O Brasil no traço de um mestre das HQs

Por André Sollitto


Edição 27 - 01.12.21

Buckman
Buckman Chremistry, connected

Dono de um traço aparentemente simples, estilizado, mas capaz de transpor para as páginas dos quadrinhos uma enorme variedade de histórias, o carioca Flavio Colin (1930-2002) é um dos mestres da nona arte no Brasil. Ao longo de quase 50 anos deixou uma vasta produção, que passeia por gêneros como o romance histórico, a aventura e o terror. No topo de uma extensa lista de obras-primas está Estórias Gerais, uma coleção de contos ambientados no sertão mineiro da década de 1920. Fora de catálogo há alguns anos, ela está prestes a voltar às livrarias em uma republicação feita pela editora Conrad.

O projeto foi idealizado pelo roteirista da HQ Wellington Srbek e oferece uma oportunidade para que o Brasil atual conheça o trabalho de Colin, que serve de referência para muitos quadrinistas contemporâneos. Srbeck, por exemplo, conta que havia acabado seu mestrado em história na UFMG e sentia vontade de escrever ficção. Uma obra sempre retornava a seus pensamentos: Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. “Na época, também li Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Esses grandes clássicos de nossa literatura me fizeram imergir no Brasil interior, com sua narrativa de personagens e ambientes únicos”, diz Srbek. O roteirista rascunhou as ideias iniciais e mergulhou em uma pesquisa sobre o norte de Minas na década de 1920, lendo jornais da época. Fez o roteiro e convidou Colin para desenhar. A obra foi publicada pela primeira vez em 2001 e depois saiu em nova edição pela Conrad, em 2007. Teve ainda outra versão, pela editora Nemo, antes de retornar à Conrad para a reedição em homenagem aos 20 anos.

O relançamento de Estórias Gerais faz parte de uma leva de títulos do mestre das HQs que retornam ao mercado. A editora Figura prepara uma edição de As Aventuras do Anjo, série da década de 1950 que deu início à carreira do artista. As HQs eram uma adaptação do seriado de TV, e a versão que sai agora é a reprodução de um dos gibis, O Lenhador Maldito, de 1959, sem os retoques gráficos, mostrando a arte de Colin em seu estado mais “bruto”. É voltada principalmente para pesquisadores e interessados em compreender o processo criativo do desenhista. Outro volume é Terror no Inferno Verde, da editora Pipoca & Nanquim, uma coletânea de histórias que vão do terror ao erótico, sempre com inspiração em contos e lendas brasileiras.

Essa profusão de reedições marca um novo momento do reconhecimento tardio do trabalho do quadrinista. “Colin foi o maior desenhista da história dos quadrinhos brasileiros e um dos grandes gênios dos quadrinhos mundiais, que não foi devidamente reconhecido e valorizado em vida”, afirma Srbek. No início da carreira, quando desenhava adaptações de seriados populares, como Vigilante Rodoviário, Colin mostrava uma influência de artistas estrangeiros, como Chester Gould, autor de Dick Tracy, e Milton Caniff (de Terry e os Piratas).
Logo encontrou seu próprio estilo e passou a lutar pela valorização das HQs brasileiras – não apenas aquelas produzidas por artistas nacionais, mas que abordassem temas regionais. Chegou a se afastar da produção de quadrinhos na década de 1960, quando a ditadura no Brasil se tornou mais agressiva, e trabalhou na publicidade durante 12 anos. Mas voltou à nona arte. “Deixar a publicidade e retornar aos quadrinhos foi um desastre financeiro e moral, porque a família se voltou contra mim (com justa razão)”, escreve Colin em uma espécie de diário, datado de 1997 e publicado na edição de Caraíba, dez anos depois. Mas Colin tinha um objetivo em mente.

Ele se debruçou sobre lendas, histórias folclóricas, guerras e outros movimentos históricos. “O que obras como Estórias Gerais fazem é traduzir para linguagens artístico-literárias um Brasil interior, quase mítico, de um passado com personagens, ambientes e cultura absolutamente singulares”, afirma Srbek. É um trabalho de valorização da nossa cultura. “Nosso País é vasto, coberto de panoramas deslumbrantes, tipos humanos e costumes dos mais variados. E, milagrosamente, nesse Brasil continental, todos falamos a mesma língua. Quantas histórias, lendas, ‘causos’, dramas e comédias vividos e narrados por nosso povo! ”, escreveu Colin.

 

 

 

 

Nem sempre foi fácil. “Endeusamos e copiamos tudo o que é estrangeiro, mormente norte-americano. Tudo, menos o patriotismo, o nacionalismo deles. Lá, é primeiro nós, depois, os outros. No Brasil é o contrário”, escreveu. O desenhista era um crítico da quantidade de material que vinha de fora e era publicado pelas editoras daqui, tirando oportunidades de artistas brasileiros. E sofreu financeiramente, aceitando trabalhos com remuneração inferior ao que merecia.

Mas a batalha de Colin deu frutos. Muitos dos autores mais respeitados da cena atual de quadrinhos nacionais, que começaram a carreira na década de 1990, foram influenciados pela produção de Colin, principalmente do ponto de vista temático. Há também diversas editoras que passaram a olhar para o que é feito aqui. “Nunca houve uma produção nacional tão grande”, afirma Cassius Medauar, editor-chefe da Conrad. “Tem muita gente vivendo de quadrinhos. Houve uma enorme evolução mercadológica. Tem muita diversidade nas HQs nacionais: discussão de problemas raciais, temática LGBTQIA+, todo tipo de brasileiro fazendo quadrinhos. E o leitor percebeu que é mais interessante ler uma obra autoral do que um Homem-Aranha genérico”, diz Medauar.

A variedade a que ele se refere é, de fato, muito grande. Há interpretações do cangaço, de Bando de Dois, de Danilo Beyruth, à versão cyberpunk Cangaço Overdrive, de Zé Wellington e Walter Geovani. Tungstênio, de Marcello Quintanilha, premiada no exterior, aborda crimes ambientais cometidos em Salvador e como eles afetam a vida de pessoas normais. Beco do Rosário, de Ana Luiza Koehler, aborda a modernização da cidade de Porto Alegre nos anos 1920. A Viola Encarnada: Moda de Viola em Quadrinhos, de Yuri Garfunkel, usa o repertório caipira para falar do interior do País. Angola Janga, de Marcelo D’Salete, fala de Palmares, de como a rebelião se tornou uma nação com população comparável à de grandes cidades brasileiras da época. Jeremias – Alma, de Rafael Calça e Jefferson Costa, parte do clássico personagem de Mauricio de Sousa para falar de ancestralidade. E isso é só o começo.

Quem quiser mergulhar ainda mais no trabalho de Colin consegue encontrar, sem tanto esforço, outros títulos. É o caso de Caraíba (ed. Desiderata), uma reunião de três histórias do personagem-título escritas e desenhadas pelo artista. Após um encontro com o Curupira, o caçador abandona a antiga ocupação e se torna um defensor da floresta e passa a combater o tráfico de animais, as queimadas e a caça predatória. Outra é Fawcett, escrita pelo roteirista André Diniz, sobre a fracassada expedição do arqueólogo britânico Percy Fawcett em busca de uma civilização perdida no Mato Grosso. Há ainda Fantasmagoriana, histórias de terror com sotaque brasileiro escritas por Srbek. “Considero as HQs uma ‘missão’”, escreveu Colin. “E como todo bom missionário, dedicado e tenaz, acredito que, um dia, através delas, o Brasil será mais brasileiro.”