Agro sustentável com todo o gás

Por Romualdo Venâncio


Edição 28 - 18.02.22

Grunner – A tecnologia do campo para o campo

Quanto mais o Brasil implementa práticas agropecuárias que ajudam a mitigar emissões de gases de efeito estufa, mais favorável é sua posição frente ao mercado de créditos de carbono, que pode vir a ser uma terceira safra para os produtores de commodities.

 

O mundo todo deseja e necessita de cadeias produtivas mais sustentáveis, com redução de emissão de gases de efeito estufa (GEE) e menos impactos negativos sobre o meio ambiente. Mas nem todo mundo está disposto ou tem condições de contribuir o suficiente para essa mudança, que visa amenizar as consequências das mudanças climáticas. Como tal demanda é global e urgente, abre-se espaço para a lei da compensação, ou seja, quem preserva mais e melhor pode salvar a pele de quem está na berlinda da redução dos GEE e da preservação ambiental. E lucrar com isso, por que não? Esse é o início do conceito das negociações dos créditos de carbono – e o Brasil, sobretudo o rural, tem potencial de faturar cerca de US$ 100 bilhões com esse novo negócio nos próximos dez anos, de acordo com o estudo “Oportunidades para o Brasil em Créditos de Carbono”, encomendado pela ICC Brasil (International Chamber of Commerce) para a WayCarbon.

Essa centena de bilhões de dólares refere-se às condições de o País atender a demanda global de créditos de carbono, sendo de 2 a 22% dentro do mercado regulado no âmbito da ONU (Organização das Nações Unidas) e entre 5 e 37,5% no mercado voluntário, com negociação direta entre empresas. No momento, as oportunidades de o Brasil avançar nesse cenário ficam restritas ao mercado voluntário, pela falta de uma legislação específica para entrar no regulado. Na verdade, essa regulamentação até já existe, trata-se do Projeto de Lei 528/2021, que institui o Mercado Brasileiro de Redução de Emissões e vai regular a compra e venda de créditos de carbono no País. Mas que ainda segue em tramitação na Câmara dos Deputados.

O agro como solução

O entendimento de que promover a preservação ambiental em grande escala, como o mundo necessita, tem uma forte relação com investimentos ficou mais explícito durante a 26ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), realizada em Glasgow, na Escócia, no início de novembro, com a participação de representantes de cerca de 200 países. “Nunca vi tanto CEO na minha vida em uma COP”, comenta Eduardo Bastos, diretor do Comitê de Sustentabilidade da Associação Brasileira de Agronegócio (Abag) e diretor de Sustentabilidade da divisão agro da Bayer no Brasil, que participou de diversos painéis durante o evento, inclusive como palestrante. “Em outras edições, os negócios estavam presentes, mas não o ‘dono da caneta’. A discussão subiu, não está mais só na área da sustentabilidade.”

Outra alteração significativa nas discussões da COP26, segundo Bastos, é que passaram a considerar também as nature-based solutions (NBS), as soluções baseadas na natureza. Essa percepção ressalta ainda mais o valor de práticas sustentáveis que preservam o solo, já utilizadas pela agropecuária brasileira. “Em país tropical só vai ter carbono no solo se construir matéria orgânica”, diz o executivo da Abag. Bastos comenta ainda que daqueles US$ 100 bilhões do mercado de carbono citados no estudo da ICC Brasil, 10% estão relacionados ao agronegócio e 65% às florestas. O restante corresponde ao setor de energia.

“Fica claro que 75% das oportunidades financeiras que o País tem estão ligadas a nature-based solutions, seja pelo potencial das florestas, seja pelo potencial de recuperação [de áreas degradadas]. Estamos falando de US$ 10 bilhões para o agro, mas o maior impacto dessa questão do carbono virá pelo aumento de produtividade, tanto do solo quanto da pecuária. O crédito de carbono será um brinde”, afirma Bastos, que acha até conservador esse valor para o agronegócio. “Estima-se preço médio de US$ 10 por tonelada [de gás carbônico], mas nos Estados Unidos já se fala em US$ 20, então deve aumentar.”

O estudo da ICC Brasil define as soluções baseadas na natureza como ações que visam a proteção, o gerenciamento de forma sustentável e a restauração de ecossistemas naturais ou modificados que se relacionam aos desafios da sociedade de modo efetivo e adaptativo, gerando simultaneamente o bem-estar humano e benefícios da biodiversidade. É praticamente uma descrição do que muitas cadeias produtivas agropecuárias brasileiras têm buscado, apoiadas no desenvolvimento da tecnologia tropical, um perfil que surpreendeu os participantes da COP26. “Parece que estavam descobrindo o Brasil. O que vimos muito por lá é esse casamento das discussões do clima envolvendo o agronegócio, o setor como parte da solução para mitigação das emissões de gases de efeito estufa”, afirma Bastos.

