Uma floresta para chamar de sua

Por Marco Damiani


Edição 29 - 06.05.22

Grunner – A tecnologia do campo para o campo

Programa de restauração de florestas da Fundação SOS Mata Atlântica une gigantes do agronegócio a produtores que necessitam fazer compensação ambiental.

Uma floresta para chamar de sua, capaz de compensar desmatamentos feitos para dar lugar ao plantio ou pasto, cumprir demandas do Código Florestal, sequestrar carbono da atmosfera e, ainda, produzir créditos ao investidor nesse modelo e ao proprietário da terra beneficiada. Não se trata de uma promessa, mas de uma realidade proporcionada pela tecnologia de implantação e restauração de florestas desenvolvida ao longo das últimas quatro décadas pela Fundação SOS Mata Atlântica – a ONG de reconhecimento internacional dedicada à recuperação de florestas nativas no País.

Nesse campo, em oposição às informações sobre a degradação ambiental crescente, as notícias são boas: é possível criar, em pouco espaço de tempo, novas florestas em áreas atingidas por queimadas, utilizadas em lavouras e pastagens ou devastadas por intempéries. Dos tempos em que esparramava sementes jogadas de um helicóptero sobre a Serra do Mar, em São Paulo, nos anos 1990, até os dias de hoje, a entidade avançou em conhecimento e parcerias. É possível, até mesmo, criar uma floresta com recursos ofertados por grandes players do agronegócio, interessados em associações com pequenos e médios produtores para agregar ações sustentáveis às suas marcas. Ganha a organização e, por outro lado, o mercado internacional de créditos de carbono, que comercializa compensações ambientais.

Chama atenção a velocidade com que a SOS Mata Atlântica consegue apresentar resultados em seu processo de erguer florestas ricas em sustentabilidade, diversidade e viabilidade. “Entre dois e três anos a partir da introdução no solo das primeiras mudas, a nova floresta já fica em pé e não demanda mais interferência humana para continuar crescendo”, conta Rafael Bitante, gerente de Restauração Florestal da entidade. “Em cinco anos, a mata está madura, alta e variada, em condições de produzir todos os benefícios ambientais do verde”, completa ele.

Para cada hectare em recuperação, 2.500 mudas de árvores são plantadas, representativas de 70 a 100 espécies nativas da Mata Atlântica. Em média, um hectare de floresta nascida por esse processo tem custo estimado em R$ 47 mil. É a situação do terreno que vai determinar qual será o método de regeneração e de implantação. De ponta a ponta, isto é, da definição do projeto à conclusão do trabalho, cerca de 200 trabalhadores em diferentes funções de manejo são mobilizados. A SOS Mata Atlântica se encarrega de aproximar potenciais investidores dos proprietários interessados em ter florestas em áreas predeterminadas.

CERVEJA E FLORESTA

A Heineken do Brasil está entre as grandes empresas que usam os modelos da SOS Mata Atlântica para obter compensação ambiental. “A sociedade enfrenta uma série de acontecimentos que nos lembram da necessidade de cuidar do lugar onde vivemos”, afirma Beatriz Dias de Sá, coordenadora de Sustentabilidade e Negócios Corporativos da cervejaria. “Temos o respeito e o cuidado pelas pessoas e pelo meio ambiente como um valor da nossa companhia e entendemos que é fundamental usar a nossa presença no mercado e na sociedade para, além de contribuir, incentivar impactos positivos. Não é à toa que há mais de dez anos realizamos o projeto Aprendendo com a Mata Atlântica – iniciativa de educação ambiental que promove, além da recuperação ambiental, o desenvolvimento educacional e já impactou mais de 40 mil estudantes”, lembra ela. “O reflorestamento é uma maneira efetiva de fazer essa compensação. Da nossa parte, temos todo o interesse em participar de ações que promovam sustentabilidade a partir de uma tecnologia moderna e eficiente”, afirma.

Assim como a Heineken, grandes companhias como a AES Tietê, Ypê, Nestlé, Raízen, Scania e Mercedes já assinaram contratos com a SOS Mata Atlântica para se associarem, na qualidade de investidores no reflorestamento, a empreendimentos de recuperação ambiental. “Nove em cada dez grandes companhias do agronegócio brasileiro estão preocupadas com emissões de carbono e como realizar a sua compensação”, lembra o gerente Bitante.

