O Brasil na rota do hidrogênio verde 

Com R$ 469 bilhões em investimentos, o Brasil vê no setor a chance de liderar um novo mercado global, descarbonizar a economia e reduzir a dependência externa de fertilizantes
Edição: 52
14 de janeiro de 2026

Por Amauri Segalla 

Nos últimos anos, o Brasil viu surgir uma situação incômoda no setor elétrico: enquanto parques eólicos e solares se multiplicavam, sobretudo no Nordeste, turbinas precisavam ser desligadas em determinados horários porque a rede não tinha capacidade para escoar toda a energia gerada. Agora, a mesma região passa a ser vista como laboratório de uma segunda revolução, em que a eletricidade “sobrando” pode ser convertida em moléculas de hidrogênio e derivados para mover navios, abastecer siderúrgicas ou produzir fertilizantes. Um levantamento da consultoria Clean Energy Latin America (CELA) mostra a dimensão dessa guinada: são 113 projetos de hidrogênio verde e produtos associados, distribuídos por 16 estados, que somam R$ 469,2 bilhões em investimentos previstos e com potencial para adicionar 90 gigawatts à capacidade renovável do País. O Ministério de Minas e Energia calcula que, somados, os projetos já anunciados no País ultrapassem US$ 20 bilhões em investimentos, concentrados sobretudo no Nordeste e em áreas portuárias estratégicas. 

Para além das planilhas, o debate já chegou à indústria e ao agronegócio. “Acredito que o hidrogênio verde será o combustível do futuro, especialmente por oferecer soluções contra o aquecimento global”, diz Paulo Alvarenga, CEO da companhia alemã Thyssenkrupp para a América do Sul, resumindo o sentimento crescente em grandes grupos industriais. Recentemente, o grupo anunciou um investimento de 3 bilhões de euros em sua primeira linha de produção de aço movida a hidrogênio verde, que deverá iniciar a operação entre 2027 e 2028, com potencial de reduzir em até 95% as emissões dessa unidade e inaugurar um plano de conversão gradual de quatro linhas de produção até 2045. 

O hidrogênio não é uma fonte energética, mas um vetor, uma forma de armazenar e transportar energia produzida em outro lugar. Há décadas, o gás é usado na indústria para refino de petróleo, produção de fertilizantes e fabricação de químicos. A diferença é que, hoje, quase todo esse hidrogênio é obtido a partir de gás natural ou carvão, em processos que emitem grandes volumes de dióxido de carbono. 

A expressão hidrogênio verde aparece quando esse mesmo gás é produzido por eletrólise da água, com eletricidade 100% proveniente de fontes renováveis como eólica, solar ou hídrica. Em termos simplificados: a água é “quebrada” em hidrogênio e oxigênio por uma corrente elétrica, e o hidrogênio resultante pode ser armazenado, comprimido, liquefeito, convertido em amônia ou em outros combustíveis sintéticos. Se toda a cadeia de energia usada nesse processo é limpa, as emissões associadas despencam. 

O hidrogênio verde será o combustível do futuro porque oferece soluções contra o aquecimento global

É justamente aqui que o Brasil passa a ser visto como candidato natural a grande produtor. A matriz elétrica já é majoritariamente renovável, a expansão de parques eólicos e solares segue acelerada e o País dispõe de extensas áreas com recursos de vento e sol de excelente qualidade. Estudos comparativos sobre o custo de produção indicam que o hidrogênio brasileiro pode ser competitivo frente a concorrentes como Estados Unidos, Austrália e países do Oriente Médio. Além disso, trata-se de uma vantagem que tende a se ampliar à medida que a tecnologia dos eletrolisadores evolui e o preço desses equipamentos cai. 

A maior parte das iniciativas voltadas para o hidrogênio verde no Brasil ainda está em fase de estudo ou licenciamento, mas uma parcela crescente avança para etapas de engenharia e negociação de contratos de fornecimento de energia e de produtos. Aproximadamente dois terços dos projetos nasceram em escala industrial, e pouco mais da metade mira o mercado doméstico, com foco em siderurgia, fertilizantes e transporte pesado. O restante foi desenhado de olho na exportação, principalmente para a Europa e para a Ásia. 

