Por Ronaldo Luiz

Com a presença do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, na cerimônia de abertura, a 25ª Conferência Internacional DATAGRO sobre Açúcar e Etanol, realizada nos dias 20 e 21 de outubro, na capital paulista, celebrou os 50 anos do Proálcool e homenageou uma série de personalidades que contribuíram para a criação do programa.
Em sua exposição inicial, o presidente da DATAGRO, Plinio Nastari, fez um resgate histórico da criação do Proálcool. O programa, ressaltou, surgiu de uma iniciativa de inovação e tecnologia do setor privado, a partir do pioneirismo de dois engenheiros atuantes no setor sucroenergético: Lamartine Navarro Júnior e Cícero Junqueira Franco. Eles, disse Nastari, elaboraram o documento “Fotossíntese como fonte energética”, que foi acolhido pelo Estado, no governo de Ernesto Geisel, o que culminou com o Proálcool.
“De lá para cá, o setor sucroenergético só cresceu, gerando alimentos e energia limpa e renovável, promovendo renda, emprego e desenvolvimento socioeconômico”, pontuou Nastari. De acordo com o presidente da DATAGRO, nestes 50 anos o Brasil viabilizou com o etanol a substituição de 46% da gasolina – reduzindo a utilização do combustível fóssil –, evitou a emissão de aproximadamente um bilhão de toneladas de CO2 equivalente e promoveu a economia de bilhões com a diminuição da necessidade da importação de gasolina.
Nastari encerrou sua fala lembrando que as novas oportunidades para o setor sucroenergético são amplas, com os combustíveis sustentáveis de aviação e marítimo, química verde, hidrogênio e assim por diante: “A demanda mundial, nossa capacidade de produção e políticas públicas recentes dão sustentação a essa agenda.”
Em seu discurso, Hugo Motta reafirmou o compromisso da Câmara dos Deputados com políticas públicas favoráveis à bioenergia e que o Parlamento trabalhará para elevar a mistura para 35% do etanol na gasolina, hoje em 30%. Já Tarcísio enalteceu o ecossistema de economia circular do setor sucroenergético, que transforma resíduos em novos produtos em escala industrial. “O Brasil é o showroom da transição energética”, complementou o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura (Mapa), Guilherme Campos.
De seu lado, o presidente do Conselho da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), Carlos Ubiratan Garms, salientou que, diante do recrudescimento das questões geopolíticas no comércio internacional, o etanol é um ativo estratégico do Brasil, e que não pode ser tratado como moeda de troca no âmbito de quaisquer negociações.
A solenidade de abertura contou, ainda, com homenagens aos deputados federais Arnaldo Jardim e Marussa Boldrin pelo trabalho de ambos para a aprovação de políticas públicas favoráveis ao segmento sucroenergético. O presidente da Frente Parlamentar do Agronegócio Paulista, deputado Itamar Borges, bem como o secretário de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Guilherme Piai, também participaram da cerimônia, além de extenso conjunto de dirigentes do segmento produtivo da cana. Confira os principais destaques da conferência:
Novas oportunidades para o etanol
O deputado federal Arnaldo Jardim, vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), destacou as novas oportunidades de demanda que estão surgindo para o uso do etanol, como o mercado de combustíveis avançados sustentáveis (SAF para aviação, biobunker para marítimo), a rota tecnológica para a fabricação de hidrogênio verde por meio do biocombustível, biogás a partir da vinhaça e torta de filtro, a elevação de mandatos de mistura, a química verde, entre outras. “A oferta está crescendo e estas demandas precisam ser viabilizadas”, disse. De acordo com o deputado, o setor sucroenergético e, por consequência, o de bioenergias está bem amparado de políticas públicas no Brasil, lembrando três leis aprovadas recentemente: Combustível do Futuro, Paten e Mover.
Segundo Jardim, os biocombustíveis devem ter diferenciais tributários favoráveis em relação aos combustíveis fósseis. Na esfera geopolítica, o presidente da Bioenergia Brasil, Mário Campos Filho, afirmou que o etanol não pode ser usado como moeda de troca em eventuais negociações internacionais: “O etanol é um patrimônio do nosso País.” Também painelista, o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc) do Mato Grosso do Sul, Jaime Verruck, discorreu sobre o potencial do estado em bioenergias.
