Por Romualdo Vênancio
A partir de 11 de junho, seleções masculinas de futebol de 42 países estarão espalhadas por Estados Unidos, Canadá e México para a disputa da 23ª edição da Copa do Mundo da Fifa. O desafio dos atletas brasileiros, agora sob o comando do técnico italiano Carlo Ancelotti, começa bem antes de pisarem em qualquer estádio, pois lidam com o peso da desconfiança e do tabu de 24 anos desde a última conquista de título. A seleção pentacampeã embarca para essa jornada abraçada pela torcida, mas também pressionada por olhares cabreiros. Já fora das quatro linhas, o clima é outro. Quando o assunto é “entrar em campo” no sentido figurado – competir por mercado, investimento e influência –, o agronegócio brasileiro chega à Copa com expectativas mais altas, especialmente diante das nações anfitriãs. Ainda assim, não faltam bolas divididas nesse jogo.
A química que surge da mistura entre paixão e entretenimento, durante esse período festivo, gera curiosidade e aquece o consumo, fazendo da Copa do Mundo uma valiosa vitrine para os produtos das cadeias agropecuárias e agroindustriais. “Como já fiz em várias Copas, eu sugiro que as empresas do Brasil aproveitem o momento para divulgar o agronegócio, nossa carne, os biocombustíveis e tantos outros produtos”, afirma coordenador do Centro de Agronegócio da FGV-EESP, Roberto Rodrigues. “Eu entendo que seja caro fazer propaganda em um evento como esse, mas é uma grande oportunidade.”

O ex-ministro da Agricultura tinha 16 anos quando o Brasil foi campeão pela primeira vez, em 1958, na Suécia, e foi tão marcante para ele que ainda se lembra da escalação completa daquele time, nome a nome, com reserva e tudo. Para quem acompanhou todas as cinco vezes em que a seleção levantou a taça, é compreensível que não esteja tão esperançoso. “Não vamos ganhar a Copa, porque o time é fraco”, diz Rodrigues, com um sentimento bem distinto do permanente entusiasmo com que enxerga as possibilidades para as cadeias agropecuárias. “Mas o time do agro é muito forte, é campeão.” E, nesse caso, não parece ufanismo de torcedor.
O palco principal da competição serão os Estados Unidos, que receberão 78 jogos – incluindo a final. E esse protagonismo se repete fora de campo: no comércio, o país é o segundo maior parceiro do Brasil, peça central nas trocas e nos interesses bilaterais. “Os Estados Unidos ficam atrás apenas da China em termos de volume, mas lideram em número de empresas exportadoras no geral, são mais de 10 mil companhias”, afirma o gerente-geral da ApexBrasil, Igor Brandão. “A representatividade também é maior em número de micro e pequenas empresas que conseguem exportar.”
No caso específico dos produtos do agronegócio, os Estados Unidos são uma chance rara de o Brasil sair do meio-campo – onde já marca presença – e chegar ao ataque, ganhando espaço e valor nas prateleiras e nas cadeias industriais. No ano passado, as exportações totais do agro brasileiro somaram US$ 169,2 bilhões, e os Estados Unidos representaram 6,7% desse montante, com US$ 11,4 bilhões, conforme dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Só em carne bovina, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o Brasil enviou para o mercado norte-americano 278,8 mil toneladas em 2025, com faturamento de US$ 1,64 milhão. Esses resultados são superiores aos de 2024, em 21,3% e 21,5%, respectivamente.


A disputa ganhou novas dimensões quando o presidente norte-americano, Donald Trump, em uma estratégia de contra-ataque, resolveu reforçar sua defesa com taxações a produtos de diversos segmentos e de vários países. A ação começou no dia 2 de abril do ano passado, e foi chamada pelo governante de Liberation Day (Dia da Libertação). Por aqui, a iniciativa protecionista foi batizada de “tarifaço”. Em um primeiro momento, os produtos brasileiros foram taxados em 10%. No dia 9 de julho, veio o anúncio de que esse pedágio subiria para 50%.
Além de as tarifas distorcerem o comércio global, a imprevisibilidade em relação aos próximos passos do governo norte-americano é um fator de risco. “As regras de comércio internacional estão sendo gradualmente abandonadas e há uma dificuldade grande em se prever a próxima ação de Trump”, diz o professor e pesquisador do Insper Agro Global, Leandro Gilio. Embora o governo brasileiro tenha conseguido driblar a questão diplomática com os Estados Unidos, fazendo com que algumas taxas fossem revistas e até suspensas, o Brasil e o agro continuam sob o radar estratégico dos norte-americanos.