Um dos exemplos concretos desse movimento está no litoral do Ceará. A Casa dos Ventos, empresa brasileira de geração renovável, decidiu instalar, na Zona de Processamento de Exportação do Porto do Pecém, uma planta de hidrogênio e amônia verdes de grande porte. O plano prevê a alocação de 1,2 gigawatt médio de energia eólica e solar – gerada em parques no Nordeste e no Sudeste – para produzir até 900 mil toneladas por ano de amônia de baixa emissão. O investimento estimado chega a R$ 25 bilhões, somando a unidade industrial e os projetos de geração associados, com início de operação em 2030. 

Os contratos que sustentam essa planta miram, principalmente, clientes europeus, pressionados por metas de descarbonização mais rígidas e pela perspectiva de tarifas sobre produtos intensivos em carbono. Para viabilizar negócios desse porte, executivos do setor listam uma série de condições: incentivos fiscais estáveis, arcabouço regulatório claro, instrumentos de estímulo à demanda interna, contratos de longo prazo para energia renovável e cooperação internacional na área de certificações, fundamentais para comprovar a “pegada de carbono” dos produtos exportados. 

Do ponto de vista econômico, o grande obstáculo ainda são os custos. O hidrogênio produzido a partir de gás natural segue, hoje, significativamente mais barato do que o hidrogênio obtido por eletrólise da água com eletricidade renovável. No Brasil, estimativas recentes situam o custo de produção do hidrogênio verde em algo como US$ 2,9 a US$ 7,4 por quilo, a depender da região, do tipo de contrato de energia e da escala do projeto, enquanto o hidrogênio obtido de fontes fósseis tende a custar algo em torno de US$ 1 a US$ 2 por quilo em muitos mercados. 

Apesar da diferença, analistas enxergam uma trajetória de convergência de preços. A expectativa é que, com a massificação da tecnologia, ganhos de escala na fabricação de eletrolisadores e a queda contínua no custo da energia eólica e solar, o hidrogênio verde se aproxime dos patamares de competitividade ao longo dos próximos 10 a 15 anos – especialmente em países com grande oferta de recursos renováveis, como é o caso brasileiro. A aposta é que, à medida que governos, investidores e indústria se alinham, o ritmo de implementação acelera. “Quando setor privado e governo atuam de forma coordenada, as soluções amadurecem mais rápido”, diz Faustine Delasalle, presidente da Mission Possible Partnership (MPP), aliança global que lidera o Industrial Transition Accelerator (ITA), iniciativa voltada a acelerar a descarbonização de setores de altas emissões. 

Enquanto projetos que envolvem dezenas de bilhões de dólares miram o futuro, pequenos projetos começam a mostrar como esse novo combustível pode ser usado na prática. Na fronteira entre Brasil e Paraguai, a empresa Itaipu Binacional e o Parque Tecnológico Itaipu desenvolveram um barco movido a hidrogênio verde para navegar no lago da hidrelétrica, transportando materiais recicláveis coletados por cooperativas. A embarcação, construída em alumínio e abastecida com hidrogênio produzido a partir da energia da própria usina, foi concebida como vitrine tecnológica e, em Belém, ganhou uma versão operacional: o BotoH2, primeiro barco 100% movido a hidrogênio verde da América Latina, lançado durante a COP30. “Em um encontro como este, com 194 países discutindo o futuro, a urgência de soluções que respeitem a natureza fica ainda mais evidente”, diz o diretor-geral brasileiro de Itaipu, Enio Verri. 

Na mobilidade urbana, um laboratório semelhante está sendo montado em Brasília. A Neoenergia, uma das maiores distribuidoras de energia do País, fechou parceria com a montadora japonesa Honda para inaugurar, na capital federal, o primeiro posto de abastecimento de hidrogênio verde da companhia no Brasil. O investimento passa de R$ 30 milhões, dentro de um programa de pesquisa e desenvolvimento regulado pela agência do setor elétrico, e envolve a instalação de eletrolisador, sistema de compressão, armazenamento e unidade de abastecimento no mesmo local. Para o CEO da Neoenergia, Eduardo Capelastegui, a iniciativa marca uma mudança de patamar: “Essa colaboração reforça nosso compromisso com soluções inovadoras que aceleram a eletrificação e a descarbonização da economia brasileira”. 

