Orgânicos: produzir ou não produzir, eis a questão

Faltam escala e cadeias produtivas estruturadas para que eles deixem de ser só um lucrativo nicho

“Se nossa floresta tem mesmo valor para o mundo, por que o Brasil não é reconhecido e recompensado como grande guardião desses recursos?”

Caio Penido, ativista agroambiental e empresário, Top Farmer Sustentabilidade 2018


Edição 5 - 13.02.18

Por Denize Bacoccina

O bilionário americano Jeff Bezos é um empresário ousado, que consegue enxergar tendências e criar novos mercados. A Amazon, fundada por ele nos anos 1990, tornou-se a maior livraria do mundo, transformando o mercado a ponto de provocar o fechamento em massa das lojas físicas. Depois expandiu-se para outras áreas do comércio eletrônico, abalando cada mercado em que põe os pés. Há alguns anos, ele comprou e reergueu o lendário jornal The Washington Post e, mais recentemente, lançou um serviço de vídeos sob demanda para concorrer com Netflix e Apple. Uma das mais recentes ousadias de Bezos foi a entrada no varejo de alimentos. Como sempre, usou uma porta surpreendente. Por nada menos que US$ 13,7 bilhões, comprou a cadeia de supermercados Whole Foods, com 460 lojas nos Estados Unidos e forte posicionamento em orgânicos e na chamada comida saudável e de qualidade. Habituado a antecipar tendências, ele moveu-se em direção a um mercado que cresce em todo o mundo. Bezos apontou seus bilhões para um consumidor mais preocupado com seu corpo e que busca o máximo de informações sobre os alimentos que consome. O bilionário também indicou que, nos próximos anos, muita coisa deve mudar no mundo dos orgânicos — que, a despeito de todo o barulho gerado por seus defensores, está longe de ganhar escala suficiente para tirá-lo da condição de nicho.

É bom prestar atenção nos movimentos de Bezos. Cada passo seu a partir de agora preocupará gigantes do varejo como Walmart. Pode, da mesma forma, provocar efeitos nas lavouras em todo o mundo, gerando demanda e abrindo oportunidades para quem busca formas de produzir orgânicos em larga escala. Esteja certo: o debate em torno da produtividade e dos benefícios reais desses produtos em relação aos convencionais deve esquentar. Um dos poucos consensos hoje em torno do tema é o de que haverá mais oferta de produtos orgânicos e, portanto, mais opções nas gôndolas dos supermercados. No Brasil, essa certeza promove ações em empresas mais antenadas, que agem para ganhar espaço na sacola de consumidores em busca de produtos alternativos. Fabricantes de refrigerantes lançam linhas de bebidas com menos açúcar e até de sucos naturais, cadeias de fast-food incluem saladas nos cardápios e companhias aéreas distribuem bolachinhas integrais em seus voos.

Assista ao vídeo do primeiro episódio da série Top Farmers: Orgânicos, com Pedro Paulo Diniz

Esse novo consumidor cozinha mais em casa e, quando vai a restaurantes, opta por cardápios mais saudáveis. No supermercado, lê os rótulos em busca de dados nutricionais. Não à toa, produtos ligados a saúde e bem-estar são uma das tendências do varejo para 2017, segundo pesquisa da consultoria Bain & Company. Grupos como Unilever, Nestlé (leia quadro ao longo dessa reportagem) e Kraft, líderes globais na produção de alimentos, devem ampliar seus investimentos nessa área e buscar fornecedores nas fazendas do mundo todo.

O prato está cheio para o setor de orgânicos que, atendendo a essa demanda, cresce em média 25% ao ano desde 2009 – enquanto o faturamento total dos supermercados aumentou 7,1% no ano passado, 0,8% em termos reais. Apesar disso, o segmento ainda representa apenas 1% do mercado brasileiro de alimentos, com um giro estimado em R$ 3 bilhões no ano passado – incluindo a produção agrícola, o varejo e as vendas em feiras locais. Em todo o mundo, os orgânicos movimentam cerca de US$ 85 bilhões. Nos Estados Unidos já respondem por 3% do mercado de perecíveis. Dados do Instituto de Pesquisa de Agricultura Orgânica (FiBL) mostram que em 2015 havia 2,4 milhões de produtores de orgânicos em todo o mundo, 7,2% mais do que no ano anterior. A área destinada a essas lavouras somava 50,9 milhões de hectares, uma alta de 14,7% sobre 2014. Na União Europeia, a agricultura orgânica ocupa 11,2 milhões de hectares, o equivalente a 6,2% de toda a área agricultável da região. No Brasil, o número de produtores mais que dobrou entre 2013 e 2016, de 6,7 mil para 15,7 mil, principalmente por causa da adesão de agricultores familiares a programas de incentivo adotados nos últimos anos, como compras locais para merenda escolar e financiamentos. Apesar do crescimento, a parcela de terras dedicadas à agricultura orgânica ocupa 750 mil hectares, apenas 0,3% do total.

