Corrida contra o tempo

Como o agro está agindo para enfrentar a era dos eventos extremos


Edição 20 - 08.06.20

Por Amauri Segalla

As grandes empresas agrícolas trabalham com uma obsessão: aumentar, a cada ano, a produtividade de suas lavouras. Maior processadora de grãos de capital brasileiro, a Amaggi comemorou recentemente um feito histórico. Sua fazenda Tucunaré, na região do município de Sapezal, no Mato Grosso, produziu 87,46 sacas de soja por hectare na safra 2019/20. Em termos de performance, é o melhor resultado da companhia desde a fundação, há 43 anos. Diversas razões explicam o notável desempenho: progressos no manejo do solo, ampliação do uso da internet das coisas (IoT), que conecta máquinas agrícolas à administração da fazenda, boas sementes escolhidas de acordo com o seu potencial genético, entre outros inúmeros motivos combinados. Embora tenham sido importantes, essas iniciativas vêm sendo adotadas há pelo menos quatro anos. Uma ação inédita, porém, levou a Amaggi a alcançar novas marcas. Em agosto de 2018, a empresa inaugurou o primeiro radar meteorológico privado do Brasil. “Com ele, passamos a conhecer melhor os microclimas dentro da fazenda, com acesso a informações como intensidade das chuvas, radiação solar e direção do vento”, diz Ricardo Moreira, gerente de controle de produção da Amaggi. “O resultado foi espetacular. Por exemplo, o trabalho de pulverização diminuiu, porque tivemos maior assertividade nas operações.”

A iniciativa da Amaggi retrata o mais urgente desafio do agronegócio: enfrentar os efeitos implacáveis das mudanças climáticas. No final do ano passado, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou um relatório de 300 páginas sobre o clima. O documento, que reuniu estudos científicos da Organização Meteorológica Mundial e de outros órgãos especializados, concluiu que a média da temperatura global poderá aumentar 3,4 °C até o final do século. O estudo também indicou que a temperatura do planeta de 2015 para 2019 foi 0,2 °C acima do período anterior de cinco anos, e que ela já é 1,1 °C mais quente que os níveis pré-industriais de 1850 a 1900. Por mais que as diferenças de temperatura pareçam sutis, e que obviamente não ocorram do dia para a noite, seus impactos cada vez mais severos já podem ser sentidos.

De acordo com a ONU, nos últimos cinco anos o mundo se deparou com um número recorde de tempestades, furacões, inundações, nevascas, ondas de frio e de calor e secas prolongadas. E o que é pior: tudo isso vai continuar – e provavelmente com maior intensidade. Os prejuízos financeiros, portanto, serão crescentes. Segundo estudo da International Centre for Trade and Sustainable Development (ICTSD), uma organização não-governamental que se dedica ao desenvolvimento sustentável, as mudanças climáticas geram US$ 10 bilhões em prejuízos anuais ao agronegócio, mas esse número irá crescer na próxima década mesmo com a ação integrada das grandes empresas agrícolas do mundo. Se elas não fizeram nada, a perdas monetárias poderão ultrapassar os US$ 30 bilhões até 2030.

Para o agronegócio, as mudanças climáticas já são uma realidade que afeta a forma de produzir em vários locais do planeta. O ano de 2019 foi o mais úmido de que se tem notícia. Nos Estados Unidos, o excesso de chuvas inutilizou 19 milhões de acres (o equivalente a 7,7 milhões de hectares) para o plantio e, em Ohio, a safra de milho foi a pior em cinco anos. Na Tanzânia, as violentas tempestades destruíram no ano passado 30% da produção de grãos. Na África Meridional, 30 milhões de pessoas precisaram de socorro alimentar de organizações internacionais por causa das quebras nas colheitas. Na África Central, o aumento dramático do regime de chuvas afetou a produção de mandioca, milho e feijão. Na Ásia, estima-se que a produção de arroz irá cair 20% para cada grau Celsius aumentado, enquanto na Europa as safras de milho e beterraba podem despencar pela metade até 2050. Com o aquecimento global, as áreas apropriadas para o plantio de cacau deverão encolher 30% nas próximas duas décadas – e não há lugar no globo para substituí-las. Sempre de acordo com o relatório da ONU, o Brasil, um dos motores da agricultura mundial, não está livre dos extremos climáticos. Se o planeta continuar a se aquecer no ritmo atual, a produção de trigo no País poderá diminuir entre 10% e 20% até 2050.