No Brasil, o custo de produção do hidrogênio verde chega a US$ 7 por quilo, enquanto o obtido de fontes fósseis sai por US$ 2

Por seis meses, engenheiros das duas empresas vão avaliar o desempenho de um veículo híbrido com célula de combustível em rotas urbanas e rodoviárias, medindo consumo, autonomia, tempo de reabastecimento e comportamento em diferentes perfis de uso. A distribuidora aproveita a experiência de sua controladora internacional, que já opera projetos semelhantes na Europa, enquanto a montadora põe à prova mais de três décadas de pesquisa em tecnologias de hidrogênio, que fazem parte de sua estratégia de neutralidade de carbono para meados do século. 

O campo também desponta como pista de aterrissagem para o gás. Usinas sucroenergéticas, acostumadas a trabalhar com biomassa, biogás e cogeração, estudam rotas para combinar hidrogênio verde com matérias-primas agrícolas na produção de combustíveis sintéticos. Em estados como São Paulo e Paraná, grupos do setor avaliam projetos que usam hidrogênio de baixa emissão gerado a partir de eletricidade renovável para viabilizar processos de síntese de combustíveis sustentáveis de aviação e outros produtos para exportação. 

Esse tipo de arranjo abre caminho para complexos industriais híbridos, capazes de produzir etanol, biogás, hidrogênio verde, amônia e derivados em uma mesma área. A combinação de lavouras, usinas e plantas químicas faz com que o agronegócio deixe de ser apenas consumidor de fertilizantes e combustíveis para se tornar fornecedor de insumos de baixo carbono para cadeias globais. 

Entre todas as aplicações possíveis, a dos fertilizantes é considerada uma das mais estratégicas. A agricultura brasileira depende fortemente de importações de nitrogenados, o que expõe o País a choques geopolíticos e volatilidade de preços. Especialistas do setor elétrico e da indústria de fertilizantes defendem que o hidrogênio verde pode ser a base de uma nova rota para a amônia e a ureia produzidas em território nacional, reduzindo a vulnerabilidade externa e, ao mesmo tempo, oferecendo um produto com menor pegada de carbono para mercados que começam a rastrear emissões ao longo de toda a cadeia de alimentos. 

A expressão hidrogênio verde aparece quando o gás é produzido por eletrólise da água, com eletrecidade 100% proveniente de fontes renováveis como eóloca, solar ou hídrica

O avanço dessa agenda passa por muito mais do que novas fábricas – exige coordenação entre política energética, estratégia agrícola, instrumentos de financiamento e desenvolvimento tecnológico. Sem esse alinhamento, alertam analistas, há o risco de o Brasil se tornar apenas exportador de hidrogênio e amônia de baixa emissão, deixando para outros países as etapas mais sofisticadas da cadeia de valor. 

É justamente nesse ponto que universidades e governos estaduais tentam atuar. Em Florianópolis, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) inaugurou, em 2025, um laboratório de hidrogênio verde em parceria com o governo catarinense. Instalado em um parque tecnológico da capital, o laboratório foi pensado como um hub para pesquisa em produção, armazenamento e uso do hidrogênio, com aplicação em setores como indústria e agricultura. O projeto integra o programa MultiLab SC, que financia estruturas científicas de ponta em áreas estratégicas para o estado. “Cada laboratório conecta a nossa universidade e procura dar soluções originais a alguns dos principais problemas do nosso tempo”, afirma o pró-reitor de Pesquisa e Inovação, Jacques Mick. 

No Rio Grande do Sul, o governo incluiu o hidrogênio verde como parte central de uma política de desenvolvimento que mira a redução de emissões de gases de efeito estufa em 50% até 2030 e a neutralidade de carbono em 2050. Um edital de subvenção econômica de R$ 100 milhões selecionou quatro projetos-piloto, que receberão recursos públicos e aporte privado para instalar plantas de produção ou uso do hidrogênio em atividades industriais. Entre 2021 e 2023, o estado afirma ter reduzido em 26,8% suas emissões líquidas e tenta usar a nova cadeia para consolidar um cluster de tecnologias limpas. 

