Das oficinas para o mundo

Por Romualdo Venâncio


Edição 27 - 24.11.21

Buckman
Buckman Chremistry, connected

Algumas pessoas podem optar tanto pelo sentido literal quanto pelo figurado para falar sobre si ao utilizarem a expressão “escrever história”. É o caso do empresário Odilo Pedro Marion, fundador e presidente do Grupo Agrimec, que tem sede em Santa Maria, região central do Rio Grande do Sul, e é um dos nomes fortes da indústria nacional de máquinas e implementos agrícolas. Em novembro deste ano, Marion celebra dez anos do lançamento de sua autobiografia Empreender: Ousadia ou Loucura?, obra na qual conta a trajetória para construir, manter e expandir seu negócio, composto por quatro empresas – Agrimec, Acespeças, Intecsol e Idema. Hoje, com 47 anos de existência, o grupo emprega cerca de 450 colaboradores, fabrica 126 modelos diferentes de implementos, produz mais de 1.240 máquinas por ano e exporta para 32 países. Para que o livro fosse o mais fiel possível à realidade, Marion incluiu referências desde sua infância, quando já eram notórias a criatividade e a persistência, características que o ajudaram a construir uma história de sucesso.

O GRUPO | Grupo Agrimec Fundação: 1974 Localização: Distrito Industrial de Santa Maria (RS) Composição: Agrimec, Acespeças, Intecsol e Idema Colaboradores: 450 Segmentos: Arroz irrigado, cana-de-açúcar, soja e milho, pastagem, café e feijão, florestal e orgânicos Portfólio: 126 modelos diferentes de implementos Produção: 1.242 máquinas por ano Exportação: 32 países

Aos 79 anos de idade, Marion segue ativo na gestão dos negócios. “Estou sempre trabalhando. E divido meu tempo entre as duas principais empresas do grupo, a Agrimec e a Idema”, afirma o industrial, que diz estar escrevendo mais dois livros. “Não me entrego”, acrescenta. E não se trata apenas de “força de expressão”, pois o empresário teve de colocar sua resistência à prova ao enfrentar a Covid-19 durante cerca de 30 dias, após ter sido infectado pelo coronavírus. Ao superar a doença, além de celebrar a própria recuperação, Marion também comemorou o comprometimento de seus colaboradores. “Nos dias em que fiquei afastado, a produção foi um pouco acima do normal. As equipes sabiam o que precisavam fazer e fizeram”, diz o empresário, em nítido tom de satisfação.

Marion fala com orgulho sobre a transparência na relação com as pessoas que trabalham no Grupo Agrimec. “Todos os colaboradores passam por mim durante as entrevistas do processo de seleção, pois precisam me conhecer. E deixo sempre a mensagem de que estou colocando a pessoa na empresa, mas é ela mesma que vai garantir sua permanência”, afirma o empresário, que diz receber por dia até dez fichas de cadastro de pessoas procurando emprego. Tal busca acaba sendo natural, pela relevância do Grupo Agrimec para o município de Santa Maria e seu entorno. Marion lamenta que não existam mais escolas de metalurgia na região, pois certamente haveria mais mão de obra capacitada e mais oportunidades.

O EMPRESÁRIO | Odilo Pedro Marion Nascimento: 29 de junho de 1942, em Segredo (RS), que na época fazia parte do município de Sobradinho Pais: Santo Marion e Blondina Mainardi Marion Família: Eloisa Marion (esposa) – Odimara e Gustavo (filhos) Formação: mecânico (na prática), técnico em Contabilidade (Escola Técnica do Comércio – Colégio Santa Maria), Administração de Empresas (UFSM), Administração da Produção (pós-graduação na UFRGS) Prazeres: ler, escrever e (agora) descansar bastante

Infância inspiradora

Odilo Marion é natural de Segredo, cidade gaúcha que na época ainda era um povoado pertencente ao município de Sobradinho. Como grande parte dos colonos que viviam ali, seus pais Santo Marion e Blondina Mainardi Marion trabalhavam na lavoura. Quando o empresário nasceu, o pai trocou a lida na roça por um emprego na agroindústria que um irmão estava iniciando. Dona Blonda, forma carinhosa como sua mãe era chamada, seguiu no cultivo agrícola, até para cuidar da alimentação da família. Já maiorzinho, mas ainda criança, Marion não podia ficar em casa enquanto os pais estavam fora, como acontecia com seus irmãos, Dalilo e Áuria, já mais velhos. Acabava acompanhando o pai na agroindústria, onde se distraía com o giro de polias e o ronco das máquinas, como conta em sua autobiografia.

