O artista da natureza

Por Eliane Lobato


Edição 28 - 23.03.22

Grunner – A tecnologia do campo para o campo

Exposição no Rio de Janeiro celebra a genialidade de Burle Marx, que transformou jardins em obras de arte reverenciadas no mundo todo.

“É verdade que a arte de fazer jardins não começou comigo, nem terminará com a minha pessoa. Mas creio que minhas experiências poderão ser úteis aos que vierem depois de mim.”

Roberto Burle Marx

Um dos legados do arquiteto e paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994) é uma ideia simples baseada na generosidade e contribuição social: plantar para os outros. Ao escolher uma muda de árvore dessas espécies que levam décadas para adultecer, ele dizia saber que não iria vê-la no apogeu, mas que isso não importava. E ensinava: o que interessa é cuidar bem da terra e do que dela pode advir, e sentir-se recompensado porque outras pessoas, contemporâneas ou das próximas gerações, irão se beneficiar.

A exposição O Tempo Completa: Burle Marx, clássicos e inéditos, que pode ser vista até fevereiro na Casa Roberto Marinho, no Cosme Velho, no Rio de Janeiro, dá visibilidade a esse simbolismo através de 130 peças selecionadas pelos curadores Lauro Cavalcanti e Isabela Ono. Entre desenhos, fotografias, pinturas, croquis, maquetes e projetos, há trabalhos que ele não chegou a ver no auge da exuberância ou usufruir. Mas quem veio depois sim. E é isso que importa.

Como os monumentais Parque do Flamengo e Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro; o Parque Ibirapuera, em São Paulo; a Pampulha, em Belo Horizonte; a Praça 15 de Novembro, em Salvador e muitos outros projetos espalhados pelo Brasil e pelo mundo. São obras vivas que estabelecem um vínculo entre quem semeia e quem colhe, revelam as potentes mutações da terra e atravessam o tempo como fonte de energia e criação.

O local da exposição não é mero acaso: Burle Marx assinou os jardins da casa do jornalista Roberto Marinho (1904-2003), em 1938, e ali nasceu a sólida amizade entre os dois “Robertos”. O jardineiro Augusto de Oliveira Braga, 68 anos, conviveu com ambos. Passou a metade de sua vida trabalhando na icônica residência do fundador da Rede Globo e foi testemunha de momentos de contemplação em seus passeios pelos jardins. Com o paisagista, aprendeu qual é o âmago do trabalho de quem planta: “Carinho por tudo o que nasce da terra”.

Braga afirma que “para dar certo, também tem que entender o tempo e as necessidades das mudas, sementes, raízes”. Ele considera o Sítio Burle Marx, onde o paisagista morava, um verdadeiro paraíso ao longo de 406 mil metros quadrados de área verde e mais de 3,5 mil espécies de plantas. Localizado em Barra de Guaratiba, no Rio de Janeiro, acaba de ser reconhecido como Patrimônio Mundial da Unesco.

“O jardim do Instituto Casa Roberto Marinho é um dos projetos pioneiros do homenageado na exposição”, diz Lauro Cavalcanti. O arquiteto, curador e diretor do centro cultural tomou a iniciativa de semear bandeiras coloridas, confeccionadas a partir de desenhos do paisagista, nos jardins. O lúdico trabalho permanecerá no local em sistema de comodato por dez anos e, depois, as bandeiras serão doadas ao Instituto Burle Marx, fundado em 2019 para cuidar do acervo de mais de 120 mil itens.

Cavalcanti chama a atenção para a rara oportunidade de ver o processo criativo do artista, que tem 60% de material inédito no evento. “Há desenhos de concepção, lápis meio borrado, experimentos de traços de canetas mais finas, detalhes de uma obra sendo pensada”, analisa. A mostra alcança quase nove décadas de trabalho junto a colaboradores, entre os quais o maior parceiro e amigo, Haruyoshi Ono (1944-2017), pai de Isabela Ono, a curadora adjunta e sócia-fundadora do Instituto.

Falar do legado de Burle Marx, para ela, é abordar várias questões que se afunilam em um ponto: “A integração humana com a natureza e a necessidade de pensar alternativas para novos futuros”. Para entender como isso seria possível, ele viajou muito, pesquisou biomas e ecossistemas e fez uma preciosa releitura deles em seus projetos, sempre em defesa do meio ambiente.

Mata atlântica, Amazônia, caatinga, cerrado, manguezal, estão todos ressignificados em seus trabalhos. “Burle Marx trouxe as matas para a cidade”, diz Isabela, também arquiteta e paisagista. “E mostrou que não basta preservar, é necessário, igualmente, difundir.” Cavalcanti e Isabela concordam que a pandemia fez as pessoas buscarem mais contato com a natureza, o universo rural, e que os jardins públicos foram mais valorizados. “Independentemente da classe social, houve essa procura pela terra e pelo verde”, afirma ela. “Há um novo e melhor olhar para os espaços públicos de convivência e seus jardins”, completa ele.

A exposição é a primeira ação pública do Instituto. E outras virão, garante Isabela, para que todos possam conhecer o múltiplo universo do maior paisagista do Brasil. Especialmente o público jovem, com o qual o Instituto quer conversar sobre reciclagem, reúso de água, compostagem e mostrar como o paisagista sabia tirar proveito de um terreno.

Tem água no local? Se sim, ele usava-a para regar o jardim ou mesmo para refrescar uma casa, canalizando-a para escorrer pelo telhado e diminuir o calor até diluir-se entre as plantas. Tem pedras? Em caso afirmativo, desenhava o projeto para aproveitar a topografia esteticamente e com menor custo e danos à natureza. Usou estes recursos em seu sítio, hoje administrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Qualquer desenho de Burle Marx era milimetricamente cuidado, mesmo que fosse um simples mapa para orientar amigos a encontrar o melhor caminho para chegar em sua residência, na mata da zona oeste do Rio. Este desenho está na exposição e mostra que ele foi uma espécie de “precursor do Waze”, como brinca Isabela, tamanha a eficiência do mapa. Também chama a atenção o protótipo de um ateliê que ele fez dentro de uma pequena caixa de papelão, em 1978. A escala é menor, mas o resultado é grandioso.

Na sala de projetos residenciais, há jardins hoje históricos. Por exemplo, na casa do banqueiro Walther Moreira Salles (1912-2001), inaugurada em 1951 no bairro carioca da Gávea. Assim como a residência onde Roberto Marinho morou por seis décadas, ambas passaram por obras ao longo dos anos, mas o projeto de jardinagem original nunca foi desrespeitado.

Há espaços específicos para quadros, projetos institucionais, objetos e mobília do ateliê deste genial paulistano que se apaixonou pelo Rio e fixou residência na cidade. No evento cultural, que ficará aberto ao público até o início de fevereiro, muitos vão conhecer outras facetas do multiartista que era, também, designer de joias, músico, serígrafo, litógrafo, escultor e defensor da sustentabilidade. Burle Marx usava a arte para que todos entendessem a contribuição que a natureza pode nos dar.

 

O Tempo Completa – Burle Marx: clássicos e inéditos ficará em cartaz até 6 de fevereiro, de terça a domingo, das 12h às 18h, na Casa Roberto Marinho, no bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro.