Por Evanildo da Silveira
A verminose é hoje um dos principais problemas sanitários em rebanhos de caprinos e ovinos no Brasil, especialmente no Nordeste, onde a caprinovinocultura é uma das bases econômicas da agricultura familiar. Silenciosa e de difícil observação no início, a doença compromete o desenvolvimento dos animais, reduz a produtividade e provoca prejuízos que chegam a US$ 7 bilhões de dólares por ano em todo o mundo, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Para ajudar a reduzir esse impacto, pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Embrapa Caprinos e Ovinos desenvolveram o StopVerme, um aplicativo de celular que utiliza inteligência artificial (IA) para identificar sinais de anemia – principal sintoma da verminose – por meio da análise da mucosa ocular de cabras e ovelhas. “A ideia surgiu da necessidade de uma avaliação mais objetiva da condição de verminose”, diz o pesquisador Iális Cavalcante, da UFC. “O produtor muitas vezes precisa decidir rápido, no campo, sem equipamentos. Queríamos algo simples, acessível e que substituísse a subjetividade da avaliação visual.”
O desenvolvimento do StopVerme começou em 2018, após conversas entre Cavalcante e o pesquisador Selmo Alves, da Embrapa. A partir daí, equipes de pesquisadores e estudantes passaram a visitar a área de produção da Embrapa para coletar milhares de imagens da mucosa ocular de cabras e ovelhas. Alunos de graduação e pós-graduação da UFC ficaram responsáveis por montar o banco de imagens e testar diferentes modelos de análise. “Sem esse conjunto de dados, seria inviável desenvolver o modelo de aprendizagem”, afirma Cavalcante. “Foi um esforço de anos, envolvendo alunos de mestrado e de iniciação científica, muitos trabalhos de conclusão de curso e várias propostas metodológicas até chegarmos ao que temos hoje.”

Houve interrupções durante a pandemia, principalmente pela dificuldade de acesso às propriedades rurais, mas o trabalho continuou mesmo à distância. Ao longo dos anos, o sistema evoluiu e passou por sucessivas avaliações até alcançar o nível 8 da Escala de Maturidade Tecnológica (TRL, na sigla em inglês), considerado estágio de aplicação final, já testado e validado em campo.
Disponível para celulares Android, o aplicativo foi desenhado para ser simples. Ao abrir o StopVerme, o produtor aponta a câmera do celular para o olho do animal, seguindo a mesma lógica do exame tradicional da mucosa ocular. A imagem é capturada e automaticamente processada por dois algoritmos de IA: o primeiro identifica a área da mucosa, enquanto o segundo classifica o animal de acordo com o nível de anemia. “O aplicativo já responde na hora”, diz Cavalcante. “E isso faz diferença para o produtor, porque a decisão é imediata.”
A análise é feita sem necessidade de internet, o que permite o uso no campo, onde o sinal costuma ser limitado. Durante os testes, diversos ajustes foram feitos para aproximar a ferramenta da realidade da agricultura familiar. Um dos mais importantes foi a adoção de cores para mostrar o resultado: verde indica animal saudável e vermelho alerta para anemia.
“Percebemos que alguns produtores tinham dificuldade com leitura”, diz Cavalcante. “Então optamos por cores. Isso tornou a experiência muito mais intuitiva.” O produtor também pode salvar os registros para acompanhar a evolução dos animais ao longo do tempo.
A caprinovinocultura é uma atividade central no semiárido brasileiro, por se adaptar bem ao clima quente e à oferta limitada de pasto. Cabras e ovelhas, porém, são especialmente vulneráveis a parasitas gastrointestinais, como o Haemonchus contortus, conhecido como “verme do estômago”, responsável por grande parte dos casos de mortalidade em pequenos ruminantes no país.
Historicamente, o controle da verminose é feito com vermífugos aplicados de forma generalizada. , uma prática que encarece a produção e favorece a resistência dos parasitas aos medicamentos. O StopVerme contribui para o chamado controle seletivo, estratégia que indica quais animais realmente precisam receber vermífugo, reduzindo custos e ajudando a evitar o desenvolvimento de parasitas resistentes. “Culturalmente, quando um animal apresenta verminose, muitos produtores medicam todo o rebanho”, diz Cavalcante. “Isso encarece o manejo e ainda aumenta a resistência do parasita. O aplicativo diminui a subjetividade e aumenta a eficácia das decisões.”

O pesquisador reforça que o app é um instrumento de apoio, não um substituto do acompanhamento veterinário, mas torna o controle seletivo mais acessível e preciso. “As decisões de manejo continuam dependendo da orientação técnica”, afirma. “O aplicativo ajuda a tornar esse processo mais seguro, menos subjetivo e mais eficiente.” O StopVerme foi publicado na Google Play Store em 13 de outubro de 2025. O teste de usabilidade foi realizado com produtores de diferentes níveis de escolaridade, o que levou a ajustes como o uso de cores e ícones mais intuitivos. O download é gratuito.
Embora o agronegócio seja frequentemente percebido como um setor tecnológico, a inovação ainda chega de forma desigual aos diferentes segmentos. Para Cavalcante, o StopVerme representa um avanço na modernização das cadeias da caprinovinocultura e da ovinocultura. “Há poucas ferramentas digitais pensadas para esse tipo de produção”, diz. “O StopVerme é inovador porque traduz tecnologia em algo útil, simples e adaptado à realidade do pequeno produtor.”
Com a adoção da ferramenta, os pesquisadores esperam contribuir para reduzir perdas, melhorar a saúde dos rebanhos e fortalecer a economia rural no Nordeste, onde milhares de famílias dependem diretamente da criação de cabras e ovelhas para sua subsistência. Para Cavalcante, a maior conquista do projeto é ver a tecnologia contribuindo para melhorar o bem-estar animal e a renda de quem vive da criação. “Quando o produtor tem autonomia para decidir melhor, ele ganha”, diz. “O rebanho ganha, e a economia rural também.”

