O dia em que a carne tremeu

O ex-ministro Francisco Turra e os momentos em que o “fogo amigo” colocou o setor em perigo


Edição 4 - 13.10.17

A carne brasileira tem vários concorrentes de peso no mercado internacional, onde as disputas, muitas vezes, ultrapassam os limites da ética comercial e diplomática. É um jogo difícil de conquista de territórios, travado durante décadas de trabalho árduo, sujeito a ataques e reveses frente a rivais poderosos. O que ninguém esperava, porém, é que um dos piores atentados à indústria verde-e-amarela de alimentos viesse de dentro das fronteiras nacionais. Na manhã de 17 de março deste ano, o inusitado “fogo amigo” despencou sobre o setor na forma de uma grande operação policial ironicamente batizada com o nome de “Carne Fraca”. A divulgação da operação de certo modo generalizou problemas encontrados em menos de 0,5% dos frigoríficos nacionais e transmitiu ao País – e ao mundo – a impressão de que a indústria brasileira fornecia aos consumidores internos e estrangeiros “carne podre”. Pelo menos foi isso que uma parte da imprensa menos familiarizada com o agronegócio e as quase sempre agressivas redes sociais espalharam aos quatro ventos nos dias que se seguiram ao anúncio da Operação Carne Fraca. A reação do setor, no entanto, foi imediata e exitosa – um “case” bem-sucedido de “gestão de crise” que merece ser estudado nas universidades de agora em diante.

Na linha de frente do contra-ataque, uma voz conhecida do agronegócio brasileiro fez-se ouvir na batalha em defesa do produto nacional. O ex-ministro da Agricultura Francisco Turra, atual presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) foi para diante dos holofotes – juntamente com outras entidades do setor, como a Abiec, e o Ministério da Agricultura – explicar aos brasileiros e ao mundo o que de fato estava acontecendo. Com transparência, sem negar os problemas efetivamente encontrados, mas ao mesmo tempo mostrando, com números e dados concretos, que 99,5% do sistema operava corretamente, o gaúcho parecia remoçado ao alistar-se nessa batalha. Colocou-se em tempo integral à disposição dos veículos de comunicação, das autoridades e dos compradores da carne brasileira no exterior para demonstrar que a indústria nacional conquistou cerca de 160 mercados internacionais e transformou o Brasil no maior exportador mundial de carnes em pouco mais de duas décadas graças à sanidade e à excelência de seus produtos. O resultado desse embate foi que a reversão da crise começou já nos dias seguintes.

No depoimento a seguir, feito ao jornalista Irineu Guarnier Filho, Turra narra, em detalhes, o que viu, sentiu e como reagiu aos acontecimentos do inesquecível “dia em que a carne tremeu”.

UMA DOENÇA CHAMADA DESINFORMAÇÃO

“Na sexta-feira, dia 17 de março, eu estava em Montevidéu, no Uruguai. Participava de um encontro que tinha como objetivo prevenir a ocorrência de outra crise, a sanitária. Era um evento sobre Influenza Aviária, em que nós, pela ABPA, lideramos uma articulação com os países do Cone Sul com o objetivo de tratar da intensificação da vigilância sanitária. O Brasil é o único grande produtor mundial que nunca registrou casos da doença — e isto nos coloca em vantagem no mercado internacional. À luz de nosso modelo de prevenção e articulação anticrise sanitária, representantes da Argentina, do Uruguai, do Paraguai e de outros países estiveram conosco, tratando de um debate amplo e conjunto entre as cadeias produtivas para evitar aquele que, à época, imaginávamos ser o mais grave problema que poderia nos acontecer.

Com o presidente Michel temer e o ministro Eliseu Padilha no Palácio do Planalto: porta-voz dos produtores de proteína animal (Foto: Marcos Corrêa/PR)

Não imaginava que o que estava por vir geraria uma crise muito maior. Naquela manhã, a ‘doença’ que atacaria nosso setor seria muito maior, mais grave e com efeitos mais avassaladores do que jamais pensamos. A doença se chama desinformação.
Quando soube o que estava havendo na Operação Carne Fraca, repentinamente me veio à cabeça que os dez anos de luta para aumentar consumo, abrir mercados, fortalecer o setor, estavam ameaçados. Falo dez anos apenas pela ABPA, já que praticamente toda a minha vida pública foi dedicada ao desenvolvimento do agronegócio.”

UM DOS MAIORES ATENTADOS À INDÚSTRIA DE ALIMENTOS

“A desastrosa coletiva de imprensa realizada às 10h, em Curitiba, traria prejuízos inimagináveis para a cadeia de proteína animal do Brasil. Feita com as intenções iniciais corretas – o combate à corrupção –, a deflagração da Operação Carne Fraca e a sequência de informações equivocadas divulgadas se transformaram em um dos maiores atentados à indústria brasileira de alimentos. Esse ataque causaria prejuízos bilionários em um curtíssimo espaço de tempo. E ainda não temos como prever quando cessarão seus efeitos.

