 

Na mesma unidade, a Atvos está concluindo uma fábrica de biometano que recebeu investimento de R$ 350 milhões e terá capacidade de produzir 28 milhões de metros cúbicos. O gás será obtido da vinhaça e da torta de filtro, materiais originados no processamento da cana. Parte da produção deverá abastecer veículos da companhia, que pretende converter gradualmente uma frota de cerca de 500 unidades nas regiões atendidas pelo projeto. A substituição de até 40% do diesel utilizado nas operações industriais no médio prazo poderá evitar entre 40 mil e 50 mil toneladas de CO? equivalente por ano.

“A cana-de-açúcar continua sendo a base da companhia, e o milho e o biometano passam a complementar essa operação, permitindo aproveitar melhor a biomassa, a infraestrutura e os ativos industriais já existentes”, afirma Wilson Lucena, vice-presidente de Operações da Atvos. A integração também amplia a utilização das instalações ao longo do ano. “A entrada no etanol de milho complementa a produção a partir da cana, amplia a flexibilidade operacional e permite maior utilização dos ativos industriais”, diz o executivo. O modelo ainda aproxima as cadeias de suprimento, já que parte dos fornecedores de cana também produz grãos.

No milho, a expansão está associada ao crescimento de biorrefinarias concebidas desde o início para obter diversas receitas de uma mesma matéria-prima. A Inpasa, uma das protagonistas desse movimento, investiu cerca de R$ 15 bilhões nos cinco anos encerrados em 2025. Naquele ano, processou 11,6 milhões de toneladas de grãos no Brasil, aumento de 45% sobre 2024, e produziu 5,4 bilhões de litros de etanol. O processo também entregou 3,2 milhões de toneladas de DDGS e 284,9 mil toneladas de óleo vegetal bruto. 

A expansão inclui novos polos. Em abril de 2026, a Inpasa iniciou as operações da biorrefinaria de Luís Eduardo Magalhães (BA), após investimento de R$ 1,3 bilhão. A capacidade instalada é de 470 milhões de litros anuais. Em Rio Verde (GO), um projeto de R$ 2,5 bilhões foi dimensionado para produzir 1 bilhão de litros. Outro complexo, em Rondonópolis (MT), recebeu investimento de R$ 2,8 bilhões e deverá processar 2 milhões de toneladas de grãos por ano, produzindo 1 bilhão de litros de etanol, 490 mil toneladas de DDGS e 465 GWh de eletricidade renovável.

“Nosso objetivo primordial é expandir a capacidade de processamento de grãos e maximizar a eficiência de nossas biorrefinarias”, afirma Renato Teixeira dos Santos, diretor de Marketing, Comunicação Corporativa e Impacto Social da Inpasa. A escala, contudo, é apenas uma parte da equação. “Projetamos nossas biorrefinarias para aproveitar 100% dos insumos e, atualmente, temos flexibilidade para processar o sorgo como matéria-prima complementar ao milho, mitigando riscos decorrentes de variações sazonais de colheita.” 

A Inpasa também adotou caldeiras multicombustíveis capazes de utilizar resíduos disponíveis em cada região. Em Balsas (MA), caroço de açaí e babaçu ajudam a gerar energia. Em Luís Eduardo Magalhães (BA), o capim-braquiária é uma das fontes de biomassa. Um sistema automatizado de armazenamento e movimentação evita, segundo a companhia, a perda anual de aproximadamente 117 mil toneladas de biomassa por decomposição. Em 2025, suas unidades geraram 2.080 GWh de eletricidade a partir de biomassa, garantindo autossuficiência industrial e exportação de excedentes para o Sistema Interligado Nacional. 

A digitalização também ocupa papel central. A Atvos aplica inteligência artificial, drones e mapas digitais em cerca de 300 mil hectares e testa tratores autônomos, que, segundo resultados preliminares, podem elevar em até 20% a produtividade dos equipamentos e reduzir em até 10% o consumo de diesel. Colhedoras de duas linhas dobram o rendimento diário, reduzem a compactação do solo em até 60% e diminuem o consumo de combustível em até 30%.

O etanol de segunda geração aproveita o bagaço e a palha da cana para elevar a produção sem ampliar a área cultivada
Wilson Lucena, VP da Atvos: integração entre cana, milho e biometano é mais eficiente

Já a Inpasa instalou sistemas de inteligência artificial na moagem de todas as suas unidades. Câmeras e visão computacional identificam a passagem de grãos inteiros e apontam falhas nos moinhos antes que provoquem perdas maiores. A companhia afirma ter reduzido em 59%, entre 2021 e 2025, a intensidade das emissões de Escopos 1 e 2 por tonelada de milho processado.
Na cana, a expansão da oferta passa pelo etanol de segunda geração, o E2G. A tecnologia utiliza a celulose presente no bagaço e na palha, materiais que já chegam à usina para produzir mais combustível sem a expansão proporcional da área plantada. É uma rota tecnicamente mais complexa que a convencional e ainda enfrenta desafios de custo e estabilidade operacional, mas oferece uma alternativa para elevar a produtividade por hectare.

