Onde há fumaça, há heróis

O ano de 2020 deixou evidente a importância do sério trabalho das brigadas de incêndio no campo


Edição 23 - 04.02.21

Por Romualdo Venâncio

Se já foi chocante para quem viu, apenas em imagens, o Pantanal sendo consumido por incêndios em 2020, sobretudo quando eram mostrados animais feridos ou mortos pelo fogo, imagine como deve ser para quem estava na linha de frente do combate às chamas, vivenciando tudo aquilo de perto. Ou o mais próximo que o calor do fogo permitisse. Essa é visão e a sensação de quem integra as brigadas de incêndio, pessoas comuns que se tornam profissionais diferenciados pelo que fazem e pelos riscos que correm. E que precisam se preparar durante o ano todo para agir antes – principalmente antes –, durante e após ocorrências de incêndio. 

“O que as reportagens mostraram sobre os animais é ínfimo, considerando que os felinos são bichos rápidos e ainda assim apareceram com as patas queimadas”, comenta Osmano Melquíades Santos, brigadista efetivo e chefe de Operação de Equipe da Brigada Aliança. Sediado em Novo Santo Antônio, região nordeste de Mato Grosso, Santos não esteve no Pantanal, mas nem por isso descansou. Imagens semelhantes ele viu ao vivo na região do Xingu, onde atua há mais de uma década.  “Não sei exatamente o que houve no Pantanal, surgiram vários focos em diferentes pontos que acabaram se encontrando. Talvez só tenhamos mais respostas no ano que vem, após o trabalho da perícia”, diz, ressaltando a importância dessas informações, até para que se possa ter mais proatividade na prevenção. “Se foi acúmulo de massa orgânica que pode queimar, por exemplo, a gente precisa fazer algo para evitar.”  

Santos só teve a oportunidade de se tornar um brigadista porque há algum tempo esse movimento vem ganhando destaque nas áreas rurais mais próximas a florestas, com iniciativas de agentes do próprio agronegócio, cientes do valor da preservação e da importância da prevenção. Embora já gostasse do tema preservação ambiental e até já tivesse trabalhado como voluntário de fiscalização de pesca, Santos atuava como autônomo, fazendo bicos de serviços braçais, em 2009, quando se inscreveu para a primeira turma do curso de prevenção e combate a incêndio do grupo Aliança da Terra, e foi treinado pela SmokeJumpers, equipe de elite do Serviço Florestal dos Estados Unidos (USFS).

Treinamento da Brigada Aliança da Terra: esforço durante o ano todo para prevenir e reduzir número de focos durante período seco

Ao formar uma brigada de incêndio especialista em prevenção e combate a incêndios florestais, e em conscientização de produtores rurais de diferentes perfis e comunidades indígenas, a Aliança da Terra ampliou o trabalho realizado por meio de sua plataforma Produzindo Certo, que tem ajudado diversos fazendeiros a buscarem alta performance de suas lavouras sob rigorosos padrões de comprometimento social e ambiental. Já são mais de 1,3 mil propriedades atendidas e quase 5,7 milhões de hectares monitorados. Outro resultado dessa equação é a atenção com a questão dos focos de fogo durante o ano todo. “Quando vem o período de chuvas, ninguém fala de prevenção, só vai pensar quando começarem os incêndios. Temos de ser proativos, não reativos”, diz Santos. 

Agente de conscientização

Santos, da Brigada Aliança

Ninguém entra para uma brigada de incêndio sem o devido treinamento técnico e a preparação física e psicológica. No caso de quem vai atuar no ambiente rural, lidando com florestas, é precisa também ter a habilidade de conscientizar, conciliar e agregar. “Não conseguimos fazer o trabalho todo sozinhos, precisamos do apoio de todo mundo – bombeiros, fazendeiros, assentamentos, indígenas”, diz Santos, que procura conversar com as pessoas que moram nas diversas comunidades e que produzem em pequenas áreas. “A gente chega de maneira amistosa, busca conhecer, saber se usa queimada como manejo, sem o caráter de fiscalização, assim ganha a confiança para levar orientação”, afirma o brigadista. Ele diz ser preciso entender a cultura e o comportamento desses grupos para que a mensagem seja compreendida. 