42 MILHÕES DE MUDAS

Os números resultantes dessas parcerias impressionam. Desde a sua fundação, em 1986, a ONG já teve financiado o plantio de 42 milhões de mudas de árvores, somando mais de 3 mil projetos em 500 municípios da região da Mata Atlântica em 11 estados. A soma da área beneficiada é equivalente a 23 mil campos de futebol.

Há duas grandes metodologias no processo de restauração florestal, a passiva e a ativa. No primeiro modelo, a simples eliminação dos fatores de degradação já cria as condições para a introdução de sementes e mudas. É o caso de áreas de pastagens, nas quais a saída do animal costuma deixar um solo fértil para o crescimento de muitas espécies de árvores e plantas. No processo ativo, os técnicos da Fundação visitam o local escolhido e realizam um levantamento completo sobre as condições do solo e do clima. Com base nos resultados, determinadas mudas e plantas são escolhidas para dar início à restauração. Normalmente, são selecionadas mudas das chamadas árvores de cobertura, mais altas, e sementes de espécies médias e pequenas, de modo a crescerem em paralelo.

O principal alvo dos projetos de restauração florestal é, hoje, o interior de São Paulo. Há preferência por áreas que envolvam mananciais, nascentes e rios, de modo a reduzir riscos de desabastecimento de água no entorno. A legislação estadual, ao mesmo tempo, incentiva a compensação ambiental.

O Brasil tem metas de restauração ambiental bastante ambiciosas a cumprir, como a de recuperar 12 milhões de hectares e implementar 5 milhões de hectares de sistemas com integração entre lavoura, pecuária e floresta até 2030. Pelo Acordo de Paris, assinado pelas autoridades brasileiras, o País também precisa recuperar rapidamente 5 milhões de pastagens degradadas. A área da Mata Atlântica, que hoje tem cerca de 12% da vegetação original, é o bioma que mais deve ser beneficiado por essas metas.

Nada impede que a tecnologia de restauração beneficie, no futuro, áreas devastadas na Amazônia. Mas o salto deve ser dado com segurança. “A região amazônica ainda não entrou no nosso foco, em razão do muito que há por fazer no próprio bioma da Mata Atlântica”, ressalva Bitante. “Mas não tenho dúvida de que, se formos chamados a estudar o caso específico da nossa floresta tropical, toda a tecnologia que desenvolvemos até hoje será muito útil.”

MAIS ÁGUA E FORMIGAS

Na ponta final do ciclo, o proprietário rural é o grande beneficiado. Fazendeiro no interior de São Paulo, onde cria, recria e engorda um rebanho de 5 mil cabeças de gado, o engenheiro agrônomo Manoel Rainho já acumula 120 hectares de florestas recompostas com mais de 160 mil mudas, em três fazendas diferentes. Ele participa dos programas Floresta do Futuro e Click Floresta, da SOS Mata Atlântica desde 2011. “Cedi as terras para recomposição, preservei córregos e resolvi minha questão de reserva legal para estar adequado ao Código Florestal”, diz Rainho. E tudo isso sem investir recursos próprios. “Empresas que precisam plantar, mas não têm terra, pagam pelo trabalho da SOS Mata Atlântica, mas nós mesmos não ficamos sabendo exatamente quem fez esse patrocínio”, explica.

O engenheiro Rainho, de 53 anos, confirma que, com a tecnologia empregada na recomposição, em três anos se alcança um porte médio de 6 metros nas novas florestas, atingindo quase 10 metros após dois anos. “É um processo relativamente rápido”, conta. “Depois que a floresta está de pé, é só cuidar de formiga”, diverte-se. A primeira fazenda dele a ser beneficiada foi a Miralua, em Marabá Paulista, a partir de 2011. Foi escolhida uma Área de Preservação Permanente (APP) à volta do córrego Jataí. “Hoje, ele está mais profundo e mais volumoso, além de totalmente protegido”, comemora o fazendeiro. Pouco depois, propriedades nos municípios paulistas de Piquerobi e Caiuá também tiveram áreas recompostas, com 50 mil mudas em cada uma delas. Rainho tem planos agora de recompor mais 160 hectares de florestas em suas terras nos próximos anos.