OS AGROTÓXICOS NÃO VÃO MATAR VOCÊ

Livro mostra como a imagem dos defensivos foi distorcida em um debate que chegou às mesas do mundo

“Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”

Monteiro Lobato


Edição 5 - 12.03.18

Por Nicholas Vital

Os mais radicais chamam de veneno. Os neutros se referem a eles como agroquímicos ou pesticidas. Para a indústria, são defensivos agrícolas. No meio científico, são tratados como praguicidas. Mas no Brasil – e só no Brasil – esses produtos são popularmente conhecidos como agrotóxicos, nome que acabou oficializado no País pela Lei nº 7.802, de 11 de julho de 1989. Sancionada pelo ex-presidente José Sarney, a legislação diz que são considerados agrotóxicos “os produtos e os agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou implantadas, e de outros ecossistemas e também de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos”.

O texto é claro: os agrotóxicos têm como função proteger a fauna e a flora dos ataques de espécies consideradas nocivas. Eles são usados contra o ataque de insetos e lagartas ou no tratamento de doenças causadas por fungos e ácaros. Ou seja, os agrotóxicos são os remédios das plantas. Fazendo um paralelo com os humanos, fica mais fácil entender essa relação. Imagine que você está passando as férias na praia. Ao voltar para casa, já no meio da tarde, constata que o seu filho pegou uma micose nos pés. Já a sua filha não para de reclamar dos ataques incessantes dos pernilongos. A não ser que você seja adepto da homeopatia, terá de ir a uma farmácia e recorrer aos “humanotóxicos”, já que para acabar com a micose, que é uma infecção causada por fungos, será preciso um fungicida; e para resolver o problema dos pernilongos, que são insetos indesejados, só com inseticidas.

óbvio que se os produtos destinados aos humanos se chamassem “humanotóxicos”, haveria um grande preconceito em torno deles. Para evitar qualquer tipo de rejeição, são chamados de remédios. Os praguicidas, no entanto, não tiveram a mesma sorte. Mesmo contendo em suas fórmulas princípios ativos semelhantes aos dos medicamentos, viraram agrotóxicos. O nome, pejorativo, ajuda a explicar o preconceito e o medo dos cidadãos comuns em relação aos produtos fitossanitários – um temor injustificado, diga-se de passagem, como veremos a seguir.

Existe, em todo o mundo, um sério problema de percepção do risco em relação aos pesticidas. Essa teoria foi comprovada pelos pesquisadores Jerry Cooper e Hans Dobson, do Instituto de Pesquisas Naturais da Universidade de Greenwich, no estudo “The benefits of pesticides to mankind and the environment” [Os benefícios dos pesticidas para a humanidade e o meio ambiente, em tradução livre]. Segundo os autores, pesando os riscos e os benefícios da utilização de agrotóxicos, observa-se que a análise é prejudicada pela escassez de informações sobre seus benefícios e também pelo fato de que a maioria das pessoas não é capaz de fazer um juízo dos riscos relativos à utilização de agrotóxicos. Com base em dados dos Estados Unidos, foram classificados os 30 maiores riscos no critério do número de mortes por ano, com o número 1 sendo o maior número de mortes, e o número 30, o menor. Os agrotóxicos foram classificados no número 28, atrás de conservantes de alimentos (27), eletrodomésticos (15), natação (7), além de fumo e álcool (1 e 2, respectivamente). No entanto, a percepção do público era muito diferente. As mulheres os classificaram como número 9 na lista, enquanto os estudantes universitários os colocaram como número 4. Ambos os grupos classificaram erroneamente os riscos relativos apresentados por uma lista dos perigos, talvez devido à publicidade negativa que os agrotóxicos recebem.

No Brasil, não é diferente. De acordo com dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), ligado ao Ministério da Saúde, os agroquímicos foram responsáveis por somente 4,53% dos 42.127 casos de intoxicação humana por agentes tóxicos em 2013 (último dado disponível). Importante destacar que, dos 1.907 casos envolvendo os defensivos agrícolas, 971 foram tentativas de suicídio, ou seja, mais da metade dos incidentes não está relacionada com o seu uso na agricultura. Outro ponto que chama a atenção é que, entre as 971 pessoas que tentaram se matar ingerindo agrotóxicos, somente 64 conseguiram. Os números do Sinitox indicam ainda 621 acidentes individuais e outros 214 casos de intoxicação ocupacional por agroquímicos, com apenas sete óbitos registrados. Não existe nenhum caso de intoxicação por resíduos de pesticidas nos alimentos.