Outro fato curioso relatado por Marion em seu livro é que, ainda na infância, aprendeu atividades como artesanato, confecção de redes de pesca, bordado e costura. Esta última, inclusive, lançou um pouco mais de luz sobre seu precoce interesse por mecânica, pois lhe chamava mais a atenção toda a sincronia daquele sistema do que a costura em si: o pedal da máquina acionava uma haste, que movimentava uma grande polia e, por meio de uma correia de couro, girava o mecanismo que fazia a agulha subir e descer através dos tecidos.

Na adolescência, veio a relação direta com esse universo de polias, engrenagens, peças de metal. “Com 13 anos, meu pai me disse que eu precisava de um ofício, e me colocou na oficina mecânica”, diz Marion. A combinação entre curiosidade e criatividade, naquele ambiente, fez com que se diferenciasse ainda mais entre os garotos de Segredo. Se já costumava construir os próprios brinquedos, com o material disponível ali poderia ir muito além. “Uma vez ganhei uma bicicleta e a modifiquei toda. Botei sineta, luz, campainha, mola no assento, mola no eixo dianteiro, tudo com peças que sobravam ali dos automóveis”, comenta. As adaptações fizeram brilhar os olhos dos colegas, que também queriam incrementar suas “magrelas” com aqueles opcionais. “Me tornei um empreendedor. Há coisas nas bicicletas de hoje que eu já fazia há mais de 60 anos.”

Profissional multifunção

Marion foi para Santa Maria na época de prestar o serviço militar, e após a baixa no quartel tratou de procurar novas oportunidades na carreira de mecânico. Sem sucesso nessa busca, pelo menos naquele momento, acabou trabalhando como taxista até que retornasse à função desejada. Sempre priorizando a continuidade dos estudos, cursou contabilidade na Escola Técnica do Comércio, no Colégio Santa Maria, e depois se formou em administração pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O objetivo, na verdade, era engenharia mecânica, mas não foi possível por se tratar de uma opção de período integral.

O curso de administração era algo muito recente, tanto que antes da UFSM só havia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Marion lembra que os colegas taxistas costumavam questioná-lo, um tanto quanto incrédulos, sobre do que se tratava realmente aquilo e onde iria arrumar emprego. “Eu costumava responder a eles que iria criar meu emprego, e não procurar por ele”, diz.

Entre as características que o industrial mais tem satisfação de comentar sobre si mesmo estão sua dedicação e seu comprometimento, em relação a tudo o que faz. Mas em especial sobre os estudos e o trabalho, ainda mais se estiverem conectados. “Sempre me dei bem nos estudos, e por conta disso me convidaram para lecionar na UFSM”, lembra o empresário, que foi indicado pelos próprios professores com quem teve aula. Além de mecânico, taxista, técnico em contabilidade e administrador, passou também a ser um mestre. E esse novo emprego se tornou um importante pilar para a trajetória que estava por vir.

 

O desafio de ser empresário

Criada por quatro sócios (contando com Marion), em 1974, a Agrimec recebeu esse nome como referência à expressão “agricultura mecanizada”, mas logo ganhou uma definição com apelo comercial mais forte: Agro Industrial Mecânica Agrimec Ltda. O objetivo inicial era industrializar um equipamento que iria revolucionar o controle de plantas invasoras no cultivo de soja, a capinadeira rotativa. Em seu livro, Marion conta que a inovação teria sido inventada “por um santa-mariense”, inclusive já com pedido de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). Mas o desenvolvimento do implemento foi todo dele, a partir de um protótipo que não chegou a funcionar por uma hora durante a demonstração. “Não desanimei, pois o conceito da máquina era ótimo, e eu acreditei nele.”

