União para Continuar Avançando

No Brasil, o etanol estará substituindo mais de 50 porcento do consumo de gasolina, e que a oferta interna de energia supere 50 porcento de energia renovável observados em 2024. Entenda o desenvolvimento do setor sucroenergético em tempos modernos.
Edição: 53
22 de abril de 2026

Por Plínio Nastari, Presidente da DATAGRO e Sergio Balaban, Chefe de Gabinete do Senador Fernando Farias (MDB-AL)

O desenvolvimento do setor sucroenergético em tempos modernos foi marcado pela diversificação da produção de açúcar na direção do etanol com o advento do Programa Nacional do Álcool, na década de 1970. O grande desafio era, naquela época, desenvolver um mercado novo, e balancear a produção à demanda. Deslocar o tradicional consumo de gasolina pelo etanol, trouxe desafios enormes. Na Comissão Nacional de Energia (CNE), durante os anos de 1985-86, discutiu-se muito quais seriam os limites de crescimento da demanda de etanol, à luz do sucesso de mercado das vendas de veículos a etanol, que chegaram a representar 92 porcento das vendas totais de veículos de passageiros e comerciais leves nos anos 1980. Ao longo do tempo, e superando vários obstáculos e com resiliência, em 2025 o setor sucroenergético brasileiro registrou a marca de 45,6 porcento, nível que já chegou a 48,4 porcento em 2019.

Não há país em todo o mundo que tenha logrado atingir tal grau de substituição. A esse número se soma a substituição de 15 porcento do diesel fóssil por biodiesel, e o crescente uso do biogás e biometano. Um dos resultados mais marcantes da COP-30, realizada em Belém, Pará, em 2025, foi a proposta de quadruplicar a produção global de biocombustíveis sustentáveis, e o Brasil dá um enorme exemplo nessa direção.

Na década de 1980, o grande fundamento do setor de açúcar no mundo não era o Brasil, era Cuba, que chegou a produzir mais de 8,5 milhões de toneladas do produto, e era também o seu maior exportador. Na safra 1985/86, o Brasil produziu 7,82 milhões de toneladas, e exportou 2,5 milhões de toneladas. Passadas 4 décadas, em 2025/26 a produção de Cuba caiu para apenas 120 mil toneladas, e passou importar mais de 500 mil toneladas para abastecer o seu mercado interno. O Brasil deverá encerrar a safra 2025/26 produzindo 36,63 bilhões de litros de etanol, dos quais 10,04 bilhões de litros de etanol de milho, e 43,81 milhões de toneladas de açúcar, das quais 33,96 milhões de toneladas para exportação. O Brasil diversificou sua produção sucroenergética não só com o etanol, mas também com a bioeletricidade, a extração de levedura, e mais recentemente o etanol de segunda geração, o biogás e o biometano, além da venda de bagaço in natura e em pellets. Na exportação de açúcar, o Brasil responde por ¾ do volume de açúcar em bruto comercializado no mercado livre mundial, e é hoje o seu mais relevante fundamento.

Todos esses avanços foram possíveis em grande parte pela capacidade do Brasil administrar o seu mix de produção, dependendo dos preços relativos de açúcar e etanol. O Brasil sucroenergético não atua como uma força ou ação unificada. Sua ação representa a soma de decisões microeconômicas de todos agentes em mercado. Esse fato distingue o setor sucroenergético brasileiro da maior parte dos outros países produtores, que tem mercados parcial ou totalmente isolados por barreiras comerciais de importação ou, ainda, preços administrados pelos governos, o que faz com que a ação de seus produtores seja influenciada, ou determinada total ou em parte por essas políticas.

Alterações no mix de produção tem permitido aos produtores brasileiros arbitrarem os mercados de açúcar e de etanol (na verdade o preço da gasolina fixado pela Petrobras, que tende a seguir a paridade de importação, na maior parte do tempo), e consequentemente tem trazido uma maior estabilidade aos preços do açúcar no mercado internacional ao atenuar o efeito de variações no balanço de oferta e demanda causadas por questões climáticas e efeitos econômicos em outras partes do mundo. A variação no mix de produção tem sido significativa, e seu impacto na oferta dos produtos também, considerando a escala de produção atingida pelo Brasil. A variação na oferta de etanol tem sido absorvida pelo mercado de etanol hidratado, que funciona como uma esponja capaz de absorver mais ou menos volume dependendo dos preços relativos entre etanol hidratado e gasolina (misturada com etanol anidro) aos consumidores.