Judicialização do RenovaBio ameaça mercado de créditos de carbono
O diretor do Departamento de Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME), Marlon Arraes, alertou que a judicialização em torno do RenovaBio pode comprometer quaisquer outras iniciativas referentes ao mercado de créditos de carbono no Brasil, sejam de caráter obrigatório ou voluntário.
Empresas distribuidoras de combustíveis estão contestando na Justiça o cumprimento das metas de descarbonização e a compra de créditos de descarbonização (CBios), conseguindo liminares que as isentam de penalidades. Pela lei do RenovaBio, as distribuidoras são obrigadas a adquirir CBios para compensar a comercialização de combustíveis fósseis. Os CBios são ativos financeiros negociáveis em bolsa, derivados da certificação do processo produtivo de biocombustíveis, com base nos respectivos níveis de eficiência alcançados em relação a suas emissões.
Esse movimento de ações judiciais vem provocando instabilidade no programa, prejudicando a concorrência, impactando metas ambientais e forçando o MME a atuar para reverter as decisões e defender a segurança jurídica do RenovaBio. “O cenário traz riscos, ameaçando a longevidade do programa”, ressaltou o pesquisador da Embrapa Miguel Ivan Novato.
Também painelista, o CEO da BP Bioenergy, Andres Guevara de la Vega, assinalou que o RenovaBio é um dos principais instrumentos para que o Brasil possa alcançar as metas do Acordo de Paris. “O que o programa precisa é de segurança jurídica e previsibilidade regulatória”, disse o executivo.
O Brasil é exemplo global de uso do etanol
O diretor executivo da Organização Internacional do Açúcar (OIA), José Orive, fez um apelo para que o mundo siga o exemplo do Brasil na adoção de biocombustíveis, ao mesmo tempo que países produtores de açúcar passem a ver o etanol como um dispositivo estabilizador de preços do mercado global do adoçante.
Nessa agenda, o dirigente ressaltou que a Índia já vem seguindo a estratégia desenvolvida pelo Brasil de alternar o mix de produção. “Quando os preços do açúcar estão altos, a produção se volta para o adoçante, do contrário, direciona-se para o etanol”, afirmou.
Questionado pelo moderador do painel, o diretor da DATAGRO, Guilherme Nastari, sobre a possibilidade de um mercado futuro mundial de etanol, Orive mencionou que a OIA vem trabalhando junto com a ICE Futures – bolsa de Nova York que baliza as cotações globais do açúcar – para viabilizá-lo. “Vai acontecer, agregando muito valor”, afirmou.
Documento em defesa do RenovaBio
As principais lideranças do setor sucroenergético brasileiro anunciaram na conferência o encaminhamento ao Poder Judiciário de documento em defesa da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), o que, de fato, se consumou e encontrou acolhida no Supremo Tribunal Federal (STF). O motivo da mobilização é que empresas distribuidoras de combustíveis estão contestando na Justiça o cumprimento das metas de descarbonização e a compra de créditos de descarbonização (CBios), conseguindo liminares que as isentam de penalidades.
As ações judiciais vêm provocando instabilidade no programa, prejudicando a concorrência, impactando metas ambientais e forçando o Ministério de Minas e Energia (MME) a atuar para reverter as decisões e defender a segurança jurídica do RenovaBio.
De acordo com o presidente da DATAGRO, Plinio Nastari, o documento lista os benefícios socioambientais e econômicos do RenovaBio, assinalando tanto a importância do programa para a descarbonização do Brasil e para o cumprimento das metas ambientais do País como resultados proporcionados em geração de renda, emprego e desenvolvimento.
STF confirma constitucionalidade do RenovaBio
No dia 14 de novembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou, por unanimidade, as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs 7596 e 7617) que questionavam a Lei nº 13.576/2017, responsável por instituir a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio). Com a decisão unânime, o STF reforçou a previsibilidade regulatória e assegurou o ambiente de confiança necessário para a manutenção e atração de investimentos no setor de combustíveis sustentáveis.
