Por Mário Sérgio Venditti

Pesquisa inédita traz um retrato detalhado da frota de máquinas agrícolas em operação no País. Batizado de Panorama Setorial de Máquinas Agrícolas no Brasil, o levantamento foi feito pela Boschi Inteligência de Mercado (BIM) e consolida uma série de informações sobre tratores, colheitadeiras e pulverizadores, podendo servir de ferramenta estratégica para o setor, na medida em que identifica hábitos de consumo, ciclos de renovação e demandas tecnológicas.
O estudo abrange máquinas agrícolas em culturas essenciais como milho, soja, trigo, cana-de-açúcar, café, algodão e arroz e nasceu com o intuito de compreender o presente e projetar o futuro da mecanização do agronegócio nacional. A demanda surgiu devido à falta de estatísticas confiáveis sobre a frota, ao contrário do que ocorre com automóveis, caminhões e ônibus.
Entidades que atuam no agro aplaudem a iniciativa. Para Pedro Estevão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), somente as grandes companhias tentam fazer algo parecido, mas não com a mesma profundidade. Daí a importância da pesquisa da Boschi. “O IBGE também produz um censo nesse sentido, porém somente a cada dez anos”, diz. “Dessa forma, a Boschi está prestando um serviço muito útil ao setor.”
A amostra concentrou-se em propriedades acima de mil hectares – 65% do total da pesquisa. Depois, vieram áreas de 51 a 200 hectares (18%) e de 10 a 50 hectares (17%). “Elas possuem maior número de máquinas por unidade produtiva e nosso trabalho abordou aspectos como marcas, configurações, hábitos de pós-venda, uso e ciclos de renovação”, afirma Gregori Boschi, sócio-diretor da Boschi, empresa especializada em estratégia de mercado nas cadeias automotiva e industrial.


Os resultados foram coletados a partir de 700 entrevistas realizadas em todas as regiões do Brasil, durante um ano e meio de peregrinação nas propriedades e oito mil horas de levantamento. Cerca de 80% da pesquisa foi executada presencialmente e o restante de forma remota. “A maioria dos agricultores tem um comportamento avesso ao de participar por telefone”, diz Boschi. Segundo ele, o raio X das máquinas agrícolas apresenta margem de erro de 3,4 pontos percentuais e nível de confiança de 95%, o que garante a consistência estatística.
A primeira conclusão importante do Panorama Setorial é que a frota circulante total chega a 1,65 milhão de unidades, distribuídas em 1,35 milhão de tratores, 217 mil colheitadeiras e 82,5 mil pulverizadores. A idade média do maquinário é de 15 anos e os tratores são os veículos mais velhos, com 18 anos de uso. A “faixa etária” das colheitadeiras é de dez anos e dos pulverizadores, de oito. Ou seja, mais de 50% da frota supera os 15 anos de atividade. “São equipamentos defasados, o que reforça o desafio da renovação tecnológica no campo, com a adoção de dispositivos como GPS e telemetria”, afirma Boschi. “Vale ressaltar que 34% das propriedades rurais não possuem acesso à internet.”
Diante da realidade de defasagem tecnológica, os produtores rurais encontram na terceirização de máquinas com valor agregado – que são alugadas ou até mesmo emprestadas por agricultores vizinhos –, uma boa solução para seus negócios. As colheitadeiras dominam esse cenário, com 38%. Pulverizadores (19%) e tratores (11%) vêm em seguida. “Essa realidade mostra que o produtor busca, sim, novas formas de acesso à mecanização para reduzir riscos e ampliar a flexibilidade operacional, sem abrir mão da produtividade e da atualização tecnológica”, diz Luís Henrique Vinha, consultor da BIM.
Quando o produtor deixa a locação de lado e resolve investir em equipamentos, 39% da decisão de compra é determinada pela chamada geração X (pessoas nascidas entre 1965 e 1980), 24% pela geração Y (nascidos do início dos anos 1980 e meados de 1990), 15% pela geração Z (entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2010) e 12% pelos baby boomers (de meados de 1940 a 1960). “Esses dados sinalizam a necessidade de as fabricantes estarem em sintonia com o perfil dos tomadores de decisão”, diz Boschi. “Ao apontar quem está no comando das escolhas, o estudo propõe que marcas e fornecedores repensem suas estratégias de comunicação e conexão com cada público, principalmente a liderança mais jovem.”