Mais do que combatentes, os brigadistas da Aliança são multiplicadores desse conhecimento e formadores de novas equipes, levando treinamento a diversas propriedades e comunidades indígenas. “Treinamos uma brigada de 12 combatentes indígenas da etnia Kamayurá, no Mato Grosso, para atender nove aldeias”, diz Santos. Em muitas situações pode haver resistência às medidas preventivas por uma questão cultural, a velha história de que o pai e o avô já faziam de tal maneira, ainda que não fosse a mais eficiente e segura. “Nesses casos, trabalhamos com o convencimento pelo custo que o produtor pode ter com e sem a prevenção”, diz Santos. Para ampliar o alcance de suas mensagens, a Brigada Aliança produziu uma série de vídeos sobre prevenção de focos de incêndio em propriedades rurais, em que destaca, de modo didático, as medidas a que os produtores deve ficar atentos mesmo nos períodos de menor risco. 

Santos conta que muitos questionam, por exemplo, a necessidade de se abrir aceiros, uma prática para ajudar a interromper o avanço de um possível incêndio. “Não quer dizer que vai conter todo e qualquer incêndio, mas quando existe o aceiro você já tem uma ferramenta estratégica que está pronta”, explica. A brigada também alerta que a queimada feita de maneira errada pode prejudicar quem começou o fogo e seus vizinhos, caso o fogo atravesse a cerca. E eles podem até ser multados por uma infração que não cometeram. 

É dessa forma que também atuam as brigadas de incêndio da Agropalma, produtora de óleo de palma localizada no Pará que ocupa uma área de 171 mil hectares. São 107 mil do complexo agroindustrial (áreas plantadas, infraestrutura, indústrias, estradas e moradias) e 64 mil de reservas florestais, que abrangem quatro municípios (Tailândia, Acará, Moju e Tomé-Açu). “Nessa área florestal, temos uma equipe de 30 profissionais dedicados exclusivamente para realizar rondas visando ao controle de prevenção de incêndios e proteção das áreas”, diz Raimundo Gonçalves Ferreira Júnior, gerente de Saúde, Segurança e Meio Ambiente Corporativo da Agropalma.

Ferreira Junior, da AgroPalma

Segundo Júnior, esses brigadistas realizam um intenso trabalho de conscientização junto às comunidades e produtores parceiros, inclusive com transferência de conhecimento por meio de folhetos explicativos. “Anualmente, temos focos de incêndios que ocorrem através de combustão espontânea, por meio de queimadas realizadas por produtores locais que colocam fogo em suas áreas para eliminar a vegetação e realizar o plantio ou por focos na malha rodoviária estadual”, explica. Por conta das certificações de sustentabilidade, como RSPO (Rountable on Sustainabel Palm Oil), os produtores parceiros da Agropalma são proibidos de usar fogo em suas plantações. 

O entendimento sobre os períodos mais críticos, que exigem maior atenção, é um grande reforço para a prevenção, tanto em relação aos focos que surgem naturalmente, quanto aos provocados pelo homem, pois já se sabe quando o ambiente está mais susceptível. “Temos intensificado as ações preventivas e os alertas à comunidade do entorno, que começam no início de junho”, afirma Júnior. Ele conta que no caso da região da Agropalma, os focos se intensificam de maio a novembro, com os maiores ocorrendo entre agosto e setembro. 

Ação estratégica

As brigadas da Agropalma contam com o importante auxílio do monitoramento via satélite, a partir de um sistema que emite alertas de focos de calor, o que permite a verificação antecipada de possíveis ocorrências. Se for preciso agir, a empresa dispõe ainda de três caminhões-pipa para evitar que o fogo se alastre. A Brigada Aliança também usa a tecnologia espacial, com um sistema de detecção de incêndio com dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e da Nasa (National Aeronautics and Space Administration), e trabalha com drones. Mas para Santos, em se tratando de combate ao fogo, ainda pode não ser rápido o suficiente, o que justifica o monitoramento permanente, ainda que não tenha incêndio nem fumaça, como age também a equipe da Agropalma. 

A ação estratégica faz muita diferença nas etapas de prevenção, e isso não é exclusividade das brigadas, passa também pela eficiência produtiva e da gestão ambiental das fazendas. A Produzindo Certo, por exemplo, tem um sistema que acompanha pelo menos 70 indicadores socioambientais, entre os quais estão focos de calor e desmatamento. Como consequência, as propriedades cadastradas têm apresentado índices abaixo da média em relação a esses dois itens, por conta de fatores como vigilância permanente, apoio e assistência técnica, conscientização e aplicação de boas práticas socioambientais. Segundo estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que analisou informações das propriedades cadastradas na plataforma Produzindo Certo, 92% das fazendas apresentaram redução do número de focos de calor após iniciarem o monitoramento com a empresa. 

