O raio X das máquinas agrícolas no Brasil

Estudo inédito revela a situação da frota em operação no País e mostra os hábitos de consumo do produtor rural
Edição: 52
25 de fevereiro de 2026

Por Mário Sérgio Venditti

Pesquisa inédita traz um retrato detalhado da frota de máquinas agrícolas em operação no País. Batizado de Panorama Setorial de Máquinas Agrícolas no Brasil, o levantamento foi feito pela Boschi Inteligência de Mercado (BIM) e consolida uma série de informações sobre tratores, colheitadeiras e pulverizadores, podendo servir de ferramenta estratégica para o setor, na medida em que identifica hábitos de consumo, ciclos de renovação e demandas tecnológicas.
O estudo abrange máquinas agrícolas em culturas essenciais como milho, soja, trigo, cana-de-açúcar, café, algodão e arroz e nasceu com o intuito de compreender o presente e projetar o futuro da mecanização do agronegócio nacional. A demanda surgiu devido à falta de estatísticas confiáveis sobre a frota, ao contrário do que ocorre com automóveis, caminhões e ônibus.

Entidades que atuam no agro aplaudem a iniciativa. Para Pedro Estevão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), somente as grandes companhias tentam fazer algo parecido, mas não com a mesma profundidade. Daí a importância da pesquisa da Boschi. “O IBGE também produz um censo nesse sentido, porém somente a cada dez anos”, diz. “Dessa forma, a Boschi está prestando um serviço muito útil ao setor.”

A amostra concentrou-se em propriedades acima de mil hectares – 65% do total da pesquisa. Depois, vieram áreas de 51 a 200 hectares (18%) e de 10 a 50 hectares (17%). “Elas possuem maior número de máquinas por unidade produtiva e nosso trabalho abordou aspectos como marcas, configurações, hábitos de pós-venda, uso e ciclos de renovação”, afirma Gregori Boschi, sócio-diretor da Boschi, empresa especializada em estratégia de mercado nas cadeias automotiva e industrial.

A frota circulante chega a 1,65 milhão de unidades, com 1,35 milhão de tratores, 217 mil colheitadeiras e 82,5 mil pulverizadores

Os resultados foram coletados a partir de 700 entrevistas realizadas em todas as regiões do Brasil, durante um ano e meio de peregrinação nas propriedades e oito mil horas de levantamento. Cerca de 80% da pesquisa foi executada presencialmente e o restante de forma remota. “A maioria dos agricultores tem um comportamento avesso ao de participar por telefone”, diz Boschi. Segundo ele, o raio X das máquinas agrícolas apresenta margem de erro de 3,4 pontos percentuais e nível de confiança de 95%, o que garante a consistência estatística.
A primeira conclusão importante do Panorama Setorial é que a frota circulante total chega a 1,65 milhão de unidades, distribuídas em 1,35 milhão de tratores, 217 mil colheitadeiras e 82,5 mil pulverizadores. A idade média do maquinário é de 15 anos e os tratores são os veículos mais velhos, com 18 anos de uso. A “faixa etária” das colheitadeiras é de dez anos e dos pulverizadores, de oito. Ou seja, mais de 50% da frota supera os 15 anos de atividade. “São equipamentos defasados, o que reforça o desafio da renovação tecnológica no campo, com a adoção de dispositivos como GPS e telemetria”, afirma Boschi. “Vale ressaltar que 34% das propriedades rurais não possuem acesso à internet.”

Diante da realidade de defasagem tecnológica, os produtores rurais encontram na terceirização de máquinas com valor agregado – que são alugadas ou até mesmo emprestadas por agricultores vizinhos –, uma boa solução para seus negócios. As colheitadeiras dominam esse cenário, com 38%. Pulverizadores (19%) e tratores (11%) vêm em seguida. “Essa realidade mostra que o produtor busca, sim, novas formas de acesso à mecanização para reduzir riscos e ampliar a flexibilidade operacional, sem abrir mão da produtividade e da atualização tecnológica”, diz Luís Henrique Vinha, consultor da BIM.

Quando o produtor deixa a locação de lado e resolve investir em equipamentos, 39% da decisão de compra é determinada pela chamada geração X (pessoas nascidas entre 1965 e 1980), 24% pela geração Y (nascidos do início dos anos 1980 e meados de 1990), 15% pela geração Z (entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2010) e 12% pelos baby boomers (de meados de 1940 a 1960). “Esses dados sinalizam a necessidade de as fabricantes estarem em sintonia com o perfil dos tomadores de decisão”, diz Boschi. “Ao apontar quem está no comando das escolhas, o estudo propõe que marcas e fornecedores repensem suas estratégias de comunicação e conexão com cada público, principalmente a liderança mais jovem.”