Na hora da compra, os agricultores não escondem a preferência por determinadas marcas. De acordo com a pesquisa, os tratores e as colheitadeiras da John Deere são os mais procurados, ao passo que a Jacto passa mais credibilidade quando o assunto é pulverizador. A julgar pelo estudo da BIM, as fabricantes precisam se movimentar para cativar potenciais compradores. Isso porque 55% dos entrevistados manifestaram a intenção de comprar equipamentos em breve e, nesse universo, 68% pretendem investir em tratores, 35,7% em colheitadeiras e 23,2% em pulverizadores. Entre os demais entrevistados, 30% não têm planos e 15% ainda não decidiram. Em alguns temas, ressalve-se, as respostas excedem 100% porque o agricultor podia escolher mais de uma opção.
A larga vantagem dos tratores se justifica por seu potencial multiúso. Sua utilização pode acontecer em praticamente todas as culturas, enquanto as colheitadeiras possuem penetração menor: 55% nas plantações de soja, 45% na de milho e 35% na de algodão. Os pulverizadores, por sua vez, registram 30% de presença na soja e 25% no milho.
Algumas razões estimulam o desejo de renovar a frota das propriedades, como a busca pela tecnologia mais moderna, o aumento da capacidade de produção, a necessidade de adequação do maquinário ao tipo de cultura e a não dependência de equipamentos de terceiros. No entanto, o financiamento segue como fator impeditivo para a mecanização agrícola no País, uma vez que os produtores esbarram em barreiras burocráticas, atrasando processos e retardando o rejuvenescimento das máquinas.
“A intenção de compra está clara, o que falta é remover de uma vez por todas as travas de crédito e financiamento para transformar o interesse em negócio efetivo”, diz Vinha. “Sem mecanismos mais rápidos e acessíveis, a demanda reprimida não se converte em investimento e o País posterga ganhos de produtividade e competitividade.” De fato, a burocracia é vista por 54% dos agricultores como inimiga número um para se conseguir os recursos necessários para a aquisição de equipamentos.
Embora as linhas de crédito sejam fundamentais no setor, a pesquisa mostra que 35,7% dos produtores planejam efetuar as compras com recursos próprios, enquanto 33% vão recorrer ao financiamento. Em compensação, 58,6% adotarão uma estratégia híbrida, ou seja, querem se valer das duas alternativas de aquisição.
Seja qual for o modelo escolhido para fechar negócio, o consumidor adota dois canais bastante tradicionais para conhecer as máquinas: 53% dos consultados elegeram as feiras agrícolas e a visita às concessionárias ou representantes regionais. Conversas com amigos ou conhecidos que atuam no setor aparecem com 18,5%. Mas 70% das compras ainda ocorrem dentro das concessionárias, evidenciando a importância de uma rede com boa capilaridade no País.
Apesar da importância de uma rede bem espalhada em todos os cantos do Brasil, a manutenção preventiva ocorre dentro das próprias fazendas em 68% dos casos; 30% se dirigem às concessionárias e 19% em oficinas especializadas da região. Na manutenção corretiva, 60% das ocorrências são resolvidas pela equipe interna. Mas o peso das concessionárias cresce para 50,7% e as oficinas independentes ocupam uma fatia de 32%. Aqui também os produtores puderam escolher mais de uma opção. “As grandes fazendas tendem a executar a manutenção internamente e ações corretivas pontuais em concessionárias”, diz Vinha. “Pequenas propriedades confiam nas oficinas.”
Ainda no que se refere aos hábitos de consumo no pós-venda, 76% dos profissionais do campo revelaram que compram peças originais para seus tratores, 35% escolhem as genuínas e 14% procuram as paralelas, geralmente mais baratas. Para as colheitadeiras, 80% adquirem as originais, 40% as genuínas e 12% as paralelas. Por fim, para os pulverizadores, a proporção é de 72% de originais, 37% de genuínas e 11% de paralelas.
O estudo também faz uma projeção de como estará a situação da frota daqui a cinco anos. A estimativa é de um crescimento de 6% até 2030, com 1.478 tratores, 230 mil colheitadeiras e 90 mil pulverizadores. As vendas em 2025 comprovam o otimismo. Nos oito primeiros meses do ano, houve aumento de 22,7% nas negociações de tratores e colheitadeiras em comparação ao mesmo período de 2024 – de 29.390 para 36.056 unidades –, segundo dados da Abimaq.