Já na linha de frente, nas ações de combate ao incêndio propriamente dito, a estratégia é fundamental até para preservar a vida dos brigadistas e das pessoas que estão no trajeto do fogo. “A gente precisa estar sempre com o plano A para agir e o plano B na mente para colocar em prática imediatamente se necessário. E já ter um plano C, dependendo da situação, pois tudo acontece muito rápido”, diz Santos. Segundo ele, o vento é um fator que pode dificultar as ações e até furar as estratégias. “Ele pode mudar de direção ou velocidade e começar outro incêndio.”

A estratégia também envolve o conhecimento das áreas de atuação e da infraestrutura disponível. A base da Brigada de Incêndio Aliança fica em Novo Santo Antônio, região nordeste de Mato Grosso, e opera nos biomas Cerrado e Amazônia, cobrindo diversos parques florestais, como o Parque Estadual do Araguaia, uma área com mais de 223 mil hectares. “Dentro do parque, até que é mais tranquilo, a gente consegue ir cortando de camionete. A ação é mais difícil em áreas cercadas, fechadas, ou de assentamentos que não têm acesso”, comenta Santos. “Às vezes o foco de incêndio está a 200 ou 300 metros, mas é preciso dar uma volta de 2 quilômetros para alcançá-lo”, acrescenta. 

A equipe da Brigada Aliança procura também visitar as fazendas em sua área de atuação para saber o que há de infraestrutura nessas propriedades, equipamentos que podem auxiliar nas ações de combate a incêndios. É uma forma de já estarem mais bem preparados, inclusive os produtores. “Se você está vendo fumaça e não tem certeza se é na sua propriedade ou no vizinho, vá verificar. Se for no vizinho e tiver condições de ajudar, vá ajudar com o que puder, maquinário, equipamento, equipe. As fazendas devem ser parceiras, os vizinhos precisam ajudar”, orienta Santos. 

Como exemplo dessa ação conjunta, o gerente da Agropalma conta que em 2020 houve uma ocorrência de incêndio em uma das vilas próximas da empresa que poderia ter tomado dimensões trágicas. “Embora não tenha afetado diretamente a nossa área, nossa brigada foi comunicada e imediatamente mobilizada para atuar no incêndio, que chegou a cerca de dois quilômetros de extensão”, descreve Júnior. Segundo ele, a ação foi ainda mais desafiadora por se tratar de uma área de difícil acesso. “Mas atuamos e debelamos o incêndio, que pela nossa avaliação, poderia ter tomado proporções inimagináveis entre as áreas da empresa e de preservação ambiental, além de impactos irreversíveis à fauna.” 

 

TRABALHO EM EQUIPE

“No combate a incêndios, não dá para bancar o herói.” A frase de Osmano Melquíades Santos, brigadista efetivo e chefe de Operação de Equipe da Brigada Aliança, é categórica para mostrar que a ação frente ao fogo é um trabalho que se realiza em equipe. “Sempre falo nos cursos e nos treinamentos que a composição da brigada é como a formação de uma família. Como líder, estou preocupado com toda a equipe, mas todos devem cuidar uns dos outros”, acrescenta. 

O discurso de Santos pode até parecer óbvio ou um cliché motivacional, mas só quem vive o dia a dia de enfrentamento ao fogo pode mesmo saber o real valor dessas palavras. “A segurança da equipe não está apenas na qualidade dos equipamentos, dos EPIs, mas na preparação de cada integrante para atuar em diversas situações e em difíceis tomadas de decisão”, diz. Não por acaso, os integrantes passam por testes físicos, pela necessidade de resistência, e psicológicos, pois o trabalho pode ser muito desgastante. Ainda mais para quem está na posição de liderança. “Para ser um bom líder, primeiro precisa ser um bom ser humano.”

SOS ARAGUAIA

Em 2017, a Fundação Black Jaguar e a empresa de locação de automóveis Movidas criaram o Programa Carbon Free, para promover o plantio de 1 milhão de mudas de árvores nativas às margens do Rio Araguaia até 2022, chegando a 10 milhões até 2025. Essa iniciativa deu origem à SOS Araguaia, uma campanha de arrecadação de fundos para o combate a incêndios nas proximidades dos municípios de Santana do Araguaia (PA) e Caseara (TO). A ideia, que tem também o apoio do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, é ter recursos suficientes para apoiar as pessoas na linha de frente das ações contra o fogo.