Em 2024, a Raízen inaugurou no Parque de Bioenergia Bonfim, em Guariba SP, sua segunda planta comercial de E2G. O investimento foi de R$ 1,2 bilhão e a capacidade nominal chega a 82 milhões de litros por ano. Somada à unidade Costa Pinto, a estrutura elevou a capacidade da companhia para 112 milhões de litros anuais. Segundo a empresa, o reaproveitamento da biomassa permite aumentar em até 50% a produção de etanol sem adicionar área de cana.

Os números mostram o potencial, mas não autorizam tratar o E2G como tecnologia já disseminada. A rota ainda representa uma fração pequena da produção e depende da consolidação do desempenho industrial, da oferta de enzimas e de contratos que remunerem seu diferencial ambiental. No curto prazo, seu papel é complementar. Cana e milho convencionais continuarão respondendo pela maior parte da expansão, enquanto o etanol celulósico avança na curva de aprendizado.

O mesmo raciocínio vale para a bioeletricidade e o biometano. O bagaço e a palha da cana sustentam uma geração relevante de energia, particularmente valiosa no período seco, quando os reservatórios hidrelétricos ficam mais pressionados. “Além de renovável, é uma fonte firme e não intermitente, o que contribui para a segurança e a estabilidade do sistema elétrico brasileiro”, afirma Zilmar Souza, gerente de Bioeletricidade da Unica.

Essa circularidade também altera a economia dos projetos. Uma unidade que vende apenas açúcar ou etanol permanece exposta a fatores como petróleo, câmbio, clima e preços internacionais. Uma biorrefinaria acessa receitas associadas a combustíveis, proteína animal, óleo vegetal, eletricidade, gás renovável e créditos ambientais. “A pressão de margem foi o gatilho. A mudança estrutural é o resultado”, diz Luis Otavio Fonseca, líder de Supply Chain & Engineering para clientes de recursos naturais, manufatura, agronegócio e bens de consumo da consultoria Accenture na América Latina. Para ele, “uma usina que antes era avaliada como exposição a commodity passa a ser avaliada como portfólio de receitas com diferentes perfis de risco e correlação”. 

A política pública acrescenta previsibilidade e demanda. Desde 1º de agosto de 2025, a gasolina vendida no Brasil passou a conter 30% de etanol anidro (E30). Um ano depois, em caráter temporário, entrou em vigor a gasolina E32, pelo prazo de 180 dias prorrogáveis por igual período. A Lei do Combustível do Futuro permite que o percentual chegue a 35%, condicionado a avaliações técnicas. A mesma lei abre pontes com segmentos de difícil eletrificação, como aviação e transporte marítimo. Uma das rotas possíveis para o combustível sustentável de aviação é a conversão do etanol em SAF, conhecida como alcohol-to-jet. Óleo de milho e outros insumos agrícolas também podem abastecer rotas de SAF e diesel verde.

Unidade da Inpasa em Sinop: o processamento de grãos resulta em etanol, óleo vegetal e ddgs, ingrediente destinado à nutrição animal

A Inpasa já posiciona seu óleo de milho como insumo para biocombustíveis avançados e informa ter fornecido matéria-prima para a primeira produção de SAF da América Latina. Em 2025, abriu escritórios em Genebra e Roterdã para se aproximar dos mercados europeus. A iniciativa mostra como o setor começa a disputar mercados nos quais intensidade de carbono, origem e comprovação de sustentabilidade influenciam o preço.

O Brasil entra nessa corrida com vantagens reais. É o segundo maior produtor mundial de etanol, possui ampla disponibilidade de biomassa, uma indústria agrícola de escala e experiência em motores flex, mistura compulsória, cogeração e certificação. Mas liderança não se sustenta apenas com matéria-prima. O avanço exigirá infraestrutura, segurança jurídica, previsibilidade tributária, rastreabilidade e regras reconhecidas internacionalmente.

O cenário, portanto, é promissor. O milho cresce rapidamente, mas precisa preservar sua vantagem de carbono. O E2G aumenta a produção por hectare, porém ainda deve provar seu desempenho econômico em maior número de plantas. O biometano transforma resíduos em combustível, mas requer contratos e infraestrutura. O SAF abre um mercado de maior valor, embora dependa de regras internacionais e redução de custos.

O que une essas rotas é a tentativa de extrair mais energia renovável de uma base agrícola já existente. A próxima etapa da indústria brasileira de etanol não será definida por uma única matéria-prima vencedora, e sim pela capacidade de combiná-las. Essa será a medida da nova era do setor: não apenas quantos litros serão produzidos, mas quanta energia, alimento e valor industrial poderão ser obtidos de cada hectare, tonelada de biomassa e ativo instalado.

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