O perigo de verdade está em casa e na maioria dos casos é ignorado. Ainda de acordo com as informações do Sinitox, a principal causa de intoxicação no Brasil são os medicamentos. Foram quase 12 mil casos apenas em 2013 (28,45% do total), sendo 4.800 acidentes envolvendo automedicação. Outra ameaça são os saneantes domissanitários, também conhecidos como produtos de limpeza, com 3.601 casos (8,55%). O que fazer diante dessa situação? Proibir a venda de remédios e produtos de limpeza no País? Se seguirmos a lógica dos que defendem o banimento dos agrotóxicos, a resposta é sim. Na prática, como sabemos, esses produtos nunca serão proibidos. O mesmo vale para os agrotóxicos.

Existem inúmeros motivos pelos quais os pesticidas não podem ser retirados do mercado — ao menos até que se descubram defensivos biológicos tão eficazes quanto os químicos. Dois deles, no entanto, são suficientes para ilustrar o cenário atual e ajudar o nobre leitor a tirar as suas próprias conclusões. O primeiro diz respeito à representatividade. A maioria esmagadora dos consumidores busca alimentos bonitos, grandes, sem manchas nem furos. Os orgânicos, em geral, nem sempre cumprem esses requisitos, apesar de custarem até 270% mais. No Brasil, a relação custo-benefício faz com que 99% das pessoas optem pelos convencionais. Divulgados pelas celebridades e cobiçados pelos consumidores de alto poder aquisitivo, os orgânicos não passam de produtos de nicho, geralmente vendidos em feiras descoladas, empórios ou supermercados chiques. Mesmo nos países onde o segmento de orgânicos é mais desenvolvido, como a Dinamarca, a participação desses alimentos nas vendas totais não chega a 8%.

Outro fator que tem ajudado a desconstruir o discurso dos detratores é a falta de evidências científicas que comprovem a superioridade, seja em termos nutricionais ou de segurança alimentar, dos alimentos orgânicos. Em 2012, um grupo de pesquisadores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, divulgou uma revisão detalhada de 237 estudos comparativos entre alimentos orgânicos e convencionais publicados em todo o mundo nas últimas quatro décadas. A conclusão foi que, apesar de mais caros, os orgânicos não eram mais nutritivos nem mais seguros do que seus similares produzidos de forma convencional. “Quando iniciamos este projeto, nós imaginávamos que encontraríamos alguns resultados que confirmassem a superioridade dos produtos orgânicos sobre o alimento convencional”, disse Dena Bravata, pesquisador responsável pelo trabalho, em entrevista ao jornal The New York Times. “Nós ficamos totalmente surpresos com os resultados.”

Apesar da avalanche de notícias exaltando os benefícios dos orgânicos, quando submetidos a testes laboratoriais sérios, esses alimentos quase nunca conseguem comprovar as suas vantagens. Em 2016, o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), entidade vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, fez uma revisão de milhares de trabalhos científicos comparativos publicados em todo o mundo desde os anos 1950. O resultado? Mais uma vez os produtos orgânicos e os convencionais foram considerados tecnicamente iguais.

De acordo com os autores do trabalho, existem hoje em dia dois argumentos principais que sustentam todo o discurso dos defensores dos orgânicos — ambos puramente ideológicos. O primeiro é a ideia de que os vegetais cultivados sem pesticidas seriam mais saudáveis pelo simples fato de não conterem aditivos artificiais ou resíduos químicos, mesmo estando em conformidade com a legislação. Essa alegação faz com que os consumidores tenham a falsa impressão de que os orgânicos são mais seguros para o consumo. O segundo mito é o de que esses produtos teriam qualidade superior em função do sistema de produção agrícola, o que induz o consumidor a acreditar que as frutas e hortaliças orgânicas são superiores quanto às características nutricionais e sensoriais. “Ambos os argumentos contribuem fortemente para que tais produtos possam ser precificados com valores acima dos produtos convencionais, trazendo prejuízos para os consumidores e também aos produtores. Na maioria das revisões, revisões sistemáticas, metanálises e artigos, não foram encontradas diferenças significativas na qualidade nutricional e sensorial de alimentos produzidos em sistemas orgânicos comparativamente àqueles produzidos em sistemas convencionais, o que permite afirmar que orgânicos e convencionais são iguais nesses quesitos”, afirma o relatório do Ital.