Uma boa notícia para o setor: o estudo apontou que 55% dos entrevistados pretendem comprar equipamentos em breve

Na hora da compra, os agricultores não escondem a preferência por determinadas marcas. De acordo com a pesquisa, os tratores e as colheitadeiras da John Deere são os mais procurados, ao passo que a Jacto passa mais credibilidade quando o assunto é pulverizador. A julgar pelo estudo da BIM, as fabricantes precisam se movimentar para cativar potenciais compradores. Isso porque 55% dos entrevistados manifestaram a intenção de comprar equipamentos em breve e, nesse universo, 68% pretendem investir em tratores, 35,7% em colheitadeiras e 23,2% em pulverizadores. Entre os demais entrevistados, 30% não têm planos e 15% ainda não decidiram. Em alguns temas, ressalve-se, as respostas excedem 100% porque o agricultor podia escolher mais de uma opção.

A larga vantagem dos tratores se justifica por seu potencial multiúso. Sua utilização pode acontecer em praticamente todas as culturas, enquanto as colheitadeiras possuem penetração menor: 55% nas plantações de soja, 45% na de milho e 35% na de algodão. Os pulverizadores, por sua vez, registram 30% de presença na soja e 25% no milho.

Algumas razões estimulam o desejo de renovar a frota das propriedades, como a busca pela tecnologia mais moderna, o aumento da capacidade de produção, a necessidade de adequação do maquinário ao tipo de cultura e a não dependência de equipamentos de terceiros. No entanto, o financiamento segue como fator impeditivo para a mecanização agrícola no País, uma vez que os produtores esbarram em barreiras burocráticas, atrasando processos e retardando o rejuvenescimento das máquinas.

“A intenção de compra está clara, o que falta é remover de uma vez por todas as travas de crédito e financiamento para transformar o interesse em negócio efetivo”, diz Vinha. “Sem mecanismos mais rápidos e acessíveis, a demanda reprimida não se converte em investimento e o País posterga ganhos de produtividade e competitividade.” De fato, a burocracia é vista por 54% dos agricultores como inimiga número um para se conseguir os recursos necessários para a aquisição de equipamentos.

Embora as linhas de crédito sejam fundamentais no setor, a pesquisa mostra que 35,7% dos produtores planejam efetuar as compras com recursos próprios, enquanto 33% vão recorrer ao financiamento. Em compensação, 58,6% adotarão uma estratégia híbrida, ou seja, querem se valer das duas alternativas de aquisição.

Seja qual for o modelo escolhido para fechar negócio, o consumidor adota dois canais bastante tradicionais para conhecer as máquinas: 53% dos consultados elegeram as feiras agrícolas e a visita às concessionárias ou representantes regionais. Conversas com amigos ou conhecidos que atuam no setor aparecem com 18,5%. Mas 70% das compras ainda ocorrem dentro das concessionárias, evidenciando a importância de uma rede com boa capilaridade no País.

Apesar da importância de uma rede bem espalhada em todos os cantos do Brasil, a manutenção preventiva ocorre dentro das próprias fazendas em 68% dos casos; 30% se dirigem às concessionárias e 19% em oficinas especializadas da região. Na manutenção corretiva, 60% das ocorrências são resolvidas pela equipe interna. Mas o peso das concessionárias cresce para 50,7% e as oficinas independentes ocupam uma fatia de 32%. Aqui também os produtores puderam escolher mais de uma opção. “As grandes fazendas tendem a executar a manutenção internamente e ações corretivas pontuais em concessionárias”, diz Vinha. “Pequenas propriedades confiam nas oficinas.”

Ainda no que se refere aos hábitos de consumo no pós-venda, 76% dos profissionais do campo revelaram que compram peças originais para seus tratores, 35% escolhem as genuínas e 14% procuram as paralelas, geralmente mais baratas. Para as colheitadeiras, 80% adquirem as originais, 40% as genuínas e 12% as paralelas. Por fim, para os pulverizadores, a proporção é de 72% de originais, 37% de genuínas e 11% de paralelas.

O estudo também faz uma projeção de como estará a situação da frota daqui a cinco anos. A estimativa é de um crescimento de 6% até 2030, com 1.478 tratores, 230 mil colheitadeiras e 90 mil pulverizadores. As vendas em 2025 comprovam o otimismo. Nos oito primeiros meses do ano, houve aumento de 22,7% nas negociações de tratores e colheitadeiras em comparação ao mesmo período de 2024 – de 29.390 para 36.056 unidades –, segundo dados da Abimaq.

A burocracia é vista por 54% dos produtores como o principal entrave para conseguir os recursos para comprar os equipamentos

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