Figura 2. Mix de produção de açúcar e etanol (anidro + hidratado), Brasil, 2001/02 a 2025/26.

Fonte: DATAGRO.

A novidade é a crescente produção de etanol de milho, e sua relativa competitividade com o etanol de cana, visto que seu custo é basicamente determinado pelos preços do milho, dos coprodutos DDG/DDGS e óleo de milho, e da biomassa energética utilizada como energia para o processamento. A produção de etanol de milho começou modesta, com 41 milhões de litros na safra 2014/15. Em 2025/26, a DATAGRO estima uma produção de 10,04 bilhões de litros, e considerando os projetos em construção e em planejamento já anunciados projeta um volume de 27,0 bilhões de litros em 2034/35.

Algumas usinas de cana-de-açúcar tem demonstrado preocupação com esse ritmo de expansão, e a possibilidade do mecanismo de ajuste de mercado através da alteração no mix de produção perder o seu efeito. Sim, pode ser que o mix como sistema de ajuste perca parte de sua influência. Mas é preciso reconhecer que foi a expansão do etanol de milho que permitiu ao setor sucroenergético expandir a sua produção de açúcar, capturar o valor gerado com a expansão da sua exportação, ao mesmo tempo em que se manteve o volume consumido de etanol hidratado, e foi possível ampliar a mistura de etanol anidro na gasolina para 30 porcento, projetando a possibilidade de se atingir 35 porcento.

Para o etanol de milho, a competitividade depende dos créditos gerados pelo DDG/DDGS e óleo de milho, e do custo da biomassa. O desafio é manter o valor do DDG e do óleo em níveis razoáveis, à medida em que amplia a oferta, e controlar o crescente custo da biomassa, que há 6 anos era de 60 reais por metro cúbico de cavaco de eucalipto, e atualmente já chega a mais de 200 reais por metro cúbico em algumas regiões. O sucesso do etanol de milho está intimamente ligado ao sucesso das exportações de carne bovina, mercado em que o Brasil se tornou em 2025 o maior produtor e exportador mundial. A abertura do mercado da China e de outros países estratégicos, para o DDG brasileiro é, portanto, um fator a ser acompanhado.

Mas o que mais chama atenção é a possibilidade do etanol atingir novos importantes mercados, pela substituição do bunker fuel no transporte marítimo, e o seu processamento para a produção de combustível sustentável de aviação (SAF) através da tecnologia alcohol-to-jet. Neste aspecto, o mercado mais promissor e de maturação mais rápida será provavelmente o do bunker. No curto prazo, apenas uma companhia marítima internacional seria capaz de absorver 3 bilhões de litros por ano. No conjunto, é um mercado potencial de 225 milhões de toneladas, ou 281 bilhões de litros por ano.

Para que o setor sucroenergético alcance esses novos patamares será fundamental a união de esforços entre os produtores de etanol de cana e de milho, até porque o modelo de produção de etanol misto, que combina cana e milho, é muito promissor ao viabilizar o uso de bagaço e palha de cana como biomassa para a industrialização do milho, além de usar equipamentos e utilidades já disponíveis no setor de cana, ampliando a safra e reduzindo custos fixos unitários.

Não está distante, portanto, o momento em que, no Brasil, o etanol estará substituindo mais de 50 porcento do consumo de gasolina, e que a oferta interna de energia supere 50 porcento de energia renovável observados em 2024. Estes serão feitos extraordinários que irão elevar ainda mais o País como exemplo e campeão mundial na substituição de combustíveis fósseis por renováveis de baixa intensidade de carbono segundo a avaliação do ciclo de vida.

newsletter

Inscreva-se para receber nossas novidades.