Ainda assim, seja por desconhecimento científico, seja como consequência da avalanche de notícias negativas relacionadas ao assunto, a questão dos resíduos de agrotóxicos nos alimentos segue atormentando os consumidores. Um dos principais responsáveis pelo cenário atual de insegurança é o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), um trabalho de avaliação dos vegetais à venda no País realizado pela Anvisa há quase duas décadas, mas que só ganhou notoriedade depois de 2008, quando passou a servir de fonte para publicações sensacionalistas sobre a qualidade dos alimentos vendidos no Brasil. Graças a uma série de divulgações deturpadas, que colocava produtos com agrotóxicos acima do limite ao lado de outros flagrados pelo uso de substâncias não regulamentadas para a cultura (o que não traz nenhum risco à saúde), foram criados vilões da alimentação, como o pimentão, o mais famoso deles.

Em uma de suas divulgações mais polêmicas, a Anvisa afirmava que mais de 92% dos pimentões estariam “intoxicados” por resíduos de agrotóxicos, fato destacado pelo então ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que fez questão de elevar o tom de alarmismo: “Já mandei tirar o pimentão lá de casa”, disse aos jornalistas presentes. A notícia, evidentemente, ganhou as manchetes dos principais jornais no Brasil, mas não deixava claro para o consumidor que apenas 6,8% das amostras (um número elevado, é verdade, mas muito distante dos 92% divulgados) estavam, de fato, impróprias para o consumo humano por conterem resquícios de pesticidas acima do Limite Máximo de Resíduos (LMR) estabelecido pela Anvisa. Todas as outras amostras constavam como irregulares devido ao uso de inseticidas registrados apenas para uso em lavouras de tomate, mas que são eficazes e amplamente utilizadas no pimentão. Neste caso, trata-se de um problema estritamente burocrático. Na última avaliação do Para, concluída em 2016, com nova metodologia e divulgação menos ideológica, ficou comprovado que 99% dos alimentos avaliados estavam próprios para consumo.

Aí você me pergunta: mas e aquele 1% considerado irregular? Mesmo sendo um percentual pequeno, esses alimentos acabam na mesa dos brasileiros. Não pode fazer mal? Na teoria, até pode. Na prática, porém, é muito difícil que algo aconteça, já que os níveis de resíduos de agroquímicos atualmente tolerados pela Anvisa são extremamente baixos. O exemplo do pimentão nos ajuda a entender melhor como esse cálculo funciona na prática. Uma das substâncias químicas mais detectadas nas análises do Para, o clorpirifós é um inseticida cuja Ingestão Diária Aceitável (IDA) é estipulada em 0,01 mg/kg de peso corporal. No caso de um homem de 85 quilos, portanto, a IDA é de 0,85 miligramas ao dia. Já o Limite Máximo de Resíduos para o clorpirifós no pimentão é de 0,04 mg/kg, o que significa que seria necessário ingerir pouco mais de 21 quilos (0,85 dividido por 0,04) de pimentão “contaminado” por clorpirifós no limite máximo, todos os dias, por toda a vida, para sofrer uma intoxicação crônica – algo que, convenhamos, nunca vai acontecer.

Mesmo supondo que uma pessoa de 85 kg consiga comer quase um quarto do seu peso corporal somente em pimentões em apenas 24 horas, essa experiência dificilmente passaria do primeiro dia, já que ela muito provavelmente teria problemas causados pela ingestão de outras substâncias presentes no vegetal, como o magnésio – elemento químico natural que aparece em uma proporção de 110 mg/kg do produto. Em 20 quilos de pimentão, são nada menos do que 2.200 miligramas de magnésio, ou dez vezes mais do que a dose letal média estimada para esse ingrediente, mais do que o suficiente para uma intoxicação aguda. Agora, me diga, quanto pimentão você come diariamente? Entre os brasileiros, a média de consumo é de apenas 4,6 gramas por dia. Portanto, fique tranquilo. Você não vai morrer por causa dos eventuais resíduos de agrotóxicos na sua comida.

Texto publicado originalmente na edição #05 de PLANT (jul/ago 2017)

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