A partir das pesquisas e melhorias realizadas por Marion, o equipamento ganhou diversas funções e o nome de Rotacarp. Além de limpar o terreno e impedir a ação das plantas daninhas, a máquina era robusta e versátil, superando desafios como galhos, cipós, pedras, torrões, chuva, entre outros. Diferentemente de seus sócios, o industrial mantinha uma intensa dedicação ao novo negócio, tanto administrativa e operacional quanto financeira. A sociedade não resistiu por muito tempo à tal incompatibilidade, ampliada pela falta de sintonia na forma como enxergavam a empresa. “Eram especuladores e imediatistas. Ficou mais fácil para mim quando saíram”, comenta o industrial.

Como qualquer novo empreendimento, foi preciso injetar recursos de toda ordem naquele início para que avançasse. “Durante muito tempo, sustentei a empresa com o salário da universidade e das extensões”, diz Marion. À época, além da UFSM o empresário lecionava na Sociedade Educacional Três de Maio (Setrem), no município homônimo, que ficava a mais de 250 quilômetros de Santa Maria. Já sem os sócios lá do início, com a Agrimec transformada em sociedade anônima, e ainda pagando royalties pela invenção da Rotacarp, Marion se viu ameaçado por conta de algo que foi fundamental para que chegasse até ali: a inovação agrícola. Em meados dos anos 1970, o surgimento dos herbicidas tornou obsoleta a capina mecânica nos campos de soja e trouxe um sério risco de falência.

Era preciso se reinventar de novo e rapidamente. Um passo marcante naquele momento foi a quebra da patente da Rotacarp, o que reduziu os custos de maneira significativa, ainda mais por se tratar de um equipamento que já não traria rendimentos. Marion apertou o passo para ampliar o campo de atuação: surgiram a roçadeira de três lâminas e o para-choque tanque. Também passou a se dedicar ao segmento do arroz, o que abriu novos e valiosos caminhos. “Fui buscar mercados que me dessem mais oportunidades”, afirma o industrial, que agregou mais uma atividade a seu currículo para melhor atender o setor. “Me tornei agricultor, plantei arroz, trigo e soja durante dez anos e conheci também o lado dos produtores.”

Essa visão privilegiada sobre a necessidade dos clientes colocou a Agrimec em uma posição de destaque. Mais do que dispor de seu próprio campo de teste para as inovações, Marion pôde realizar avaliações técnicas diretamente nas lavouras para combinar eficiência, performance e conforto a seus clientes. “Visito muito os campos, acompanho os protótipos nos testes práticos. Além das inovações, também melhoramos os equipamentos tradicionais”, diz o empresário, que destaca a linha de produtos para plantio direto na cana como exemplo dessa diversificação com base nas demandas do setor, dos agricultores.

Futuro promissor

A Agrimec enfrentou dificuldades em diferentes períodos, como as duas décadas entre os anos 1980 e 1990, com inflação, hiperinflação e até mesmo com um pedido de falência em 1999. Segundo Marion, trabalharam pela sobrevivência. “Vendíamos uma máquina e o dinheiro que recebíamos já não valia mais no dia seguinte. Economizamos tudo o que podíamos, acabamos atrasando títulos e tributos, mas saímos vivos dessa. Eu saí mais maduro da crise, mais experiente, criei mais demanda, se uma máquina não vendesse eu buscava outra opção”, recorda.

De acordo com alguns índices apresentados pelo empresário, eles seguem bem vivos. Do ano 2000 para cá, o grupo já cresceu 75 vezes. Entre agosto do ano passado e junho de 2021, o efetivo das quatro empresas praticamente dobrou. O faturamento geral no primeiro semestre deste ano foi 30% maior do que o registrado durante o ano passado inteiro. A maturidade na gestão tem ajudado a manter os pés no chão e a se preparar melhor para novas oscilações entre períodos positivos e outros mais difíceis. “Em 2013 e 2014, tivemos um voo muito bom, mas não esbanjamos nada, pois meu prazer está em empregar pessoas. Agora, calculo que teremos mais um ano nesse ritmo crescente, mas depois podem vir ondas de baixa. Então precisamos nos fortalecer, nos capitalizar para estarmos preparados”, analisa Marion, que tem na família um suporte poderoso para seguir em frente. A esposa, Eloisa, que o acompanha em todos esses passos, e os filhos, Odimara e Gustavo, que também trabalham no grupo.