Embora seja a mais imprevisível variável a afetar o agronegócio, o clima extremo não é um obstáculo que não possa, ao menos, ser combatido. O radar meteorológico da Amaggi é exemplo disso. O projeto começou a nascer no início de 2018, quando executivos da empresa visitaram o estande da Climatempo, a maior e mais conhecida empresa de previsão meteorológica do País, em uma feira agrícola. Desse encontro nasceu a ideia de instalar o radar na fazenda Tucunaré, localizada no município de Sapezal, no Mato Grosso. Como se tratava de uma iniciativa inédita no Brasil, ela enfrentou uma série de problemas antes de se tornar efetiva. O maior deles estava ligado ao próprio clima. “Na primeira tempestade que pegamos, um raio atingiu o radar e ele queimou”, diz o gerente da Amaggi, Ricardo Moreira. “Trocamos o para-raios, mas ele queimou de novo. Depois, estragou uma terceira vez. Parece piada, mas é sério.” O executivo lembra que, após três grandes decepções, a saída foi comprar um para-raios alemão, que se revelou, enfim, à prova de tempestades.

O radar meteorológico da Amaggi monitora atualmente fatores climáticos em um raio de 100 km, fornecendo em tempo real informações fundamentais para os agricultores. De posse de dados como a intensidade da chuva, o gestor da fazenda determina se vale a pena pulverizar uma área ou se é melhor esperar a tempestade passar, além de ter parâmetros mais precisos sobre a hora ideal para adubar o solo. O aparelho também detecta e alerta sobre focos de incêndio, o que praticamente elimina a chance de uma lavoura ser perdida, e indica áreas que foram alagadas pela chuva, o que otimiza a operação dos tratores. São benefícios valiosos especialmente diante do baixo investimento consumido no projeto. A Amaggi desembolsou R$ 500 mil no seu radar meteorológico, montante irrisório perto dos cerca de R$ 20 bilhões que a empresa fatura por ano. Se o custo é baixo, por que apenas em 2018 um radar privado passou a escrutinar as lavouras brasileiras? “A questão climática começou somente agora a entrar no rol de preocupações do pessoal do agronegócio”, diz o meteorologista Carlos Magno, fundador da Climatempo.

Outras empresas despertaram para a importância da agrometeorologia em suas lavouras. Também no Mato Grosso, o Grupo Atto, antiga Sementes Adriana, desenvolve um amplo projeto de estações meteorológicas e, na Bahia, o Sindicato dos Produtores Rurais de Luís Eduardo Magalhães estuda formar um consórcio para o lançamento de um radar que atenda fazendas da região. Há pouco mais de um ano, a Basf lançou um serviço de agrometeorologia em parceira com a Climatempo, que consiste no serviço de previsão do tempo no curto prazo (com antecedência de 72 horas), no médio (15 dias) e no longo (a tendência para os próximos seis meses). As informações coletadas pela rede de estações meteorológicas da Climatempo são cruzadas com dados emitidos por satélites e, a partir daí, boletins são enviados por mensagens de celular para os gestores das fazendas. A partir desses dados – que incluem risco de raios, queimada, geada, granizo e até a probabilidade de determinadas pragas atingirem as culturas agrícolas em decorrência do regime climático –, os profissionais do campo decidem o momento certo para o plantio e a colheita, entre muitas estratégias do dia a dia.

A Climatempo tem acelerado os negócios na área agrícola. Além da Basf, a empresa mantém parcerias com gigantes como a Raízen, maior produtora de açúcar e etanol do Brasil, fornecendo informações climáticas em tempo real. O próximo passo é prospectar oportunidades no mercado internacional. Uma das metas é se tornar líder na América Latina na chamada inteligência climática. Para isso, conta com o apoio da norueguesa StormGeo, maior empresa do mundo em serviços de previsão meteorológica, que há cerca de um ano comprou 51% da companhia brasileira. Para conquistar terreno no exterior, a Climatempo se apoia na experiência bem-sucedida com o radar da Amaggi – a ideia é oferecer produtores similares para clientes estrangeiros. O setor agrícola é um campo aberto de oportunidades. Atualmente, o agronegócio responde por 13% do faturamento da Climatempo, atrás do mercado de energia e mineração. “O segmento agrícola, no entanto, é o que mais cresce dentro da companhia e a tendência é que se torne o mais lucrativo em pouco tempo”, diz Carlos Magno.