Joe Valle, da fazenda Malunga

Uma fatia muito pequena, mas que pode expandir, a julgar pela crescente demanda do consumidor. Uma pesquisa feita pela GfK para a Associação Paulista de Supermercados (Apas) mostra que 48% dos brasileiros consideram importante o uso de ingredientes orgânicos. Outro estudo, realizado pela Organis, entidade que reúne produtores e indústrias do setor, indica que apenas 15% dos compradores ouvidos haviam comprado orgânicos nos 30 dias anteriores à pesquisa, embora 84% tenham declarado que gostariam de consumir esses produtos. Ou seja, ainda existe uma distância grande entre o que o consumidor considera importante e o que ele faz quando vai às compras.

O que falta para que o mercado brasileiro deixe de ser um nicho e torne-se um segmento importante da produção agrícola e da indústria alimentícia – e também de higiene, cosméticos e limpeza? É possível ganhar escala para que os preços deixem de ser um obstáculo? Entre os que já consomem, os fatores limitadores para a ampliação das compras são o preço (62%) e falta de locais de venda próximos (32%). Entre os que não consomem, 41% citam o preço como impeditivo para mudar seus hábitos. Como ampliar a oferta para supermercados de todo o País? Para alguns, o mercado está destinado a se manter como um lucrativo nicho. Mas a experiência em outros países mostra que ainda há muito espaço para crescer.

DOIS ESTÁGIOS

O mercado de orgânicos no Brasil se divide basicamente em dois, com estágios de maturação bem diferentes. O de hortifrútis está avançado e as hortaliças, principalmente, são facilmente encontradas e com preços bem próximos aos dos produtos convencionais. Já o volume de grãos ainda é muito pequeno, o que acaba impactando também o mercado de carnes, porque os criadores têm dificuldade em encontram milho e soja orgânicos como insumos. As grandes empresas do setor ainda não foram atraídas para a novidade. E esse é justamente o gargalo para um crescimento mais acentuado. Companhias como Monsanto, por exemplo, ainda não se interessaram – pelo menos não com suas marcas principais e seu poderio de distribuição. Outras, como Cargill, já trabalham com orgânicos fora do Brasil, mas ainda não trouxeram seus insumos para o País. Uma das poucas a fazer isso foi a holandesa Bejo. No Brasil há 15 anos, será a primeira fabricante de sementes a vender suas variedades orgânicas por aquil – outros fornecedores, como a Korin Agropecuária, atuam em menor escala. A empresa certificou variedades produzidas na França e Holanda e está importando o primeiro lote de sementes de hortaliças, que serão vendidas em uma loja on-line, por um preço 20% a 50% maior do que o convencional. “Percebemos que o orgânico vem crescendo muito e, quando a lei obrigou a usar sementes orgânicas, vimos que havia aí uma oportunidade”, diz o gerente comercial da Bejo no Brasil, Ricardo Góes. Na prática, a lei já foi flexibilizada e os certificadores aceitam alimentos originários de sementes convencionais, desde que não tenham recebido aplicação de agrotóxicos.

