Lucas Bresser e Giovanna Arruda
Chamar Sorriso, no Médio-Norte de Mato Grosso, de capital brasileira do agro já deixou de ser figura de linguagem. O município consolidou esse posto nos números. Segundo a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) do IBGE, Sorriso registrou em 2024 o maior valor de produção agrícola do País pelo sexto ano consecutivo, com R$ 7,2 bilhões, equivalente a 0,9% de todo o valor da produção agrícola nacional. Os números relativos a 2025, embora ainda não divulgados, tendem a confirmar essa posição. Mais do que um título simbólico, trata-se de um indicador objetivo do peso que a cidade alcançou no mapa do agronegócio brasileiro, num cenário em que Mato Grosso permaneceu como líder nacional em valor de produção agrícola, mesmo em um ano de retração de preços e de efeitos climáticos adversos sobre parte das lavouras.
O que faz de Sorriso um caso emblemático é a capacidade de transformar escala produtiva em ecossistema econômico. A cidade aparece de forma recorrente entre os maiores polos brasileiros de soja, milho, algodão e feijão. Em 2024, foi o primeiro município do Brasil em valor de produção de milho, com R$ 2,4 bilhões, o terceiro em soja, com R$ 3,3 bilhões, o sexto em algodão, com R$ 1,3 bilhão, e o quarto em feijão, com R$ 195,7 milhões. No ano anterior, pela PAM 2023, o município já havia movimentado R$ 8,3 bilhões, com R$ 5 bilhões em soja, R$ 2,1 bilhões em milho, R$ 1 bilhão em algodão e R$ 185,8 milhões em feijão, mostrando que a força local não depende de uma única cultura, mas de um arranjo robusto de produção e diversificação.
A soja e o milho, entretanto, são a espinha dorsal dessa estrutura. Em 2023, Sorriso foi o maior produtor municipal de soja do Brasil, com 2,3 milhões de toneladas, segundo o IBGE. O milho, por sua vez, tornou-se peça decisiva tanto na formação de renda quanto no adensamento industrial da cidade. Em 2024, Sorriso também voltou a liderar o País em volume produzido desse grão, com 3,7 milhões de toneladas, reforçando um padrão que explica por que o município é visto hoje como um território de alta eficiência logística, tecnológica e empresarial.
“Sorriso tem o título de capital do agronegócio pela extensão territorial de área consolidada, em torno de 602 mil hectares, e pela natureza muito pródiga e bastante estável ano a ano, com poucas variações, o que permite toda essa produção”, diz o secretário de Agricultura e Meio Ambiente do município mato-grossense, Clovis Picolo Filho. “O município já chegou a crescer 18% ao ano e hoje mantém um ritmo de cerca de 8%, impulsionado principalmente pelo agro.” Segundo o secretário, o crescimento é sustentado por uma demanda intensa por tecnologia nas fazendas e pela expansão de indústrias, comércio e serviços especializados. “O produtor local é altamente aberto à inovação e à busca constante por produtividade, o que exige uma rede ampla e qualificada de serviços.”


O município conta ainda com outro importante diferencial competitivo: uma posição logística estratégica, no entroncamento da BR-163 com a MT-242, além da presença do Aeroporto Regional Adolino Bedin, que atualmente recebe voos comerciais regulares da Azul. Ou seja: Sorriso reúne algo raro mesmo para os padrões do Centro-Oeste – terra disponível, escala, conectividade e uma base empresarial organizada para produzir, armazenar, processar e embarcar.
Essa evolução foi acompanhada pelo avanço de práticas agrícolas voltadas à intensificação sustentável, impulsionadas também pelas exigências crescentes de mercados internacionais e pela necessidade de ganhos contínuos de produtividade. Segundo Cristina Delicato, coordenadora executiva do Clube Amigos da Terra (CAT) Sorriso, organização sem fins lucrativos criada em 2002 com o objetivo de promover o agronegócio sustentável, a própria transformação agronômica da região ajuda a explicar esse desempenho. “Os solos do Cerrado brasileiro, predominantes na região de Sorriso, apresentavam limitações naturais, como elevada acidez e baixa disponibilidade de nutrientes”, explica. “A transformação dessas áreas em regiões altamente produtivas foi resultado do investimento em pesquisa científica, especialmente conduzida pela Embrapa, aliado à capacidade de inovação e adoção de tecnologias pelos produtores rurais.” Delicato diz que práticas como correção da acidez do solo, adubação equilibrada, plantio direto, rotação de culturas e uso de técnicas conservacionistas permitiram melhorar a fertilidade e a estrutura do solo, tornando a agricultura eficiente e sustentável ao longo das décadas.
O caso de Sorriso também chama a atenção porque a riqueza produzida pelo agronegócio deixou de ficar restrita ao campo. O município passou a estruturar, nos últimos anos, uma cadeia agroindustrial cada vez mais sofisticada, capaz de agregar valor localmente à produção de grãos. O milho é talvez o maior exemplo dessa transformação. Tradicionalmente associado à segunda safra, o cereal passou a abastecer uma nova indústria de etanol de milho que alterou profundamente a dinâmica econômica regional. A FS, referência nacional no segmento, mantém operação em Sorriso com capacidade industrial integrada para produção de etanol, energia elétrica e DDG – coproduto utilizado na nutrição animal. Somadas, as plantas da empresa em Mato Grosso processam mais de 5 milhões de toneladas de milho por ano e posicionaram o estado como principal polo brasileiro de etanol de milho.


