Por Marco Damiani

O seguro rural brasileiro passa por uma transformação importante. Em um ambiente de mudanças climáticas mais intensas, aumento da frequência de eventos extremos, maior sofisticação financeira do agronegócio e crescimento das exigências de bancos e investidores, o setor vem deixando de ser apenas uma ferramenta de proteção contra perdas na lavoura para assumir um papel mais amplo de gestão de risco, previsibilidade de caixa e sustentação da atividade produtiva. Essa modernização ocorre em várias frentes. A nova lei do seguro rural, que entrou em vigor no ano passado, trouxe avanços relevantes para a relação entre produtores e seguradoras. As regras passam a exigir maior clareza sobre os riscos efetivamente cobertos e sobre as exclusões de cobertura, reduzindo disputas judiciais e divergências de interpretação entre segurados e seguradoras. A legislação também definiu prazos mais objetivos para a análise das propostas e para o pagamento das indenizações.
Pela nova regra, uma seguradora tem até 25 dias para recusar formalmente uma proposta. Caso não haja manifestação nesse período, a apólice é considerada automaticamente aceita. Já o pagamento da indenização deve ocorrer em até 30 dias após a apresentação de toda a documentação necessária em torno do sinistro. Na prática, a mudança busca trazer mais previsibilidade ao produtor e reduzir um dos principais focos de atrito do setor: a demora nas respostas e a falta de clareza sobre o alcance das coberturas. “O efeito mais importante da lei é aproximar contrato, gestão de risco e fluxo de caixa”, afirma o advogado especializado em agronegócio Gabriel Salviano. “Quando a proposta de fazer o seguro tem prazo de resposta da seguradora, o sinistro tem um tempo certo para a análise e a indenização conta com um prazo ajustado de pagamento, o produtor rural ganha em segurança jurídica e previsibilidade.”
O próprio perfil das apólices também mudou. Além das modalidades mais tradicionais, ligadas à proteção da safra de soja, milho e trigo, ganham espaço coberturas mais específicas e sofisticadas, voltadas para diferentes culturas, estruturas físicas, riscos ambientais e modelos de indenização mais rápidos. O chamado seguro paramétrico, por exemplo, vem crescendo entre grandes produtores e grupos agroindustriais. Nesse formato, a indenização é acionada automaticamente quando determinados indicadores climáticos, como volume de chuva, temperatura ou estiagem, ultrapassam parâmetros previamente estabelecidos, reduzindo disputas e acelerando o recebimento dos recursos.
As exigências de financiadores e investidores também vêm impulsionando novas modalidades. O seguro ambiental, por exemplo, passou a ganhar espaço entre grandes operações ligadas ao agronegócio como uma forma de atender a critérios ESG e ampliar o acesso a linhas de crédito. Grandes grupos do setor buscam coberturas mais abrangentes, capazes de proteger não apenas a produção agrícola, mas também silos, galpões, estruturas industriais, riscos ambientais, responsabilidade civil e até ameaças cibernéticas em fazendas cada vez mais digitalizadas.
Segundo Talita Ferrari, sócia e diretora Comercial da Wiz Corporate, a demanda por apólices mais sofisticadas cresce especialmente entre grandes empresas do agro. “Grandes players e indústria concentram os contratos de maior valor segurado e contratam seguros mais sofisticados, que cobrem uma maior gama de riscos e exposições”, afirma. “As modalidades inovadoras, como o seguro paramétrico, estão crescendo rapidamente e sendo utilizadas principalmente por grandes produtores que necessitam de agilidade no recebimento de indenizações.”
As seguradoras também têm ampliado a especialização de seus produtos. A Tokio Marine mantém forte atuação no seguro safra voltado à proteção de grãos. A Swiss Re se destaca no seguro de grandes estruturas, como silos e galpões. Já a Mapfre possui atuação relevante em culturas específicas, como o café. A Allianz Seguros, por sua vez, registrou crescimento superior a 50% no faturamento da carteira de seguro rural no ano passado, mesmo em um ambiente de retração no mercado total. Segundo o diretor de Agronegócios da companhia, Rafael Marani, o avanço foi impulsionado pelo lançamento de produtos para 13 novas culturas, ampliação das parcerias com corretores especializados e aperfeiçoamento das coberturas oferecidas. Hoje, além das culturas mais tradicionais, a companhia oferece proteção para amendoim, arroz, aveia, café, canola, centeio, cevada cervejeira, feijão, mandioca, maçã, tomate e triticale.

Apesar do movimento de modernização, expansão de portfólio e maior sofisticação das coberturas, o mercado ainda enfrenta um desafio importante: ampliar o acesso dos pequenos e médios produtores ao seguro rural. É justamente nesse segmento que a retração vem sendo mais intensa. No ano passado, a arrecadação de apólices do seguro rural alcançou R$ 12,9 bilhões, resultado 8,8% inferior ao registrado em 2024, segundo a CNseg. Apenas em janeiro deste ano, a retração foi de 12,2%, equivalente a cerca de R$ 1,1 bilhão a menos na corrente comercial. Diante desse cenário, a entidade reviu sua estimativa inicial de crescimento de 2,3% para uma queda de 3,9% ao longo de 2026.
A redução dos recursos destinados às subvenções públicas e as incertezas em torno do orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural pressionam a contratação de apólices e reduzem a área protegida. Nos últimos cinco anos, a área total de lavouras seguradas caiu de 13,7 milhões de hectares, em 2021, para 3,2 milhões de hectares no ano passado, uma retração de 76,6%. O movimento contrasta com o crescimento da área plantada, que passou de 83,9 milhões para 97,8 milhões de hectares no mesmo período. Sem os subsídios públicos, muitos produtores acabam obrigados a arcar integralmente com os custos das apólices, justamente em um momento de margens mais apertadas, custos elevados e preços pressionados das commodities agrícolas.