Luiz Carlos Demattê, diretor do da Korin e do Centro de Pesquisas da Fundação Mokiti Okada (Foto: Claudio Gatti)

Na avaliação dos cientistas que atuam na área, falta pesquisa para mostrar as vantagens de cada tipo de cultivo e para desenvolver tecnologias e maquinários que elevem a produtividade e a competitividade dos orgânicos. E isso acontece justamente porque as grandes empresas não investem no segmento. “O convencional e o transgênico se desenvolveram através das grandes multinacionais, porque em todo o mundo são elas que financiam a pesquisa”, diz Luiz Carlos Demattê Filho, coordenador-geral do Centro de Pesquisas da Fundação Mokiti Okada, que homenageia um dos precursores da agricultura natural, no Japão, ainda no século 19. Demattê, que também é presidente da Câmara Temática de Orgânicos do Ministério da Agricultura, diz que no caso dos grãos, além da falta de sementes e de pesquisas, há uma dificuldade adicional: a ausência de uma cadeia completa, que já existe e funciona muito bem no convencional e no transgênico, com fabricantes e traders que financiam a produção e garantem a compra da safra. As grandes empresas vendem sementes e insumos com financiamento, garantem a compra a pagam antecipado pela safra, formando uma cadeia da qual o produtor acaba se tornando dependente e não vê motivos para deixar. Afinal, o grão orgânico vale um pouco mais, mas não o suficiente para abrir mão da segurança de um sistema que oferece também assistência técnica. “Convencer o produtor a fazer o processo de transição é difícil. Ele já vem numa pedalada financeira de safra e não consegue esperar um ano para fazer os ajustes no campo e mudar”, diz Ming Liu, presidente da Organis, entidade que representa 48 associados de todos os elos da cadeia. A falta de grãos, por sua vez, impacta a produção de carne orgânica. Os criadores têm dificuldade em encontrar grãos na quantidade desejada. “A cadeia de animais orgânicos depende da existência da cadeia de vegetais orgânicos”, afirma.INICIATIVAS ISOLADAS

Na falta de uma cadeia liderada pelas gigantes do setor, as pequenas e médias montaram sua própria rede. A Korin Agropecuária, maior produtora brasileira de orgânicos de origem animal, busca fazer sua parte. A empresa produz frangos, carne bovina, ovos, arroz, café, mel, e tem uma cadeia de criadores integrados para os quais fornece ração orgânica a partir de insumos comprados de parceiros que, por sua vez, receberam as sementes desenvolvidas em seu centro de pesquisa. Das 2 mil toneladas de milho que usa por mês, a Korin compra até 5% do tipo orgânico, que usa para alimentar o frango orgânico. Teria demanda para ampliar a produção para 30% do total, se tivesse mais grãos. “Não conseguimos aumentar por falta de ração”, diz o diretor da empresa, Reginaldo Morikawa. Para estimular o mercado, a Korin também vende sementes não transgênicas e insumos como o Fert Premium Bokashi, um fertilizante natural que aumenta a produtividade em 25% a 30% e reduz a necessidade de insumos em 50%. Ainda assim, a colheita é menor do que com o milho transgênico, o que acaba desanimando muitos agricultores, pois a diferença de preço é de apenas 5%. “O produtor tem que estar no espírito de mudança, não só pelo aumento do preço”, diz Morikawa.

Ming Liu, Presidente da Organis (Foto: Claudio Gatti)

Algumas experiências bem-sucedidas, no entanto, mostram que é possível ganhar escala e se tornar referência, pelo menos em alguns setores. A Native, maior fabricante de açúcar e álcool orgânicos do mundo, produz 113 mil toneladas de açúcar por ano e responde por 28% da produção mundial. De Sertãozinho, no interior de São Paulo, exporta para 67 países. A empresa, subsidiária do Grupo Balbo, foi criada em 2000, mas o embrião começou em 1987, quando Leontino Balbo Jr., hoje diretor agrícola da companhia, decidiu mudar a técnica então utilizada de queimar a cana antes da colheita e cortar a cana verde, deixando a palha residual no solo como adubo, além de não usar insumos químicos na fertilização do solo. O resultado é que, hoje, além do ganho de 27% na produtividade, a Usina São Francisco tornou-se uma ilha de biodiversidade, com 348 espécies de vertebrados, servindo de morada para espécies que vão de gato-do- mato a onça-parda. Para completar a linha, que tem mais de 40 itens e está presente em 20 mil pontos de venda, a empresa faz parcerias com outros produtores e entrega sucos, achocolatados, cereais matinais, azeites e bebidas de soja, que são acompanhados desde a produção e levam a marca Native. Assim, cria sua própria cadeia de fornecedores e estimula o mercado. “Temos um novo perfil de consumidor no mercado, e ele quer produtos que sejam sustentáveis do ponto de vista ético, ambiental e econômico”, diz o gerente comercial, Helio Silva.