GARGALO DO CLIMA

As novas tecnologias são aliadas na redução dos danos provocados pelas mudanças climáticas. Embora muitos avanços tenham surgido nos últimos anos, os produtores brasileiros enfrentam sérios gargalos na área de infraestrutura meteorológica. Isso é preocupante. Em um mundo cada vez mais competitivo, com concorrentes ferozes e sedentos para fisgar nacos de mercado, não contar com infraestrutura adequada pode ao longo dos anos comprometer a sobrevivência do próprio negócio. “Na agrometeorologia, há muito para ser feito no País”, diz Felipe Gustavo Pilau, professor do departamento de Engenharia de Biossistemas da Esalq-Usp. Um levantamento realizado por ele detectou a impressionante carência de estações meteorológicas de solo no Brasil. No Centro-Oeste, principal polo agrícola nacional, as estações ficam a uma distância de 400 km entre si, quando o ideal para cobrir uma área agrícola é um espaçamento de no máximo 25 km. Em São Paulo, centro mais desenvolvido do País, as estações instaladas nas fazendas estão separadas por até 100 km.

Pilau explica por que as estações são importantes. “Cada vez mais é preciso levar a meteorologia para dentro das áreas de produção”, diz. Algumas fazendas, lembra o especialista, têm mais de 100 km entre uma ponta e outra, o que torna impossível entender os microclimas locais sem a ajuda de instrumentos agrometeorológicos. Com as estações de solo, é possível conhecer as variações climáticas dentro de uma mesma fazenda e, a partir daí, descobrir por que uma região específica pode ser mais produtiva do que outra. “Nos últimos anos, muito tem se falado sobre o melhoramento genético das sementes e até o uso da inteligência artificial para pulverizar as lavouras”, afirma Pilau. “Muitos esquecem, porém, que a agrometeorologia será cada vez mais indispensável na chamada agricultura de precisão. Muito em breve, o produtor que não tiver acesso antecipado aos dados climáticos ficará para trás.”

A escassez de estações meteorológicas de solo nas grandes fazendas é ainda mais surpreendente diante do baixo custo para instalá-las. Segundo Pilau, há modelos na praça a partir de R$ 1 mil e os mais sofisticados custam aproximadamente R$ 15 mil. O professor da Esalq aponta duas razões para o problema. A primeira delas é a falta de conectividade no campo, entrave que depende inclusive da capacidade de investimento dos agentes públicos. A segunda é o desconhecimento dos produtores, ainda pouco afeitos às inovações na área de meteorologia. Um dos principais concorrentes do Brasil no agronegócio, os Estados Unidos têm uma situação bem mais confortável no campo da agrometeorologia. Segundo Luiz Augusto Toledo Machado, pesquisador há quase quatro décadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), existem 30 radares públicos em operação no Brasil, a maioria deles na região costeira. Nos Estados Unidos, que possui uma área territorial apenas um pouco maior do que a brasileira, são 150 equipamentos desse tipo em pleno funcionamento.

“Além disso, os radares brasileiros produzem dados isoladamente, sem conexão entre eles”, diz Machado. “Nos Estados Unidos, os equipamentos se comunicam e todos os dados estão disponíveis gratuitamente para os agricultores. No Brasil, os produtores muitas vezes não conseguem sequer ter acesso às informações captadas pelos radares públicos.” Uma conta simples mostra por que o País está defasado nessa área. Cada radar público custa, em média, R$ 10 milhões. Apenas para igualar os números em operação, nos Estados Unidos seriam necessários, portanto, investimentos equivalentes a R$ 1,2 bilhão. Isso sem contar os recursos para a manutenção e atualização dos equipamentos. “Embora a produtividade brasileira no campo esteja entre as maiores do mundo, na área da agrometeorologia o País está muito defasado”, diz Machado. 

