Os chips no comando

Ao escolher o maquinário, produtores atentam para os microprocessadores e tecnologia embarcada


Edição 18 - 18.03.20

Por André Sollitto

Na hora de assinar um cheque para fechar a compra de um trator ou plantadeira, o que os produtores levam em conta? Durante muito tempo, fatores como capacidade e potência desse maquinário eram decisivos. Afinal, durante quase um século com poucas mudanças drásticas nesses equipamentos, pequenos incrementos eram suficientes para justificar os preços mais altos. Hoje, com a digitalização da agricultura e a iminência da chegada de uma nova era da conexão de máquinas com a tecnologia 5G, esses fatores continuam importantes, mas se tornaram praticamente secundários. Importante mesmo é a capacidade de captura e processamento de dados dessas máquinas, dotadas de computadores e microprocessadores que analisam centenas de atividades simultâneas.

Essa mudança faz parte de uma longa e gradual evolução que chega agora à fase da chamada agricultura digital. Essa história passou por alguns momentos decisivos. O lançamento do primeiro arado autolimpante, em 1837, por John Deere, fundador da companhia que leva seu nome, foi um deles. Mais tarde, o motor de combustão interna, a diesel, representou outra grande inovação. “A evolução vem atrelada à necessidade de produzir mais, com menos. Ou seja, literalmente maximizar a eficiência e a demanda, com menores custos“, afirma Emerson Crepaldi, diretor de Novos Negócios da Solinftec, uma das principais empresas brasileiras fabricantes de soluções de agricultura digital. Após essas descobertas, durante décadas a maneira como esse maquinário funciona ficou estagnada, sofrendo pouquíssimas alterações. Com as tecnologias embarcadas, uma realidade nos últimos anos, o cenário mudou completamente. “O grande segredo, hoje, não está em medir a capacidade de uma máquina em campo, mas sim como podemos aproveitá-la da melhor maneira possível e pelo maior tempo no campo”, diz ele.

Assim como acontece com os computadores pessoais, essa capacidade parte de um bom hardware – e o microprocessador é a peça central do equipamento. Quanto mais poderoso, mais ele é capaz de capturar e processar dados. “Estamos sempre analisando e absorvendo o que há de melhor no mundo de tecnologia embarcada, e os microprocessadores são parte importante no desenvolvimento das nossas soluções de hardware“, afirma Henrique Nomura, head de TI da Solinftec. É a partir desse hardware robusto que as diversas soluções são oferecidas tanto pela Solinftec quanto por inúmeras outras startups e fabricantes de maquinário.

Os dados são o combustível do equipamento”, afirma Felipe Santos, gerente de Soluções Integradas da John Deere para a América Latina. E o maquinário moderno é capaz de capturar uma quantidade impressionante de dados. Existem aqueles relacionados ao próprio equipamento, como sua posição, rastro, o tempo que o motor está ligado, sua rotação e temperatura e a quantidade de horas inativas. Existem ainda os dados agronômicos que dão pistas importantes de produtividade ao fazendeiro. Em uma colheitadeira, é possível saber a vibração das peneiras de limpeza. Em um pulverizador, é importante ficar atento com a vazão dos bicos. Em uma plantadeira, a distribuição das sementes e a pressão exercida são algumas das informações captadas. Algumas máquinas, como as colhedoras e os pulverizadores, possuem mais tecnologia embarcada que outras, mas todas são bastante inteligentes.

Captar todos esses dados é importante, mas é preciso transformá-los em informações que podem ser usadas pelos produtores para tomar decisões. Por isso existem tantas soluções de agricultura digital e gestão da fazenda. E por conta da quantidade e complexidade desses dados, o trabalho de desenvolver essas soluções é feito geralmente em conjunto entre fabricantes de maquinário, startups e grandes empresas de tecnologia. Algumas, como a John Deere, preferem criar a maior parte de suas ferramentas dentro de casa, mas esse modelo é a exceção. Geralmente, as empresas trabalham em um ambiente de inovação aberta, com máquinas e softwares conversando entre si. Afinal, o objetivo final é um só. “Nenhuma solução de tecnologia na agricultura mundial realmente vira um negócio, ou realmente cresce exponencialmente se não retornar para o produtor algo interessante“, diz Nomura, da Solinftec.

A adoção dessas tecnologias, no entanto, ainda não é unânime. O valor dos equipamentos mais modernos ainda é um empecilho para produtores menores, mas não é o único. “A coleta de dados ainda é vista como algo secundário para muitos”, diz Felipe Santos. “Mas em um mundo digitalizado, o trabalho primário das máquinas será a captura de informações no campo.” A falta de conectividade também é uma dificuldade enorme. Existem maneiras de driblar a falta de internet, capturando os dados de maneira “off-line” e transmitindo todas as informações ao final do dia, quando o maquinário retorna à sede. Não é a maneira ideal, e o produtor perde a capacidade de tomar decisões em tempo real. Operadoras de telecomunicações, fabricantes de máquinas e grandes empresas do setor têm se debruçado em busca de soluções – e as dificuldades em resolver essa questão foram tema de uma reportagem de capa da edição #15 da PLANT.

Enquanto essas barreiras estão sendo transpostas, já é possível vislumbrar os próximos estágios da evolução das máquinas. A automação já é uma realidade em algumas culturas, graças a startups que colocaram opções no mercado muito mais rápido do que se imaginou. Mas as grandes fabricantes estão correndo atrás da tecnologia. A John Deere, por exemplo, apresentou um trator autônomo na feira Agritechnica, realizada na Alemanha em novembro. A grande vantagem é que o equipamento é também elétrico, o que aponta para uma tendência no futuro. Sem motorista, elétrico e capaz de capturar quantidades enormes de dados: esse é o maquinário agrícola do futuro. O papel do produtor será transformar tudo isso em decisões que aumentem a produtividade.

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