A Native foi uma das inspirações do empresário Pedro Paulo Diniz para criar a Fazenda da Toca, que também busca o desenvolvimento de um modelo agroecológico em escala para a produção (leia reportagem da série Top Farmers na pág. 58), mas tem consciência de que isso pode ainda levar algum tempo para ser obtido. “Não é de hoje para amanhã. É preciso trabalhar numa transição”, afirma Diniz. Há empresas fazendo essa transição em praticamente todas as culturas. No café, por exemplo, que já desenvolveu um modelo de marcas com valor agregado, há várias experiências nas principais regiões produtoras, como a Alta Mogiana, em São Paulo. A família Minamihara, tradicionais cafeicultores de Franca, hoje são referência na produção de grãos especiais orgânicos, colhidos de plantas cultivadas sob a sombra de abacateiros. Projeto semelhante é utilizado hoje para viabilizar a cafeicultura no estado americano da Califórnia (leia na pág. 78). No algodão também há agricultores investindo no nicho, mas a produção orgânica no Brasil é de apenas 22 toneladas de plumas, quase nada diante da produção nacional total, de 1,2 milhão de toneladas.

Lobo em meio a canavial da Usina São Francisco, da Native: lavoura voltou a abrigar biodiversidade

Assim, maior visibilidade acaba ficando mesmo em segmentos específicos da indústria de alimentos, com empresas como a Jasmine, outra que cresceu a partir da formação de uma rede de fornecedores. Criada em 1990 pelo casal Christophe e Rosa Allain como uma opção para oferecer produtos saudáveis, desde 2014 integra o grupo francês Nutrition&Santé, líder em alimentação saudável no mercado europeu e subsidiária da japonesa Otsuka Pharmaceutical. Com uma linha de 150 itens, os orgânicos respondem por 10% do portfólio, que tem ainda integrais, sem glúten e zero açúcar. “Incentivamos a cadeia de produção por meio de certificações e associações”, diz o CEO da Jasmine, Jean-Baptiste Cordon. “E mantemos contratos de longo prazo com os fornecedores para garantir a saúde dos negócios.” Em junho, durante a feira de orgânicos Biofach, em São Paulo, a empresa anunciou um programa de aceleração de projetos nas áreas de food tech, educação alimentar e soluções de design para alimentação saudável.

OPORTUNIDADES

Leia também: Pedro Paulo Diniz, da Fazenda da Toca, o Top Farmer 2017 na categoria Orgânicos

É no varejo, no entanto, que as mudanças estão mais aceleradas. De olho no mercado em expansão, três novas casas foram abertas na capital paulista nos últimos meses. Em Brasília, onde o mercado de orgânicos está mais consolidado, já existem 42 feiras de venda direta do produtor, além de inúmeros empórios e boas seções de orgânicos nos supermercados. O vice-presidente do Sindicato dos Produtores Orgânicos do Distrito Federal e fundador e diretor financeiro da Agro-orgânica, que reúne os produtores do Cerrado, Eber Diniz Alves de Lima, dá a receita. “Conseguimos criar um sistema em que o produtor só se preocupa com o cultivo e fazemos todo o restante”, diz ele. A associação recolhe o produto nas lavouras e leva para as feiras, permitindo que o agricultor permaneça cuidando da plantação. Com uma maior organização da cadeia, a parcela dos orgânicos na capital do País é de 2%, o dobro da média nacional. Somente a Fazenda Malunga, uma das pioneiras na produção de hortifrútis e laticínios orgânicos em larga escala, produz 5 toneladas de hortaliças e 900 litros de leite por dia, e está disponível na rede Pão de Açúcar e em outros supermercados da região, além de uma loja própria.

A expansão do mercado de varejo, não apenas com lojas especializadas, mas com o aumento do espaço dedicado às categorias de orgânicos e saudáveis nos supermercados, foi o que motivou o empresário Alberto Gonçalves Neto a criar uma startup de distribuição de produtos orgânicos e saudáveis, a Mondial Brands. Ele montou a empresa há quatro anos, como distribuidora de itens premium, como café gourmet. “Em 2015, quando começamos a distribuir a linha da Fazenda da Toca, vimos a oportunidade de mercado e pivotamos para orgânicos”, diz Gonçalves. Com atuação no atacado, com entrega para supermercados e compradores institucionais, como hotéis e escolas; e no varejo, por meio de uma loja on-line, a empresa faturou R$ 1,6 milhão no ano passado e está em busca de novos investidores para dobrar a receita neste ano.