INIMIGO NÚMERO 1

A boa notícia é que esse cenário tende a mudar. O primeiro passo começou a ser dado: cada vez mais os produtores estão atentos aos efeitos nocivos das mudanças climáticas. Um estudo patrocinado no ano passado pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato) concluiu que a questão climática está entre as maiores preocupações do setor. Realizada pelo AgriHub, polo de inovação que conecta produtores rurais, startups, pesquisadores e investidores do agronegócio no Mato Grosso, a pesquisa identificou a “falta de previsão de chuvas” como uma das maiores dores de cabeça dos agricultores, mais até do que tópicos como “preço dos insumos”, “falta de manejo do solo” e “problemas na gestão de pessoas”. A baixa qualidade da previsão do tempo, sempre de acordo com o estudo, incomoda mais do que a “falta de conectividade na fazenda” ou a “baixa qualidade de fertilizantes”.

A pesquisa também perguntou aos produtores qual é o maior empecilho para a implantação de sensores de monitoramento do tempo nas fazendas. Quase a metade (47%) dos entrevistados apontou o preço dos aparelhos como um impedimento e outros 41% disseram que o problema é a falta de disponibilidade de equipamentos. Outro número chama a atenção no estudo: apenas 4% dos pesquisados afirmaram que não há necessidade de monitorar com sensores o regime climático das fazendas. Entre a maioria que se preocupa com o tema, aprimorar a previsão do tempo irá “melhorar o planejamento”, “aumentar a produtividade” e “diminuir o risco” na gestão das fazendas. Na conclusão da pesquisa, o AgriHub diz que a previsão do tempo é um “problema-raiz da agropecuária mato-grossense”. 

CIÊNCIA EM AÇÃO

As mudanças climáticas também entraram no radar da indústria de sementes e insumos. Nos últimos anos, a corrida pelo desenvolvimento de produtos mais adequados à nova realidade do stress climático tem movimentado bilhões de dólares em investimentos. No final do ano passado, a Syngenta, gigante global nas páreas de sementes e itens fitossanitários, anunciou que irá desembolsar US$ 2 bilhões em pesquisas e na busca por soluções capazes de ajudar os produtores a enfrentar as mudanças climáticas. Entre as iniciativas previstas estão soluções para a saúde do solo, independentemente do regime de chuvas, e o controle de pragas que possam representar novas ameaças. A questão é urgente. Um estudo da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, concluiu que a elevação de um grau na temperatura média do planeta pode aumentar em 30% a população de besouros japoneses, o que seria devastador para diversas lavouras. Os investimentos da Syngenta buscam justamente descobrir métodos capazes de frear o avanço das pragas estimulado pelo aquecimento global.

Empresas de diversos setores estão atentas às mudanças climáticas. Uma das mais tradicionais fabricantes de chocolate do mundo, a americana Hershey irá destinar meio bilhão de dólares para evitar que mudanças climáticas destruam seus suprimentos. O projeto começará em Gana, na África. A ideia é bancar pesquisas que levem ao aumento da produtividade nas fazendas, o que evitaria novos desmatamentos, e proteger o Parque Nacional de Kakum, uma floresta essencial para preservar o equilíbrio climático do país. As grandes protagonistas do agronegócio estão dedicadas a encontrar maneiras de reduzir os impactos negativos das mudanças climáticas. No ano passado, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) assinou um termo de compromisso com a Corteva Agriscience para realizar pesquisas em conjunto na área de genética.

O acordo prevê o uso do Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, também conhecido como CRISPR, técnica que permite realizar edições no DNA da planta para eliminar uma característica indesejada, melhorar propriedades nutricionais ou proporcionar maior resistência a determinadas condições climáticas. Segundo Sandra Milach, cientista brasileira que lidera um time de 1 mil pesquisadores da gigante americana, a ferramenta permite que a empresa ofereça respostas rápidas às mudanças climáticas. Uma das prioridades do projeto é o desenvolvimento de variedades de soja tolerantes a secas. Em linhas gerais, a técnica consiste em acelerar um processo que já ocorre na natureza. A Corteva identifica um gene na planta que, se for modificado, melhora algumas de suas características específicas. 

AJUDA TECNOLÓGICA

Apesar da escassez de recursos e da falta de apoio dos governos, a Embrapa é um dos centros mais importantes do mundo no uso da biotecnologia para tornar a agricultura mais resistente às mudanças climáticas. “A edição de genoma, que permite modificar o próprio DNA da planta, é uma de nossas iniciativas mais promissoras”, diz Alexandre Nepomuceno, presidente do Portfólio de Biotecnologia Avançada Aplicada ao Agronegócio (BioTecAgro) da Embrapa. São inúmeros projetos em andamento. Em um deles, fruto de parceria entre a Embrapa, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), pesquisadores identificaram fungos e bactérias que favorecem o crescimento da cana. Depois, inocularam esses microrganismos em culturas de milho, o que resultou em plantas com maior tolerância à escassez de água e com temperaturas de até 4 °C mais baixas. Além disso, o milho cultivado com os microrganismos se recuperou mais rapidamente após sofrer o estresse hídrico.

