O agro em escala nano

Com mercado global bilionário e uma nova corrida tecnológica em aceleração, a nanotecnologia avança do laboratório para o campo, prometendo tornar o agronegócio mais eficiente
Edição: 53
15 de abril de 2026

Por Ronaldo Luiz

A revolução invisível da nanotecnologia já movimenta cifras bilionárias e começa a redesenhar silenciosamente o agronegócio global. Longe dos holofotes, partículas milhares de vezes menores que um grão de areia estão no centro de uma corrida tecnológica que combina produtividade, sustentabilidade e novos modelos de negócio. Um levantamento feito pela Data Bridge Market Research estima que o mercado global de nanotecnologia no agronegócio movimentou US$ 398,5 bilhões em 2025, com expectativa de atingir US$ 965,8 bilhões até 2032. A consultoria InsightAce Analytic projeta expansão ainda mais acelerada: de US$ 389,9 bilhões para US$ 1,4 trilhão até 2034.

No Brasil, uma pesquisa recente da PwC Agtech Innovation aponta a ampliação do interesse e dos investimentos do agro em tecnologias voltadas à agricultura de precisão e à inteligência digital, universos que incluem a nanotecnologia. Batizado de “Termômetro da Inovação Aberta”, o estudo revela uma tendência consistente de digitalização e incorporação de soluções avançadas em todas as etapas da cadeia produtiva, da preparação do solo ao plantio, da colheita à distribuição.

“Esses números e estudos demonstram não apenas o potencial econômico da nanotecnologia no agro, mas também a confiança de investidores, empresas e governos na viabilidade e escalabilidade dessas soluções”, afirma Leonardo Fraceto, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro). O instituto é um consórcio nacional que reúne universidades federais e estaduais, centros tecnológicos e empresas públicas e privadas. “A nanotecnologia aplicada ao agronegócio já viabiliza soluções inovadoras para o dia a dia do produtor rural, com foco na redução de custos, ganhos de eficiência e aumento de produtividade”, acrescenta.

A nanotecnologia estuda e manipula materiais em escala nanométrica. Nessa dimensão, as propriedades físicas e químicas dos materiais se alteram de maneira significativa, abrindo espaço para soluções mais eficientes e controladas. No agro, explica Fraceto, essas estruturas são aplicadas para potencializar a eficiência agrícola por meio de fertilizantes, defensivos, sensores e embalagens inteligentes. “A tecnologia permite que moléculas ativas sejam liberadas de forma controlada e precisa, reduzindo perdas e contaminações e aumentando a produtividade com menos insumos”, diz.

Daniel Souza Corrêa, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Instrumentação, destaca que os benefícios potenciais incluem maior eficiência no uso de fertilizantes, defensivos e água, com redução de desperdícios e impactos ambientais, além de ganhos indiretos de produtividade associados a um manejo mais preciso e racional. “Também pode contribuir em tecnologias para recobrimento de frutos, empregando processos nanotecnológicos para aumentar o tempo de prateleira de alimentos e reduzir desperdícios”, afirma.

Segundo ele, a Embrapa desenvolve pesquisas em nanotecnologia aplicada ao agronegócio há mais de duas décadas, inclusive com a criação da Rede Agronano. O foco está na eficiência do uso de insumos, na sustentabilidade ambiental e na segurança dos sistemas produtivos. “Entre os principais achados, destacam-se o desenvolvimento e a avaliação de nanoformulações de fertilizantes e micronutrientes com liberação controlada, além de estudos sobre nanoencapsulação de defensivos agrícolas, recobrimentos para aumento do tempo de prateleira de alimentos, sistemas para remediação de poluentes ambientais e o desenvolvimento de sensores e biossensores nanoestruturados para monitoramento da qualidade da água e dos alimentos”, diz.

Fraceto detalha que a nanotecnologia já se materializa em soluções como nanofertilizantes, que liberam nutrientes de forma gradual e reduzem lixiviação; nanopesticidas, com maior eficácia contra pragas e menor toxicidade ambiental; e nanobioestimulantes, que favorecem o crescimento vegetal e a tolerância a estresses. Há ainda embalagens inteligentes, capazes de detectar deterioração e prolongar a vida útil de alimentos, sensores nanoestruturados que monitoram umidade, pH e doenças no solo ou na planta, e filmes e coberturas de solo com propriedades antimicrobianas ou reguladoras térmicas. Parte dessas soluções ainda passa por validação agronômica, enquanto outras já estão disponíveis comercialmente.

No Brasil, a presença da nanotecnologia no campo ainda é pontual, observa Souza Corrêa. Ela aparece sobretudo em fertilizantes e formulações avançadas de defensivos que utilizam princípios de encapsulação. “Algumas soluções desenvolvidas em universidades e institutos de pesquisa estão em fases de validação agronômica, ambiental e econômica, e devem chegar ao mercado nos próximos anos”, afirma.

Daniel Corrêa, da Embrapa: “Os processos nanotecnológicos reduzem desperdícios”

A nova fronteira da nanotecnologia aplicada ao agro mira produtos como bioestimulantes nanoestruturados capazes de ativar defesas naturais das plantas; nanocarregadores para RNA interferente – alternativa aos defensivos convencionais –; sistemas de entrega dupla, que combinam nutriente e defensivo em uma única aplicação; e a expansão dessas tecnologias para o setor florestal e a restauração ecológica. Questionado se a nanotecnologia também pode ser acessada pelo produtor de pequeno porte, Souza Corrêa pondera que, a depender da tecnologia, pequenos agricultores já podem se beneficiar, especialmente em soluções de menor custo voltadas à redução de insumos e ao aumento de produtividade.

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