NÃO É PARA TODOS

As oportunidades de mercado não significam, no entanto, que a produção orgânica seja a melhor opção para todos os produtores. É preciso ter certeza de que se está bem amparado tecnicamente, já que vai sair da receita oferecida pelas grandes fornecedoras de insumos. Como diz o consultor de Tecnologia da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Reginaldo Minaré, quem pode responder se vale a pena é a planilha. “É preciso fazer os cálculos e ver se os custos, que podem ser mais altos, serão compensados na hora de vender a produção”, alerta Minaré. Para fechar essa conta, diz ele, é preciso ter um contrato de venda do produto, com um preço vantajoso. Sem essa garantia, o produtor corre o risco de não ver os seus custos cobertos. “O produtor não tem como dizer: amanhã vou plantar orgânico. Não é viável, especialmente para uma grande produção”, afirma. Na avaliação do agrônomo Mateus Mondin, professor do Departamento de Genética da Esalq, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a falta de escala é uma questão difícil de solucionar. “O problema é que ninguém demonstrou ainda que é capaz de produzir nesse sistema em larga escala”, diz.O paranaense Ivo Arnt Filho, presidente da Comissão Técnica de Cereais, Fibras e Oleaginosas da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) e produtor de soja em Tibagi, encontrou uma solução para ganhar mais sem se adequar totalmente às exigências dos orgânicos ou arcar com a produtividade menor imposta pela limitação dos insumos. Ele tem uma trade e exporta diretamente cerca de 5 mil toneladas para o mercado bio da Ásia – que não é transgênico nem orgânico, mas uma semente convencional produzida de acordo com práticas sustentáveis, usando de preferência insumos biológicos, mas permitindo o uso de defensivos químicos quando necessário. Para isso, ele conta com uma equipe que faz monitoramento de campo e recomendações de agroquímicos necessários a cada momento. “Tem que ter mais cuidado, mas é mais desafiante, porque eu não trabalho com uma commodity”, diz ele. O custo de produção para os plantadores de soja do Paraná, segundo ele, é menor do que o do transgênico, já que a produtividade é semelhante, enquanto o custo da semente é menor e o de venda é maior. Arnt é parte de um movimento que já ganhou força em outros países e começa a crescer no Brasil: o dos produtores que deixaram de lado a soja transgênica, por conta da rejeição do produto no mercado e dos altos custos, e voltou a plantar a semente convencional. Nos Estados Unidos, onde o mercado de soja transgênica já chegou a 90%, a participação diminuiu para 75%. “Isso já está crescendo no Brasil, os produtores já perceberam as vantagens.”

Outro fenômeno que ganha força no Brasil, impulsionado por esse novo comportamento do consumidor, é o uso cada vez maior de insumos biológicos. “O Brasil é o país que mais utiliza o controle biológico no mundo”, diz Demattê. Empresas como Bug e Promip, no interior de São Paulo, que produzem insetos para controles de pragas, estão ganhando mercado. A tecnologia também vem ajudando. Produtores de arroz, conta Demattê, estão aprendendo a manejar as áreas para ganhar produtividade e usam tecnologia de micro-ondas, em vez de inseticidas, para acabar com as pragas no arroz estocado e evitar perdas. “Existe uma ecologização do sistema de produção agrícola no Brasil, que faz com que na prática tenhamos uma produção muito maior do que esse 1%”, diz Joe Valle, fundador da Fazenda Malunga, que produz orgânicos há 30 anos. Ricardo Cerveira, diretor do Instituto BioSistêmico (IBS), tem a mesma percepção. “Pelo que eu acompanho, o mercado sustentável já passa de dois dígitos. Não é orgânico certificado, por isso está fora das estatísticas, mas já está no meio do caminho”, afirma. Deve demorar um tempinho, mas essa parece ser uma tendência sem volta: a busca dos consumidores por produtos mais saudáveis e a rejeição aos transgênicos, a exemplo do que já acontece na Europa, pode transformar profundamente o mercado num futuro não muito distante. É bom ficar de olho.

TAGS: Agricultura Orgânica, Fazenda da Toca, Korin, Native