A confirmação da constitucionalidade consolidou o RenovaBio como política de Estado e referência internacional em descarbonização, fortalecendo o papel do Brasil na transição para uma economia de baixo carbono. O programa segue demonstrando capacidade de aliar desenvolvimento econômico, inovação e sustentabilidade, ao incentivar uma matriz de transportes mais limpa e alinhada às metas do Acordo de Paris.
Internacionalização do etanol
Outra agenda fundamental para o setor, ressaltou o presidente da Bioenergia Brasil, Mário Campos Filho, é a necessidade de expansão do etanol nos mercados internacionais: “Diante de nossa oferta crescente, que tem o biocombustível a partir de grãos, bem como a ampliação geográfica de plantas em território nacional, essa questão se torna crucial”. Por sua vez, o diretor-presidente do Arranjo Produtivo Local do Álcool (Apla), Henrique Berbert de Amorim Neto, salientou que fomentar a exportação da tecnologia nacional em bioenergia também é esforço muito bem-vindo.
Do ponto de vista de incentivo ao consumo doméstico, o presidente do Sindaçúcar-AL, Pedro Robério de Melo, lembrou que, no horizonte dos próximos anos, com a implantação gradual dos dispositivos da reforma tributária, haverá pacificação estadual do diferencial de tributos em relação ao etanol, o que fará com que o biocombustível ganhe competitividade além dos principais estados produtores. Nesse sentido, Nastari apresentou a proposta para que parte da renda obtida pelas usinas e produtores com os CBios possa ser revertida ao consumidor como medida de estímulo ao uso do biocombustível. “Tecnologias automotivas já permitem identificar quando e quanto o motorista usa de gasolina ou etanol em seu veículo”, disse.
Descarbonização com biocombustíveis
No âmbito da mobilidade sustentável, o diretor de Sustentabilidade da Anfavea, Henry Joseph Júnior, pontuou que a descarbonização no segmento de veículos leves no Brasil só será possível com o uso cada vez maior dos biocombustíveis, independentemente de rotas tecnológicas. “É um ativo que poucos países possuem”, disse. “O sucesso da tecnologia do carro flex deu confiança ao consumidor e reposicionou o etanol como um combustível competitivo.”
Na avaliação do vice-presidente de Assuntos Regulatórios da Stellantis, João Irineu Medeiros, embora os carros 100% elétricos sejam uma tendência, altos custos de produção e infraestrutura de abastecimento são fatores limitantes para a expansão, o que torna a motorização híbrida-flex uma alternativa mais viável. “Considerando o conceito do ciclo de vida do berço ao túmulo, o etanol é mais limpo se comparado ao elétrico puro, e o híbrido-flex representa o melhor dos dois mundos”, afirmou. “Dessa forma, o Brasil está à frente na jornada da transição energética ao conciliar tecnologia, baixo custo e redução de emissões.”
Setor sucroenergético se transforma em ecossistema de energia renovável
Muito mais do que apenas açúcar e etanol, o setor sucroenergético se tornou um grande ecossistema gerador de energia renovável, acentuaram especialistas que participaram do painel. A sessão contou com participação do fundador e CEO da Agrion Fertilizantes, Ernani Judice; do gerente de Eficiência Energética da Comerc Energia, Matheus Braga; do presidente executivo da Associação da Indústria de Cogeração de Energia (Cogen), Newton Duarte; do gerente de Estratégia e Negócios da Airbus, Tarcísio Soares; e do CEO da Orplana, José Guilherme Nogueira.
Nesse campo, claro, o etanol é o carro-chefe, seguido pela bioeletricidade a partir da biomassa da cana e, mais recentemente, do biogás/biometano gerados de sobras e resíduos orgânicos, como a vinhaça ou a torta de filtro. A agenda agora também contempla oportunidades com o combustível sustentável de aviação (SAF, em inglês), combustível marítimo de baixo carbono (biobunker) e o hidrogênio verde.
Para dar suporte a essa expansão, o diretor de Internet das Coisas e 5G da TIM Brasil, Alexandre Dal Forno, lembrou da importância dos avanços que estão ocorrendo em conectividade e digitalização no agro. O CEO do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), César Barros, recordou, ainda, o constante movimento em busca de novas variedades, com o aprimoramento genético destinado a adaptações de solo e clima.