Naquela, recebi a informação sobre a operação por minha equipe já logo após a divulgação, por volta das 7h. Ainda estávamos no escuro, não se sabia ao certo o que estava em jogo. Ainda pela manhã, quando tivemos acesso ao despacho que determinou a operação, ficou claro, para nós, que se tratava de casos isolados, com poucos personagens e uma parcela ínfima da produção. Dessa forma, pouco depois das 8h, emitimos nosso comunicado à imprensa – o primeiro do setor. Nele, expusemos nossas convicções, que se confirmaram depois. Em primeiro lugar, que eram fatos isolados. Em segundo, que somos auditados não apenas pelo Ministério da Agricultura, mas pelos 160 países para os quais exportamos. Por fim, que nossas instituições são sólidas, e que temos absoluta confiança no trabalho do poder público e da iniciativa privada. Foram cinco décadas de trabalho até chegarmos à liderança mundial das exportações de carne de frango e o quarto lugar nos embarques de carne suína.
Imediatamente, articulamos com todos os nossos associados e entidades estaduais os pontos de esclarecimento, e alinhamos a canalização das demandas de imprensa, clientes e tudo mais para a ABPA. Naquele momento, cumpríamos a missão de escudos do setor.”

GRUPO DE CRISE NO WHATSAPP

“É fato que, após a divulgação da Operação Carne Fraca, minha participação no evento uruguaio ficou absolutamente comprometida. Retornei imediatamente ao Brasil. A equipe de mercados, técnica e de comunicação da ABPA se debruçou sobre a investigação e sobre as informações divulgadas pela operação. Enxergamos a gravidade dos equívocos pontuados, como o uso de ácido ascórbico – a famosa vitamina C, sugerida como cancerígena. Mais tarde, a exposição dos detalhes da operação deixou claro o baixo uso de conhecimento técnico, com apenas um laudo utilizado. Os próprios peritos federais manifestaram sua indignação com os procedimentos adotados pela operação no que diz respeito às análises.

“Quando soube da Operação Carne Fraca, repentinamente me veio à cabeça que os dez anos de luta para aumentar consumo, abrir mercados, fortalecer o setor, estavam ameaçados”

Meu telefone não parou ao longo do dia, exceto enquanto estive em voo. O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, o grande líder desta virada em prol da proteína animal do Brasil, não estava em Brasília no momento, então contatei o secretário executivo do Mapa, Eumar Novacki. Debatemos a importância de uma coletiva de esclarecimento sobre os fatos por parte do ministério. A coletiva aconteceu no mesmo dia, às 16h.

Junto com o Mapa, a Abiec e outros envolvidos na questão, criamos um grupo de crise no WhatsApp. A ferramenta digital deu fundamental agilidade à nossa comunicação e alinhamento nesse processo. Lá, esclarecimentos ficaram mais sólidos e alinhados entre setor público e iniciativa privada.”

O MASSACRE NAS REDES SOCIAIS

“Nas redes sociais, era um massacre. A primeira onda de informação era o sensacionalismo. Nosso posicionamento na imprensa foi fundamental para agilizarmos o início do processo de esclarecimento. Naquela sexta-feira, entretanto, havia muito ódio causado pela desinformação. De ofensas pesadas até ameaças de morte, as mais absurdas manifestações ganharam corpo ao longo do dia.

O lado sensacionalista da imprensa estava a todo vapor, com especialistas dos mais variados perfis convidados a se manifestar – todos, menos aqueles com perfil técnico. Diversos veículos adotaram o tom do sensacionalismo, taxando a produção brasileira como ‘carne podre’. A partir dessas publicações, a imprensa internacional reproduziu o mesmo discurso.

Não era ainda o momento de um rosto vir a público. Era preciso esperar baixar a histeria e a agressividade para que as manifestações públicas de esclarecimento ganhassem efetividade. Isto só foi possível no sábado.”

MOMENTO DE DEFENDER O SETOR

“No sábado, demos início às aparições na imprensa nacional. Meu discurso foi convicto: não se tratava mais, apenas, de esclarecer os absurdos divulgados e trazer segurança ao consumidor. Era o momento de defender o setor de proteína animal, que gera 4,1 milhões de empregos diretos e indiretos, que contribui de forma determinante para a segurança alimentar do Brasil e do mundo, que gera riquezas e divisas para o País, que faz girar a economia dos pequenos municípios, que mantém o sustento de famílias em meio à maior crise econômica de nossa história.