Os estados miram não só a atração de investimentos, mas também a formação de mão de obra e de fornecedores locais para equipamentos, sistemas de controle e serviços especializados. Sem essa base doméstica, alertam pesquisadores, o País corre o risco de assistir a uma “importação em massa” de tecnologia, repetindo padrões de outras ondas de industrialização em que grande parte do valor agregado ficava fora do território nacional. 

Além de ser vetor de descarbonização, o hidrogênio também é visto como possível solução para um problema que cresce com a expansão das fontes renováveis: o desperdício de energia. Em regiões onde parques eólicos e solares avançaram mais rápido do que a expansão das linhas de transmissão, parte da geração precisa ser cortada em determinados horários para não sobrecarregar a rede – o chamado curtailment

Estudos recentes indicam que, nesses lugares, acoplar eletrolisadores a usinas eólicas e solares poderia transformar a eletricidade hoje desperdiçada em moléculas de hidrogênio e derivados. Em vez de ver turbinas paradas por falta de capacidade de escoamento, operadores converteriam esse excedente em insumos capazes de ser armazenados por meses ou exportados. O hidrogênio, nesse cenário, funciona como um amortecedor do sistema elétrico, ajudando a otimizar o uso da infraestrutura existente e criando uma nova fonte de receita para os empreendimentos. 

Poucos temas, porém, dependem tanto de normas e previsibilidade quanto esse. Depois de anos de discussões, o Congresso aprovou, em 2024, duas leis centrais: o marco legal do hidrogênio de baixa emissão de carbono (Lei 14.948) e o Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (PHBC). Juntas, elas instituem o Regime Especial de Incentivos para a Produção de Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (Rehidro) e autorizam a concessão de créditos fiscais que somam R$ 18,3 bilhões entre 2028 e 2032, distribuídos por meio de processos competitivos para produtores e compradores de hidrogênio de baixa emissão e seus derivados. Parte desses instrumentos ainda depende de regulamentação detalhada do Executivo e de órgãos reguladores. 

O hidrogênio verde oferece ao Brasil a oportunidade de fortalecer, ao mesmo tempo, o agronegócio e a indústria

Executivos do setor chamam a atenção para o calendário: muitos dos incentivos mais relevantes, como créditos vinculados à produção efetiva, só deverão estar plenamente operacionais na virada da década. Ao mesmo tempo, pacotes robustos de subsídios já estão em vigor em regiões como Europa, Estados Unidos, Oriente Médio e Austrália, aumentando a competição por investimentos industriais de baixo carbono. “Há potencial para expandir parcerias e ampliar o impacto das inovações desenvolvidas, mas isso exige engajamento de diversos setores, agilidade regulatória e financiamento contínuo”, diz Marc Moutinho, líder no Brasil do Acelerador da Transição Industrial (ITA), iniciativa global ligada à Mission Possible Partnership que apoia projetos de descarbonização em setores intensivos em emissões. 

A fotografia, portanto, é de uma corrida em andamento. De um lado, um pipeline de projetos que soma centenas de bilhões de reais, um conjunto crescente de demonstrações práticas – do barco fluvial à estação de abastecimento em Brasília – e uma base privilegiada de recursos renováveis. De outro, incertezas regulatórias, desafios de infraestrutura, necessidade de formação acelerada de pessoal qualificado e, sobretudo, a pergunta-chave de qualquer negócio nascente: quem vai comprar, a que preço e com quais garantias de longo prazo? 

Para especialistas, o hidrogênio verde oferece ao Brasil a chance de articular, em torno de uma mesma agenda, transição energética, reindustrialização e fortalecimento do agronegócio. A dimensão da oportunidade é medida em centenas de bilhões de dólares. O custo de perdê-la, em décadas de atraso tecnológico e dependência de cadeias produtivas instaladas em outros países. Entre a promessa e a realidade, o que vai definir o desfecho é a capacidade de transformar anúncios em projetos, projetos em fábricas e fábricas em produtos competitivos – dentro e fora do País. 

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