Setor sucroenergético aproximou o agro do mercado de capitais
“O agronegócio cresceu mais rápido do que as fontes tradicionais de financiamento”, afirmou o sócio da XP, Pedro Freitas, acrescentando que, diante do desafio em busca da diversificação de fontes de recursos, o setor sucroenergético foi pioneiro em aproximar o agro do mercado de capitais.
Já o chefe do departamento de biocombustíveis do BNDES, Mauro Mattoso, mencionou que a instituição aprovou cerca de R$ 4,3 bilhões em 2024 – o maior valor desde 2010 – para o financiamento de novos projetos na área de biocombustíveis, e que o banco tem no radar apoiar iniciativas direcionadas a combustíveis avançados.
Centro-Sul deve processar 625 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2026/27
As usinas do Centro-Sul do Brasil deverão processar 625,5 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2026/27 – que terá início em 1º de abril do ano que vem –, aponta a primeira projeção da DATAGRO. Para a temporada em vigor (2025/26), a DATAGRO estima a moagem de 607,3 milhões de toneladas. “A safra 2025/26 tem sido marcada pela heterogeneidade, mas a produtividade média segue alinhada com nossa previsão”, afirmou o presidente da DATAGRO, Plinio Nastari.
Voltando as atenções para a safra 2026/27, a DATAGRO prevê que a produção de ATR ficará em 139,5 kg/tc – ante 137,4 kg/tc na temporada 2025/26 – e o mix para açúcar em 52% – praticamente igual aos 52,1% projetados para o atual ciclo. Com isso, a produção de açúcar deve totalizar 43,2 milhões de toneladas, volume que, se confirmado, ficará 4,3% acima das 41,4 milhões de toneladas estimadas para a safra 2025/26.
A DATAGRO também ajustou suas estimativas para o balanço mundial de açúcar. Para a safra 2024/25, a consultoria revisou sua estimativa de déficit de 5,22 para 5 milhões de toneladas. Para a safra 2025/26, a previsão saiu de um superávit de 920 mil toneladas para um saldo positivo de 1,58 milhão de toneladas.
Feira de negócios gera oportunidades
Além de dois dias de amplo e detalhado conteúdo sobre a atual e futura agenda do setor sucroenergético, a 25ª Conferência Internacional DATAGRO sobre Açúcar e Etanol também apresentou na programação a feira de negócios. Entre fabricantes de insumos, de novas tecnologias, montadoras de veículos, operadoras de telecom, presenças institucionais – entidades e governos –, a feira de negócios reuniu mais de 20 marcas, com foco no segmento da cana, etanol e bioenergias.
“Trata-se de excelente evento para estar perto do tomador de decisão do segmento, que tem grandes oportunidades para o biogás a partir de resíduos da cana”, disse Gustavo Paranhos, da Planet, especializada em plantas de biogás.
Rafael Caitano, da Comerc Energia, geradora de energia renovável do grupo Vibra, endossa o perfil de alto nível da audiência, que “cria um ambiente favorável tanto à prospecção quanto à fidelização de quem já é cliente”.
Para Naly Rodrigues, executiva da Fassagro, especializada em fertilizantes especiais, a feira apresenta um potencial enorme de networking com os principais agentes do setor. Fernando Lapa, da Hydrocavit, diz que o evento foi fundamental para apresentar a tecnologia da empresa para a cadeia produtiva da cana, especialmente pelo fato de que se trata de algo novo. A Hydrocavit trabalha com o processo de hidrocavitação, baseado na formação e implosão de bolhas em um líquido para promover a quebra de partículas e a liberação de energia. “Nossa solução permite maior eficiência em diversos processos industriais, otimizando o uso de recursos, reduzindo desperdícios e elevando a qualidade dos produtos”, concluiu.
FOTOS:
DIA 1: https://drive.google.com/drive/folders/1rfro3rfFF0G5F-92xW-lmMOoCWiO5Pv5
DIA 2: https://drive.google.com/drive/folders/1M6FlgSvwXkn9kYGwxHcAxrvgJ5Ps131b
GERAIS: https://drive.google.com/drive/folders/1ljmzz_Pfin-aXUZg-hjLkncZISabuwww