Reflexo disso é a investigação aberta recentemente por meio da Seção 6705 da Lei de Inteligência dos Estados Unidos, e aprovada pelo Congresso de lá, sobre os investimentos da China no agro brasileiro. O objetivo é que seja feita uma avaliação detalhada dessas negociações. “Isso não cria restrições diretamente, mas, a depender da necessidade em curso, pode construir base narrativa e técnica para sustentar medidas futuras como tarifas e outras sanções”, diz Gilio. Segundo o pesquisador, isso é um sinal de alerta. “Indica que o Brasil ainda permanece sob o foco do movimento geopolítico dos Estados Unidos e sua relação de embate com a China.”
Quanto mais os Estados Unidos abrem mão da política da boa vizinhança, mais seus vizinhos demonstram interesse em negociar com outros países. Segundo Brandão, Canadá e México estão sedentos por novos parceiros. “E aí o Brasil se torna estratégico”, afirma. O gerente da ApexBrasil diz haver o interesse dos canadenses em um acordo comercial com o Mercosul, com a expectativa de que seja um processo mais curto, sem a demora que se viu com a União Europeia. A negociação com os europeus, agora assinada de fato, desperta os olhares de outras nações.


Do ponto de vista de abertura de mercado, trata-se de um bom momento para intensificar a relação com o Canadá, que receberá 13 jogos da Copa do Mundo, mesmo número de partidas que acontecerão no México. A aproximação com os canadenses deve abrir espaço para commodities como açúcares e café, mas, principalmente, para produtos do agro com valor agregado, a exemplo de massas, chocolates, vinho, cachaça e castanhas. “Nesse último item entram ainda as barrinhas de cereais, em vários tipos e formatos”, diz Brandão. “Os consumidores pagam por esses itens mais sofisticados.”
Os canadenses também demandam produtos florestais e carnes, cadeias do agro brasileiro já bem consolidadas e bastante competitivas no mercado global. O Canadá é um importante fornecedor de insumos para o Brasil, em especial o potássio, elemento essencial para a nutrição das lavouras. “As importações vindas do Canadá cresceram muito a partir da guerra entre Rússia e Ucrânia, que gerou incertezas quanto ao abastecimento desse e de outros insumos”, afirma Gilio.
A relação com os mexicanos, que já havia ganhado novas dimensões em 1970, está ficando ainda mais estreita. Foi no Estádio Azteca, na Cidade do México, que o Brasil conquistou a Copa do Mundo pela terceira vez naquele ano. É essa mesma arena que vai receber o jogo de abertura da competição, com os anfitriões recebendo a África do Sul. Além da proximidade pelo futebol, mexicanos e brasileiro têm outros interesses comuns que abrem caminho para o avanço do agro brasileiro.
Um exemplo é o programa governamental Paquete Contra la Inflación y la Carestia (Pacic), que busca estabilizar os preços de 24 itens da cesta básica, mantendo a isenção de tarifa de importação para produtos como frango, peixes, frutas e hortaliças. Outros itens perderam esse benefício e voltarão a ser taxados, como carnes bovina e suína, tilápia, embutidos, leite e derivados, arroz com casca e feijão.
Até mesmo iniciativas para estimular e valorizar a produção local do México acabam favorecendo o agro brasileiro. O Plan Mexico – Estrategia de Desarrollo Económico Equitativo y Sustentable para la Prosperidad Compartida contém uma série de ações de descarbonização da economia. “Essa iniciativa abre espaço para adição do etanol e desperta o interesse não só para a indústria de combustível, mas também para toda a cadeia de tecnologia de biocombustíveis”, diz Brandão.
O gerente da ApexBrasil vem acompanhando de perto as negociações envolvendo México e Brasil em torno dos biocombustíveis. Brandão acompanhou a missão do governo brasileiro junto ao parceiro latino, em agosto de 2025. Naquela oportunidade, em meio a jogadas de toques curtos e lançamentos em profundidade, foram fechadas parcerias para ampliar a cooperação no setor e em outros segmentos da agropecuária, além de envolver o fortalecimento comercial e a atração de investimentos. “Isso tudo significa ampliação de mercado e oportunidade para o agro”, afirma.

Com a tabela de jogos em mãos, cabe aos técnicos do agro brasileiro desenhar uma estratégia vencedora, com espírito competitivo e um bom repertório de jogadas para aproveitar esse momento. Sempre tendo em mente que a disputa também pode ser acirrada. “Ainda segue desafiadora a busca pelo fair play no campo geopolítico”, afirma Gilio.