“Minhas noites de sono foram rasas nas semanas posteriores ao 17 de março. Deverão continuar assim nos próximos meses”

Esse foi o meu discurso, essa é a ideia que defendi e que levei para Brasília, no domingo, em nosso encontro com o ministro Maggi, que, imediatamente, na sexta-feira, saiu de seu afastamento para liderar a virada, com o presidente da República, Michel Temer, e com os outros elos envolvidos, como a própria Polícia Federal.

Foi um momento forte, fundamental, de engajamento e apoio total do Governo Federal ao setor. Ainda no domingo à noite, demos início àquele que consideramos o grande momento de virada para o setor produtivo: a coletiva de imprensa que realizaríamos na segunda-feira de manhã.”

A VIRADA DO JOGO

“Após uma reunião de equipe, demos início, às 10h30, à nossa coletiva. Mais de 70 veículos da imprensa nacional e internacional estavam conosco. Realizamos o evento em conjunto com o Antônio Camardelli, presidente da Abiec. Durante quase duas horas de entrevista – transmitida ao vivo por diversos canais de televisão –, esclarecemos ponto a ponto. Destacamos nossa posição a favor do combate à corrupção, mas fomos incisivos quanto à importância do pleno esclarecimento de que não poderia jamais ter entrado em julgamento a qualidade de nossa proteína animal. Não somos líderes por acaso. Além das auditorias públicas, recebemos milhares de missões privadas em nossas agroindústrias. Nossa qualidade sempre foi um diferencial que permitiu não apenas sermos líderes mundiais nas exportações, como gerar impactos econômicos e sociais primordiais para a nação. A ideia principal: que se separe o joio do trigo.

O jogo, naquele momento, virava de forma expressiva. Ao longo das duas semanas seguintes, o trabalho prosseguiu com a imprensa nacional e internacional. Ao mesmo tempo, nossas equipes técnica e de mercados faziam uma varredura junto aos clientes internacionais, prestando os esclarecimentos necessários. Da mesma forma, levantavam todo o subsídio necessário para dar suporte ao trabalho realizado pelo Ministério da Agricultura, que fez cessar quase todos os embargos totais que nos foram impostos.

Já no início da semana, a Coreia do Sul retomou os embarques. Novas boas notícias chegaram no sábado seguinte, vindas da China, do Egito e do Chile. No início da outra semana, foi a vez de Hong Kong.”

CONFIANÇA DOS CONSUMIDORES

“Naquele momento se encerrava a primeira onda de impactos da Operação Carne Fraca. A própria Polícia Federal, juntamente com o Mapa, emitiu uma nota de esclarecimentos. O Governo Federal foi impecável nesse processo. O jogo virou, mas os estragos estão feitos. E não foram poucos. Apenas duas empresas, conforme informações de mercado que circularam na semana em que se completou um mês desde a divulgação da operação, perderam mais de R$ 5 bilhões em valor de mercado. Exportações foram impactadas e os custos para exportar se tornaram mais elevados com a intensificação e o “pente-fino” das fiscalizações internacionais.
Nossos principais clientes se mobilizaram imediatamente em missões para vistoriar nossa estrutura. Já recebemos a Arábia Saudita, nosso maior cliente. A União Europeia, o mais influente mercado, está a caminho.

O trabalho de curto prazo se encerrou. Enquanto executávamos os esclarecimentos e acalmávamos os mercados, um novo planejamento se construiu – desta vez, com visão de longo prazo. Uma série de ações em diversos mercados-alvo estão em vista, feitos pela parceria ABPA, Aiec e Governo Federal. Enquanto escrevo este relato, nosso vice-presidente de Mercados, Ricardo Santin, participa de uma missão no Egito. Antes, estive reunido com autoridades do México e dos Estados Unidos. Temos planejado para os próximos dias outra missão, com foco no Oriente Médio, Ásia e Europa. Realizaremos um dos maiores Projeto Imagem (iniciativa em parceria com a Apex-Brasil) da história do agronegócio, cuja meta é a vinda de 50 jornalistas estrangeiros para encontros com o setor, com o Mapa e a participação em nosso Salão Internacional de Avicultura e Suinocultura (Siavs), em agosto. Nossas ações em feiras internacionais ganharão ainda mais corpo.

Com tanto trabalho, minhas noites de sono foram rasas nas semanas posteriores ao 17 de março. Deverão continuar assim nos próximos meses. A credibilidade da proteína animal brasileira foi, injustamente, impactada. Temos, agora, uma grande luta para a recuperação daquele que era um de nossos maiores patrimônios: a confiança de nossos consumidores do Brasil e do mundo. Nisto se concentrarão nossos esforços.”.

 

 

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