Quem também voltou da COP26 satisfeito com a participação brasileira foi Celso Moretti, presidente da Embrapa. Se havia algum receio de que o Brasil pudesse sair do encontro com a imagem desgastada, essa sensação caiu por terra a partir do convencimento de que a questão da descarbonização no Brasil já passou do discurso para a prática faz tempo. “Isso já ocorre desde os anos 1990, com a utilização de técnicas como o plantio direto, a fixação biológica de nitrogênio [FBN]e a integração lavoura-pecuária-floresta [ILPF], por exemplo”, afirma o dirigente. Ele reforça que essas e muitas outras práticas sustentáveis estão contempladas no plano de agricultura de baixo carbono, o Plano ABC+, que tem como objetivo reduzir a emissão de carbono equivalente em 1,1 bilhão de toneladas da agropecuária até 2030 – sete vezes mais do que a meta estipulada na primeira etapa, realizada entre 2010 e 2020.

O progresso na construção – e na consolidação – de uma agropecuária cada vez mais sustentável rende resultados práticos que chegam até o consumidor final. Um exemplo é a linha de carne bovina carbono neutro, lançada no ano passado, fruto de uma parceria entre a Embrapa e a Marfrig, que investiu cerca de R$ 10 milhões para o desenvolvimento dos produtos. “Agora estamos trabalhando com leite carbono zero, e vamos avançar para o café, o algodão e até bezerro carbono zero”, diz Moretti. Aliás, esse envolvimento com a iniciativa privada é de grande valia para que a Embrapa amplie o alcance das tecnologias que desenvolve. “Somos parceiros de todos os grandes grupos que atuam no agro brasileiro, tanto no segmento vegetal quanto no de defensivos e de proteína animal”, acrescenta.

Entre as parcerias citadas por Moretti está uma cooperação técnica com a Bayer, iniciada no ano passado, que busca a consolidação de um mercado de carbono específico para o País. O nome do projeto é autoexplicativo: “Avaliação piloto do balanço de carbono na produção de milho e soja no Centro-Sul do Brasil: cooperação Bayer e Embrapa para o desenvolvimento sustentável”. O dirigente afirma que iniciativas como essa são muito importantes, pois é preciso que se tenha metodologias específicas para a entrada de países tropicais nesse segmento de créditos de carbono.

A proposta desse trabalho coletivo vai além da redução das emissões de GEE, buscando a sustentabilidade na sua forma mais ampla, impulsionando a produtividade das lavouras e a rentabilidade dos agricultores, o que consequentemente melhora sua qualidade de vida. “Trabalhamos com três unidades nessa parceria [Informática Agropecuária, Instrumentação e Meio Ambiente] e estamos avançando em metodologia e validação para ter uma estrutura bem preparada”, comenta Moretti. “Estamos nos preparando para quando esse mercado de carbono estiver mais forte.”

Moretti sugere até que possa nascer uma nova onda de startups por conta de tamanha preocupação mundial em relação às mudanças climáticas, e de toda a movimentação dos diversos segmentos do agronegócio em torno desse tema. “Primeiro vieram as agtechs, depois as fintechs – muitas inclusive relacionadas ao agronegócio – e agora vão surgir as climertechs”, diz o presidente da Embrapa. Segundo ele, diante de todo esse cenário, é provável que startups especializadas em questões do clima apareçam, se multipliquem, ganhem espaço e dinheiro.

Safra de carbono

Celso Moretti entende que o mercado de créditos de carbono pode representar uma relevante fonte de renda para os produtores rurais, praticamente uma terceira safra, considerando que muitos já conseguem cultivar duas safras por ano, seja com uma ou mais commodities. Essa é a aposta da Basf Agricultural Solutions, que em 2022 lançará o Global Carbon Farming Program, uma iniciativa que ajudará a companhia a reduzir em 30% a pegada de carbono por tonelada de safra produzida, até 2030, nas culturas de trigo, soja, arroz, canola e milho.