“A força da produção agrícola criou as condições para o avanço da agroindústria, que hoje está em plena expansão no município”, diz Clovis Picolo Filho. “Sorriso conta com estrutura de processamento relevante, incluindo esmagadora de soja, nichos como soja convencional e uma indústria de etanol de milho que já alcança produção próxima de 1 bilhão de litros por ano.”
O crescimento da oferta de farelo, DDG e outros coprodutos também estimula cadeias como suinocultura, avicultura e bovinocultura intensiva. Dados do Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (Indea) mostram que Sorriso já ocupa posição de destaque nessas frentes: no levantamento de 2024, o município aparece com 6,1 milhões de cabeças de aves comerciais, atrás apenas de Nova Mutum no estado, e com 258 mil suínos em estabelecimentos tecnificados, terceira maior marca de Mato Grosso. Esse é um sinal claro de complementaridade econômica: a mesma agricultura que gera grão, óleo e etanol passa a abastecer cadeias de proteína animal, criando um círculo de agregação de valor que fortalece renda, emprego e arrecadação.
Outro exemplo concreto de adensamento industrial é a presença da Caramuru Alimentos. Em sua unidade de Sorriso, a empresa processa cerca de 1.200 toneladas de soja por dia, produzindo lecitina de soja, proteína concentrada de soja (SPC), glicerina refinada e biodiesel. Em números, isso significa até 103 milhões de litros de biodiesel por ano, promovendo uma cadeia industrial que amplia a captura de valor dentro do próprio município. Isso mostra que Sorriso foi deixando de ser apenas uma plataforma de produção agrícola para se afirmar como plataforma agroindustrial. Esse movimento – do grão para o esmagamento, do milho para o etanol, do farelo para a ração, da commodity para o produto processado – ajuda a explicar boa parte da riqueza que hoje circula na economia urbana local.
As exportações se somam ao cenário para traduzir essa relevância. Em 2024, Sorriso ultrapassou US$ 2 bilhões em embarques internacionais e manteve a China como principal destino das vendas externas, especialmente de soja e milho. O município ainda ampliou relações comerciais com países do Oriente Médio, Ásia e América Latina, reforçando o caráter globalizado da produção local.
A força econômica teve reflexos evidentes sobre o desenvolvimento urbano. O crescimento da renda impulsionou a expansão imobiliária, a criação de novos bairros, a abertura de empresas e a ampliação da rede de serviços. Hoje, segundo estimativas da prefeitura, o município conta com cerca de 140 mil habitantes e é um dos que registram crescimento mais acelerado no Centro-Oeste. “Saúde, educação e demais serviços se desenvolveram para atender às pessoas que vieram investir, trabalhar e crescer dentro do ecossistema do agronegócio”, diz Picolo. A transformação é visível nas ruas. Hospitais privados, escolas, condomínios residenciais, centros empresariais e um comércio aquecido redesenharam a paisagem urbana da cidade ao longo da última década. O agro financiou máquinas e silos, mas também infraestrutura urbana, serviços médicos, educação e novos padrões de consumo.