A iniciativa é mesmo extraordinária: ela provou que é possível mudar a fisiologia das plantas para torná-las, por exemplo, mais resistentes a secas severas. Em um experimento de campo realizado na Bahia, em uma região afetada por longos períodos sem chuva, os microrganismos ainda se revelaram eficientes no combate a uma doença conhecida como enfezamento de milho, que reduz a produção de espigas. O avanço das pragas também preocupa a ciência. Na Unicamp, o Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética trabalha na seleção genômica das seringueiras para obter sementes adaptadas a climas mais frios e secos e, assim, combater a ação do fungo causador da doença conhecida como mal das folhas. Segundo os pesquisadores, esses fungos atingem as árvores em locais mais quentes e úmidos, que tendem a se tornar dominantes em tempos de aquecimento global. Apesar dos notáveis avanços, Nepomuceno cobra mais investimentos na área. “O agronegócio carrega o Brasil nas costas”, diz ele. “Se não investirmos pesado em ciência e tecnologia, como será daqui a 50 anos?”

Não são apenas as grandes empresas ou instituições tradicionais que estão na linha de frente do desenvolvimento de produtos capazes de combater os impactos negativos das mudanças climáticas. As agtechs têm exercido papel importante nesse processo. A israelense Seed-X recebeu no ano passado aporte de US$ 20 milhões para ampliar a pesquisa de variedades de sementes adaptáveis a condições climáticas extremas, enquanto a britânica Cervest quer saber quais são os grãos mais resistentes a chuvas intensas. Na área meteorológica, a sueca Ignitia oferece previsões de tempo apenas para pequenos agricultores de regiões pobres da África, e a indiana Skymet processa dados históricos do mundo inteiro para projetar condições meteorológicas futuras. É com a união de forças de todas as áreas – de pequenos agricultores a grandes produtores, de gigantes globais a startups regionais, da ciência ao trabalho de campo – que o agronegócio poderá enfrentar os monumentais desafios impostos pelas mudanças climáticas. 

Como o clima afeta o agronegócio
Os efeitos das mudanças climáticas nas principais culturas

Soja
A deficiência hídrica e os veranicos mais intensos poderão reduzir em 40% as áreas destinadas ao plantio de soja no Brasil até 2070. O cultivo poderá se tornar cada vez mais difícil na região Sul e alguns estados do Nordeste deverão perder sua área agricultável.
Milho
As secas prolongadas reduziram a umidade do solo na Espanha, França e Holanda. Se a temperatura continuar subindo, a produção de milho pode ser inviabilizada nesses países. Estima-se que, devido às mudanças climáticas, o sul da África irá perder 30% de sua safra de milho até 2040. Em Ohio, nos Estados Unidos, as frequentes inundações já comprometem 10% das lavouras do grão.
Arroz
O aumento da temperatura já empurra o cultivo de arroz para as áreas mais frias do Norte. Na Ásia, a produção de arroz vai cair 20% para cada grau Celsius aumentado. No Sul do continente, 10% das lavouras de arroz serão irremediavelmente perdidas até 2030 por causa do aquecimento global. A Índia, segundo maior produtor de arroz do mundo, prevê um declínio da safra local de 2 a 6% por década.
Algodão
No Brasil, o aumento da temperatura vai comprometer a produção de algodão na região Nordeste, obrigando os produtores a buscar zonas mais frias. Na China e na Índia, o aquecimento global poderá reduzir a produção de algodão em até 30% até 2050.
Cana-de-açúcar
Por gostar de calor, a cana-de-açúcar irá se espalhar no mundo graças ao aquecimento solar. No Brasil, a área plantada poderá ser duas vezes maior que a atual até 2070. Um exemplo: com menos geadas, o Rio Grande do Sul será uma região com potencial produtivo. Na Índia, agricultores começaram a substituir lavouras de algodão por cana-de-açúcar.

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