Por meio desse programa, que será apresentado ao mercado em fases, a indústria ainda pretende construir uma estrutura global que permita aos agricultores gerar créditos de carbono de certificadoras reconhecidas e, dessa forma, conseguirem uma segunda fonte de receita, recompensando seus esforços para reduzir as emissões de GEE. Aqui no Brasil, a Basf já disponibilizou até uma operação de barter baseada em créditos de descarbonização, os CBIOs, para compra de insumos. A negociação foi feita com a produtora de biodiesel de soja 3tentos, empresa do Rio Grande do Sul, a partir da Política Nacional de Biocombustíveis, a RenovaBio.

A ideia de Moretti sobre a oportunidade de negócios é reforçada por Eduardo Bastos, da Abag, que chama a atenção para a importância dessa participação da iniciativa privada, de as empresas integrarem o processo para que se encontre um caminho comum de descarbonização e se obtenha lucro com isso. “Há uma visão equivocada de que a agenda da descarbonização está em cima de custo. Na verdade, é uma agenda de ganho”, diz ele. Diversas companhias já estão nesse caminho. Um grupo de 12 multinacionais do setor de commodities agrícolas anunciou, durante a COP26, uma ação conjunta de apoio aos esforços para reduzir globalmente a zero as emissões de gases poluentes até 2050. Entre as empresas que firmaram esse acordo estão Grupo Amaggi, Bunge, Cargill, JBS, Marfrig, ADM, Cofco e Viterra.

Mais do que reconhecer o papel das commodities agrícolas no enfrentamento das mudanças climáticas, a iniciativa leva em conta a importância de se alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, o que contribui para o desenvolvimento econômico e a redução da pobreza. Dessa forma, a sustentabilidade passa a ser alcançada nos seus três pilares: ambiental, econômico e social. Como a proposta é de responsabilidade compartilhada, também entram nessa rede outros agentes direta ou indiretamente conectados às cadeias produtivas, como comerciantes, processadores, fabricantes, varejistas, consumidores e governos.

Nessa linha de ações coletivas, ainda foi apresentada na COP26 a iniciativa IFACC (Innovative Finance for the Amazon, Cerrado and Chaco), que propõe um aporte de US$ 3 bilhões – sendo US$ 200 milhões até 2022 – para mobilizar empréstimos agrícolas, fundos de investimento em terras para agricultura, instrumentos de dívida corporativa e ofertas de mercado de capitais, tudo com o intuito de facilitar a produção sustentável de soja e carne bovina livres de desmatamento na América do Sul. A novidade é resultado de uma ação conjunta da The Nature Conservancy (TNC), organização internacional sem fins lucrativos voltada à conservação da biodiversidade e do meio ambiente, e da Tropical Forest Alliance, plataforma que reúne múltiplos parceiros dedicados a encontrar soluções para combater o desmatamento resultante de atividades comerciais em áreas de florestas tropicais.

Ações como essas serão cada vez mais necessárias, pois há estudos alertando sobre o fato de que os investimentos para conter os efeitos das mudanças climáticas são aquém do que o mundo precisa. O levantamento “Panorama Global do Financiamento do Clima 2021”, elaborado por pesquisadores do Climate Policy Initiative (CPI), mostra que o mundo deveria aplicar US$ 4,3 trilhões por ano, até 2030, para limitar o aquecimento global a 1,5 °C. No entanto, de acordo com a pesquisa, esse valor está em US$ 632 bilhões, menos de 15% do que seria o ideal. Foi por isso que o CPI criou o Laboratório Global de Inovação em Finanças Climáticas, iniciativa que já conta com mais de 70 investidores e instituições público-privadas e que acelera soluções de investimentos voltadas ao desenvolvimento sustentável em mercados emergentes.

Mudanças na origem

Paralelamente aos debates que acontecem nas cúpulas mundiais sobre o clima, o que algumas gigantes do agro brasileiro – e global – vêm fazendo é promover uma transformação nas propriedades, incentivando a aplicação de práticas mais sustentáveis. Desde 2018 a SLC Agrícola trabalha com integração lavoura-pecuária (ILP), sistema de produção já implementado em dez fazendas parceiras da companhia, nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia e Maranhão, abrangendo uma área de 9,7 mil hectares e um rebanho de 35 mil cabeças. O processo começou um pouco antes, em 2017, e até agora já foram investidos cerca de R$ 3,7 milhões. Como resultado, a empresa vem colhendo mais produtividade, das lavouras e dos animais, e impactos ambientais positivos, a exemplo da maior absorção de carbono pelo solo. A rentabilidade também cresceu: em 2020, a produção em ILP acrescentou R$ 32 milhões ao faturamento.

