A nova era dos rodeios

O que era apenas uma atração das festas de peão virou um esporte profissional com transmissão nacional, premiações milionárias e projeção internacional
Edição: 55
10 de agosto de 2026

Por Thiago Galante

As arquibancadas começam a encher à medida que a noite cai. Homens e mulheres de chapéu, botas de couro e fivelas dividem espaço com jovens, famílias inteiras e crianças vestidas à moda country. Dos alto-falantes saem clássicos do sertanejo. Quando o locutor assume o microfone, a festa muda de ritmo. Ele apresenta competidores, provoca a torcida e transforma cada prova em um espetáculo. É o cenário dos rodeios, ou festas de peão, como ainda são conhecidos em boa parte do País. Presentes em cerca de 40% dos municípios brasileiros, segundo a Confederação Nacional de Rodeio (CNAR), esses eventos movimentam multidões e preservam tradições do interior. No ano passado, cerca de 2 mil festas foram realizadas no Brasil, principalmente em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Ao longo da noite, o público acompanha provas como os três tambores, o laço e o tradicional cutiano. Mas todos sabem qual é o momento mais aguardado. Quando os refletores se voltam para os bretes e um touro entra na arena, a expectativa cresce. É a hora da montaria em touros, modalidade que se tornou a principal atração dos rodeios brasileiros e que, nas últimas décadas, deixou de ser apenas entretenimento para se transformar em um esporte profissional, com atletas, rankings, transmissões de televisão e premiações milionárias. Hoje é difícil imaginar um rodeio sem montaria em touros. Mas nem sempre foi assim. Até a década de 1970, a principal modalidade era o cutiano, tradicional montaria em cavalos criada no Brasil. A mudança começou no início dos anos 1980, quando as regras da montaria em touros foram trazidas dos Estados Unidos para o interior paulista por Sebastião Procópio, o Tião. “Além de apresentar a nova modalidade, o Tião também montava muito bem, criando assim, junto com ele, a primeira geração de atletas montadores em touros”, disse Flávio Junqueira, ex-competidor dessa geração e hoje um dos criadores de touros de pulo mais conhecidos do País, em entrevista ao podcast Agro360.

O desafio da prova é difícil de executar. O competidor precisa permanecer sobre o lombo do animal durante oito segundos utilizando apenas uma das mãos presa à corda americana. Nesse período, juízes avaliam o desempenho do atleta e do touro. A nota final, que pode chegar a 100 pontos, resulta da soma das duas avaliações. A intensidade da disputa e o apelo visual da modalidade fizeram com que ela assumisse gradualmente o protagonismo dos rodeios brasileiros. Em pouco mais de quatro décadas, a montaria em touros deixou de ser uma novidade importada para se tornar o principal produto esportivo das festas de peão.

Dois momentos foram decisivos para essa transformação. O primeiro ocorreu em 2002, com a promulgação da Lei 10.519, que estabeleceu regras para a realização de rodeios, incluindo normas voltadas à segurança dos participantes e à proteção dos animais. O segundo veio em 2006, com a chegada ao Brasil da Professional Bull Riders (PBR), principal organização de montaria em touros do mundo. A operação brasileira foi criada pela família Moraes, um ano após a entidade norte-americana iniciar sua expansão internacional. Com sede em Fort Worth, no Texas, a PBR está presente em cinco países – Estados Unidos, Brasil, Canadá, México e Austrália – e integra o TKO Group Holdings, conglomerado que também controla marcas como UFC e WWE.

Na temporada 2025/26, a PBR promoverá 30 etapas pelo País, além da final nacional, tradicionalmente realizada em Barretos (SP). Aproximadamente 150 atletas e 300 touros, pertencentes a cerca de 40 tropeiros, participam das competições. Ao final da disputa, apenas um montador e um animal são coroados campeões nacionais. Neste ano, a premiação total ultrapassará R$ 4 milhões. O destaque é o PBR Grand Rodeo, em Sorriso (MT), que distribuirá um prêmio recorde de R$ 500 mil. A profissionalização também levou a modalidade à televisão.

Nesta temporada, o canal BandSports transmite ao vivo 25 etapas do circuito e exibe semanalmente um programa dedicado aos bastidores e resultados do esporte.
Na avaliação de Flávia Moraes, diretoraexecutiva da PBR Brasil, a exposição amplia o alcance da modalidade. “Além de todo o aspecto cultural que existe em torno da montaria em touros, estar em um canal esportivo reforça o aspecto de competição que a gente tem”, afirma. Se os montadores são os rostos mais conhecidos da modalidade, os touros são igualmente decisivos para o espetáculo. “O touro de performance é um animal diferente, ele tem uma habilidade única para pular”, diz César Fabiano Vilela, médico-veterinário especialista em animais de performance. Segundo ele, a identificação desse potencial ocorre ainda na juventude do animal. A partir daí, os criadores, conhecidos como tropeiros, iniciam um processo de treinamento e preparação física específico.

Um dos pilares da expansão da modalidade é o investimento em protocolos de bem-estar animal. Segundo Vilela, o acompanhamento veterinário começa meses antes das competições. A equipe técnica participa do planejamento das estruturas, acompanha a logística de transporte e define as condições adequadas para a permanência dos animais. “Nós praticamos um limite diário de oito horas de transporte no máximo”, diz. “Passando disso, é obrigatório parar, descarregar os animais, alimentá-los, dar um tempo para eles descansarem e depois seguir viagem.” Durante os eventos, os touros não permanecem nos recintos dos rodeios. Eles são alojados em fazendas próximas, em condições semelhantes às encontradas em suas propriedades de origem. Ao chegarem às competições, todos os animais passam por inspeções individuais. Qualquer alteração física pode resultar na retirada imediata do touro da disputa. O protocolo prevê ainda avaliações diárias e inspeções após cada apresentação.

A expansão dos rodeios profissionais transformou o Brasil em uma das maiores potências mundiais da modalidade. O País conquistou 15 títulos da PBR norte-americana desde a criação do campeonato, em 1994. Entre os principais nomes da história estão Adriano Moraes, Silvano Alves e José Vitor Leme, todos tricampeões mundiais. Para Adriano Moraes, presidente da PBR Brasil, o esporte vai além da competição e representa uma oportunidade concreta de ascensão social para jovens do meio rural. “O que o futebol faz para a molecada da cidade, o esporte de montar em touros faz para a molecada das fazendas do interior do Brasil”, conclui.

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