Naturalmente, a prosperidade tem reflexos nos indicadores de desenvolvimento humano, refletindo o impacto direto do agronegócio sobre renda e qualidade de vida. O município apresenta IDHM de 0,744 – considerado alto –, sustentado por avanços em renda, educação e longevidade, além de um PIB per capita superior a R$ 124 mil, um dos mais elevados do Centro-Oeste. No campo educacional, Sorriso apresenta taxa de escolarização de 98,85% entre crianças de 6 a 14 anos e IDEB de 6,3 nos anos iniciais, acima das médias estadual e nacional, além de investimentos públicos acima do mínimo legal, com cerca de 27% da arrecadação destinados à educação.
Também nesse terreno, o agro extrapola os limites da fazenda. Por meio do Programa Sorriso Vivo, o CAT Sorriso desenvolve desde 2005 o projeto Agro na Escola, com palestras, materiais didáticos e concursos culturais em escolas urbanas e rurais. “Ao longo desses mais de 20 anos, milhares de crianças e adolescentes tiveram a oportunidade de compreender de onde vêm os alimentos que chegam às suas mesas, conhecer a realidade do produtor rural e entender que agricultura e meio ambiente podem caminhar juntos”, diz Cristina. “O projeto contribui para a formação de cidadãos mais conscientes e ajuda a reduzir a distância entre o campo e a cidade.”
Na área social e de infraestrutura, os indicadores revelam tanto avanços quanto desafios típicos de cidades que crescem rapidamente. O município investe significativamente em saúde – cerca de 25,8% da receita, bem acima do mínimo constitucional – e apresenta expectativa de vida de 75 anos, embora enfrente pressão sobre o sistema público, evidenciada pelo número de atendimentos acima da população residente. Em saneamento, Sorriso já alcança níveis elevados de cobertura de água (94,6%) e coleta de resíduos (95,1%), mas ainda possui baixa cobertura de coleta de esgoto. Esse contraste ilustra um padrão de desenvolvimento acelerado, no qual a expansão econômica convive com a necessidade de ampliar infraestrutura urbana, reforçando o caráter de cidade em transformação.
Esse processo, evidentemente, não ocorreu de forma espontânea. Ele foi construído por gerações de produtores, muitos deles migrantes, que apostaram no Cerrado mato-grossense, por empresas que se instalaram para esmagar soja, fabricar biodiesel, produzir etanol e estruturar cadeias de proteína, e por uma rede de serviços técnicos, revendas, transportadores, tradings, cooperativas, consultorias, oficinas e laboratórios que passou a orbitar em torno do núcleo produtivo. Entre esses pioneiros está o produtor rural Darcy Getúlio Ferrarin, de 73 anos, nascido em Constantino (RS), que chegou a Mato Grosso em busca de oportunidades e acabou acompanhando de perto a transformação da cidade. “Escolhi Sorriso porque vi aqui a possibilidade de crescer junto à cidade, ajudando a construir uma agricultura forte e sustentável”, afirma. Ele produz soja e milho e relata que, ao longo dos anos, também trabalhou com algodão e sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP). Para Ferrarin, a adoção do plantio direto no Cerrado foi um marco importante, pois trouxe benefícios ambientais significativos, como a conservação do solo, a redução da erosão e a melhoria da infiltração de água. “Hoje, entendemos que é possível produzir mais utilizando áreas já abertas, conciliando produtividade e preservação dos recursos naturais.”

Sorriso já contabiliza uma parcela relevante de sua área agrícola com certificações ambientais e mantém percentuais significativos de preservação dentro das propriedades rurais, evidenciando um modelo produtivo que busca equilibrar intensificação e responsabilidade ambiental. “Hoje, cerca de 25% da área do município já conta com certificação de produção sustentável”, afirma Clovis Picolo Filho. Ele ressalta ainda que a conservação ambiental é parte estrutural da lógica produtiva local. “Sorriso mantém aproximadamente 27% de sua área como reserva, sob responsabilidade dos produtores rurais. O produtor é, por natureza, conservacionista, e isso se reflete em um modelo de produção ambientalmente equilibrado e reconhecido.”

Na experiência de Darcy Ferrarin, os investimentos em sustentabilidade também se traduzem em ganhos concretos na escala da fazenda. “Nossa propriedade participa de programas de certificação em sustentabilidade, o que proporciona benefícios econômicos pelo reconhecimento das boas práticas adotadas no campo”, afirma. “Além da remuneração adicional, a certificação contribui para melhorias na gestão da propriedade, organização dos processos e maior preparo para atender às exigências dos mercados consumidores.”
É justamente nessa capacidade de articular campo, cidade, indústria e sustentabilidade que Sorriso parece condensar uma das grandes narrativas do agronegócio brasileiro contemporâneo. O município continua sendo, em essência, uma potência agrícola. Mas sua relevância vai além da lavoura. Sorriso representa um modelo em que produtividade, tecnologia, integração de cadeias e agregação de valor se convertem em desenvolvimento local. Em tempos em que o mundo discute segurança alimentar, rastreabilidade, competitividade e transição energética, a cidade mato-grossense oferece um retrato concreto de como o agro pode se sofisticar sem perder escala. E de como essa sofisticação, quando bem capturada, muda a paisagem econômica e social de um território inteiro.