Na região do Vale do Araguaia, composta pelos estados de Mato Grosso, Goiás e Tocantins, cerca de 100 fazendas de pequenos e médios produtores passarão por uma transformação com foco em sustentabilidade. A John Deere e a The Nature Conservancy firmaram um acordo de colaboração para promover uma transição dessas propriedades para sistemas integrados de produção, inclusive lavoura-pecuária-floresta, envolvendo práticas agrícolas regenerativas, combinadas à restauração e à conservação de vegetação nativa. A iniciativa, que terá duração de quatro anos e deve alcançar 55 mil hectares, vai priorizar governança territorial, transformação sistêmica, segurança hídrica e mudanças climáticas. Além disso, a ideia é que as fazendas passem a ser referência para a multiplicação desse processo.

A redução de emissão de gases de efeito estufa na pecuária já está sendo comprovada pela Minerva Foods em 25 de suas fazendas fornecedoras distribuídas em Brasil, Argentina, Colômbia, Paraguai e Uruguai. Trata-se de uma parceria com o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) envolvendo o Carbon on Track, novo programa de instituição desenvolvido para medir o balanço de carbono. Esse projeto-piloto envolveu mais de 232 animais e uma área de 185 mil hectares de pastagens dos biomas Amazônia, Pantanal, Cerrado, Pampas e Chaco.

A constatação é de que as ações da Minerva visando à pecuária de baixo carbono estão dando resultado, pois essas propriedades registraram 44% menos emissões de GEE na comparação com a média mundial em produção de carne bovina, estimada em 19,9 tCO2e por tonelada de carne produzida. A Fazenda Corumbiara, por exemplo, localizada em Rondônia, com 16,8 mil hectares e mais de 20 mil bovinos, registrou 42% menos emissões do que a média mundial. Esse desempenho foi alcançado com intensificação do ciclo de produção e a utilização de cerca de 30% da área aberta para a produção de insumos agrícolas que abastecem o confinamento.

Muito se fala sobre as emissões de carbono, mas o gás metano também está no centro dos debates, até mesmo incentivando parcerias para tornar a agropecuária mais sustentável. Outro acordo tecnológico assinado entre multinacionais durante a COP26 envolveu a Royal DSM, empresa que atua nas áreas de saúde, nutrição e biociência, e a JBS, com a meta de reduzir a emissão de metano entérico bovino em escala mundial. Para isso, as empresas vão desenvolver um plano conjunto para implementação do Bovaer na cadeia produtiva, suplemento nutricional desenvolvido pela DSM que tem como diferencial melhorar a pegada de GEE da carne bovina.

Se é que essa questão do metano pode ser analisada pela visão do copo meio vazio ou meio cheio, de um lado há a preocupação em reduzir as emissões desse gás, mas de outro há também a oportunidade de aproveitá-lo até como combustível. A New Holland anunciou que no ano que vem trará para o Brasil seu trator modelo T6 Methane Power, movido a biometano, e que já vem sendo testado por aqui. É possível abastecê-lo com biogás produzido dentro da fazenda, a partir dos dejetos dos animais, por exemplo. Dessa forma, o produtor ganha na redução do custo em combustível e até no balanço de emissões de gás carbônico do maquinário.

AGENDA DE LONGA DATA

O mercado de carbono vem sendo definido desde o Protocolo de Quioto, assinado em 1997, com o objetivo de reduzir a emissão de GEE e, consequentemente, o aquecimento global. Por conta das idas e vindas na adesão dos países participantes aos compromissos estabelecidos, o protocolo só entrou em vigor em 2005. Dez anos mais tarde veio outra iniciativa global com esse intuito. Durante a 21ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP21, em 2015, foi firmado o Acordo de Paris, em que 195 nações se comprometeram a reduzir suas emissões de GEE e a manter o aumento da temperatura da Terra em níveis menores do que 2 °C. O acordo entrou em vigor no ano seguinte.

Desde então, o tema vem ganhando mais importância, tanto que o mercado de carbono esteve no centro dos debates da COP26, realizada em Glasgow, na Escócia, no início de novembro de 2021, com a participação de representantes de cerca de 200 países. O agronegócio foi citado em grande parte das discussões, pois espera-se do setor uma ampla revisão de conceitos e ações concretas no campo para que a produção de alimentos, fibras e bioenergia esteja cada vez mais alinhada e comprometida com a mitigação das emissões de GEE. Isso envolve a interrupção do desmatamento – e aqui ainda há a discussão sobre o que está dentro ou fora da legalidade –, a recuperação de áreas degradas e a manutenção do solo, entre outras tantas ações de preservação. Como tudo isso demanda investimentos, quem está no início dessa cadeia cobra o que chamam de uma justa remuneração por serviços ambientais.