Os guardiões mundiais da biodiversidade

Programa criado pela FAO identifica sistemas agrícolas que preservam técnicas ancestrais de manejo


Edição 18 - 24.03.20

Por Amauri Segalla

Nos últimos 17 anos, a FAO, Agência das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, tem se dedicado a uma tarefa extraordinária: identificar atividades agrícolas que preservam técnicas ancestrais de manejo da terra e que mantêm uma relação sustentável com a natureza. Os lugares reconhecidos com essas características recebem o selo GIAHS, sigla em inglês para Sistema Agrícola Tradicional Globalmente Importante, e passam a ser considerados “guardiões mundiais da biodiversidade”. De certa forma, a chancela GIAHS é a versão agrícola da lista “Patrimônio Mundial da Humanidade”, criada pela Unesco para destacar locais de grande valor histórico, cultural e científico. “O conceito GIAHS é mais complexo do que um local chamado de área protegida”, diz a FAO. “Um GIAHS é um sistema vivo e em evolução de comunidades humanas que, ao longo de gerações, preservam um intrincado relacionamento com seu território. Ele é constituído por paisagens de impressionante beleza que combinam biodiversidade agrícola, ecossistemas resilientes e um valioso patrimônio cultural.” Ao criar a distinção, a FAO não estava interessada apenas em conceder um selo de reconhecimento. A intenção maior é aumentar a conscientização sobre a importância desses sistemas agrícolas e estimular ações capazes de preservá-los. Segundo a FAO, eles estão ameaçados por uma série de desafios, incluindo urbanização crescente, mudanças nas estruturas sociais e econômicas, negligência política e falta de incentivos para a sua conservação. Desde 2002, quando o programa foi lançado, 52 locais em 21 países mereceram a honraria. Por enquanto, nenhum projeto brasileiro está na lista, mas o País pode em breve ter um representante no grupo. Trata-se da a comunidade de apanhadores de flores da Serra do Espinhaço, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Há dois anos, o rigoroso comitê científico da FAO avalia sistema brasileiro, que passou por várias etapas seletivas que incluíram a análise de um dossiê com dados históricos e a visita in loco dos especialistas das Nações Unidas. A decisão final deverá ser tomada até julho de 2020. Conheça a seguir alguns desses lugares e saiba por que mereceram ingressar no seleto grupo GIAHS.

Argélia – Os oásis do deserto

No século 15, agricultores do Vale Souf, na província de El Oued, tiveram uma ideia engenhosa para cultivar palmeiras em pleno Saara argelino, região de recursos hídricos escassos e que frequentemente é atingida por violentas tempestades de areia. As raízes são plantadas próximas do lençol freático, em crateras de 80 a 200 centímetros de diâmetro e cinco metros de profundidade. Assim, elas têm fácil acesso à água, sem precisar de chuva ou irrigação, e as árvores crescem mesmo em um ambiente hostil. Para evitar que a areia fustigue as palmeiras, elas são posicionadas de acordo com a direção e velocidade dos ventos. A técnica secular transformou a aridez das dunas em uma constelação de jardins, tornando-se um marco das habilidades agrícolas humanas. Quando as plantas
prosperam, animais são atraídos para o lugar e, assim, nasce o que verdadeiramente pode se chamar de oásis. Segundo o governo local, existem atualmente 9,5 mil ghouts moldando a paisagem única de El Oued.

China – Os terraços de arroz de Honghe Hani

Poucas atividades agrícolas são tão tradicionais e permaneceram imunes à passagem do tempo quanto os terraços de arroz de Honghe Hani, na província de Yunnan, no N sudoeste da China, quase na fronteira com o Vietnã. Os primeiros registros do cultivo do grão nas montanhas locais datam de 1.300 anos. Desde então, quase nada mudou. Os hani, como são chamados os moradores da região, desenvolveram um complexo sistema de canais para levar a água abundante das florestas que ficam no topo das montanhas para os terraços logo abaixo. As plantações que ocupam a totalidade das encostas íngremes fizeram surgir um emaranhado de recortes nas montanhas que, de acordo com a posição do sol e da época do ano, formam um conjunto de luzes e cores únicos no mundo. Durante a dinastia Ming (1368-1644), o imperador deu ao povo de Hani o título de “Escultores da Montanha Mágica”. A distância dos grandes centros urbanos e a dificuldade de acesso mantêm Honghe Hani isolada do mundo, como se toda a região tivesse parado no tempo – talvez esse seja o seu maior atributo.

Irã – Túneis subterrâneos milenares

Nenhuma atividade consome tanta água quanto a agricultura. Por essa razão, a humanidade foi obrigada a desenvolver ao longo dos séculos técnicas capazes de superar as dificuldades impostas por ambientes inóspitos. Na antiga Pérsia, atual Irã, agricultores ancestrais criaram o qanat, sistema de distribuição e gestão de água nascido no primeiro milênio antes de Cristo. O qanat consiste na escavação de poços verticais que levam água de um local com reservas abundantes para outros mais secos. Entre os poços, são escavados túneis de ligação, através dos quais a água corre pela força da gravidade. Ainda hoje, quase 3 mil anos depois dos primeiros registros dos qanats, o processo de escavação dos túneis é manual, feito com ferramentas simples como martelos e talhadeiras. Atualmente, essas estruturas subterrâneas estão presentes em 34 países, a maioria deles na Ásia e África. No Irã, existem 40 mil qanats ativos, que perfazem uma extensão total de 220 mil quilômetros.

Japão – Os damascos das colinas

A região de Minabe-Tanabe, na província de Wakayama, no Japão, é conhecida pelas encostas com solo pobre e pedregoso. Mesmo assim, é ali que, há 400 anos, cultiva-se o melhor umê (damasco-japonês) do país. As comunidades locais criaram um ambiente perfeito para a produção de umê, organizando a floresta de damascos em torno de taludes que armazenam a água e, assim, estimulam o crescimento das árvores. As abelhas japonesas fazem o resto, com seu incansável trabalho de polinização. O sistema MinabeTanabe é responsável por mais da metade da produção de umê do Japão e a sua produtividade é quase o dobro da observada em outros distritos do país. Além disso, as florestas de damascos contribuem para a reposição de nutrientes do solo e, principalmente, pela prevenção de desmoronamentos nas encostas. A mais recente contagem estimou em 30 mil o número de damascos-japoneses nas colinas de Minabe-Tanabe. Todo o pomar é permeado por trilhas que propiciam uma visão panorâmica do desabrochar das flores.

México – Jardins flutuantes

Os astecas deixaram inúmeros legados para a sociedade mexicana. Na agricultura, o sistema conhecido como chinampa, como são chamados os jardins flutuantes do país, persistem até os dias atuais. Uma chinampa típica consiste de um conjunto de canais e ilhas onde são cultivados diveros tipos de culturas, de grãos a variedades ornamentais, como flores e bonsais. No início, a ideia era ampliar o espaço de plantio e garantir que houvesse alimento suficiente para os habitantes. A solução encontrada foram as ilhas artificiais: elas são construídas em partes rasas de lagos, com a mistura do lodo e da vegetação. Como os astecas descobriram, as ilhas se tornaram ambientes perfeitos para a agricultura. Graças ao contato direto com a água, elas são autossuficientes, não precisando, portanto, de sistemas de irrigação. Como em poucos lugares do mundo, o sistema chinampa provou ao longo dos anos que a coexistência das atividades ligadas ao campo com centros urbanos não só é possível como desejável. No sul da Cidade do México, o lago Xochimilco atrai todos os anos milhares de turistas com sua abundância de ilhas agrícolas.

Espanha – O sal de 200 milhões de anos

Visitar o Vale Salgado de Añana, em Álava, na Espanha, significa fazer um mergulho no passado. Ele está assentado em um antigo mar que secou há 200 milhões de anos, mas que deixou marcas profundas que resistiram ao passar do tempo. Nos últimos séculos, incontáveis gerações aprenderam a extrair o sal que ficou depositado nas profundezas dessa imensa área, com técnicas ancestrais de “colheita” que foram cuidadosamente preservadas. A exploração consiste em captar a água salgada que emerge na parte mais alta do vale, transportando-a por um engenhoso sistema de canais acionado por gravidade. Depois de a água ser levada para imensos poços, basta esperar o processo natural de evaporação para que o sal seja, enfim, capturado. Apesar do notável avanço das técnicas agrícolas, os moradores locais repetem exatamente o que os seus antepassados faziam. E isso em plena Espanha, no coração da Europa.

Quênia e Tanzânia – O povo que inventou a agricultura sustentável

O povo massai, que habita partes do Quênia e da Tanzânia, desenvolveu um sistema pastoril que, ao longo dos séculos, se adaptou ao escasso suprimento de água e à falta de disponibilidade de áreas de pastagens. Para otimizar os recursos, os massai combinam a criação de búfalos, cabras e ovelhas com o cultivo de milho e feijão, revezando a exploração do solo para não permitir que as pastagens ocupem espaços indevidos, ou que as lavouras saturem as áreas destinadas aos animais. Ou seja: muito antes de as grandes empresas agrícolas falarem em uso sustentável do solo, os massai já faziam isso, sem jamais perceber que, de certa forma, estavam antecipando o futuro do agronegócio. Seminômades, os massai são reconhecidos por sua íntima conexão com a natureza – outra lição que deixaram para as futuras gerações.

Brasil – Os apanhadores de flores (em análise pela FAO)

A Serra do Espinhaço, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, abriga 100 espécies de flores típicas do cerrado. Chamadas de sempre-vivas (porque demoram para perder a coloração mesmo depois de colhidas), elas garantem há mais de um século o sustento das comunidades locais, em sua maioria formada por quilombolas, como são chamados os remanescentes dos antigos quilombos de escravos. A coleta de flores se dá na época da seca e é um grande acontecimento. Famílias inteiras vão para o alto da serra e permanecem lá de três a seis meses, combinando a colheita das sempre-vivas com o manejo do gado. Nesse período, residem em lapas, como são chamadas as grutas de formação rochosa características da região do Espinhaço. No alto da montanha, entre uma colheita e outra, as famílias se unem para comemorar sua tradição e até casamentos são celebrados (porque a serra dá sorte, segundo a crença). Agora, os apanhadores de flores esperam ser reconhecidos pela FAO como patrimônios da humanidade.

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