Halal sem fronteiras

O Brasil já lidera as exportações de proteína bovina e de aves certificadas, seguindo preceitos religiosos da fé islâmica, e agora busca ganhar espaço em novos mercados
Edição: 52
18 de fevereiro de 2026

Por Ronaldo Luiz

O mercado halal já é um titã do comércio global, movimentando mais de US$ 2 trilhões por ano, com a proteína animal na dianteira dessa cadeia. As projeções da Nielsen mostram outro recorte: o universo específico de alimentos halal deve ultrapassar US$ 1,5 trilhão até 2027. O avanço tem origem clara: a população muçulmana do planeta já supera 1,9 bilhão de pessoas e cresce quase duas vezes mais rápido que a média global, assegurando um apetite cada vez maior por proteínas produzidas dentro dessas regras. O halal há tempos extrapolou o mapa islâmico. Ele avança por mercados com grandes comunidades muçulmanas, mas também por regiões onde a certificação virou sinônimo de rastreabilidade, rigor sanitário e abate dentro de padrões éticos – atributos que dialogam com consumidores que não seguem preceitos religiosos, mas valorizam a qualidade do processo produtivo.

O mercado halal, de fato, vive um novo ciclo de investimentos. Relatórios globais têm mostrado um fluxo crescente de aportes na produção certificada, inclusive em países onde o Islã não é maioria – é um sinal de que o setor virou pauta estratégica da indústria de alimentos. O Brasil tem papel relevante nesse movimento. Mesmo com menos de 1% da população se declarando muçulmana, o país é hoje o maior exportador de proteínas bovina e de aves com certificação halal, de acordo com Youssef Khalawi, secretário-geral da Câmara Islâmica de Comércio e Indústria. “Antes da pandemia, em um ano inteiro, raramente chegávamos a três relatórios sobre negócios halal”, diz Khalawi. “Hoje, a cada mês, recebemos ao menos cinco levantamentos. Ou seja, muitos investidores estão entrando nesse mercado.”

Além dos tradicionais alimentos, a produção de outros bens Halal, como cosméticos e medicamentos, está em alta no mundo
Youssef Khalawi, da Câmara Islâmica: “Muitos investidores estão entrando nesse mercado”

Na mesma linha, o vice-CEO do Saudi Halal Center, Yousif Alharbi, pondera que o halal transcende o rótulo. Para ele, trata-se de um sistema de valor global, ancorado em integridade e responsabilidade. “O halal aproxima nações por meio da confiança, assegurando conformidade ética e expectativas elevadas de qualidade em toda a cadeia”, diz Alharbi.

A ampliação das exportações brasileiras para países muçulmanos passa por três eixos: diversificar a pauta comercial, intensificar o diálogo diplomático com o bloco e aumentar o portfólio de produtos embarcados com certificação halal. A avaliação é do secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Mohamad Orra Mourad. Segundo ele, o Brasil já opera em escala relevante nesse mercado. No ano passado, as exportações para os 57 países da Organização para a Cooperação Islâmica (OCI) alcançaram US$ 28 bilhões apenas nas categorias de alimentos e bebidas, um avanço de 20% sobre o ano anterior.

Apesar do número expressivo e do ritmo forte de crescimento, a pauta ainda é concentrada em produtos básicos. “Cabe a nós buscar uma maior diversificação”, diz Mourad, acrescentando que o fortalecimento da interlocução diplomática entre o governo brasileiro e os países islâmicos pode motivar a efetivação de novos acordos de livre-comércio com os países da OCI.
O secretário-geral da Câmara Árabe aponta também para um desafio interno: ampliar a produção halal brasileira para além das proteínas animais. Embora o Brasil lidere o fornecimento de proteínas bovina e de aves com certificação, enviando cerca de US$ 6 bilhões por ano aos países da Organização para a Cooperação Islâmica, o portfólio ainda é limitado em outras categorias de alimentos.

Mourad cita a existência de pelo menos uma iniciativa de fomento que tem contribuído para o avanço brasileiro no mercado halal de alimentação: o Projeto Halal do Brasil, movimento da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira e da agência ApexBrasil, de promoção de exportações, para capacitar empresas a obter certificação halal.

Mohamad Meourad, da Câmara Árabe-Brasileira: o Brasil virou um país relevante para o setor

A certificação halal, ressalve-se, é peça-chave para disputar os mercados islâmicos. Como destaca Mohamad Orra Mourad, o selo funciona como um atestado de conformidade cultural e religiosa, assegurando ao consumidor muçulmano que o alimento foi produzido em respeito às tradições da fé islâmica. Além disso, o halal está profundamente ligado a boas práticas e aos pilares do ESG – um conjunto de regras que seduz consumidores no mundo inteiro.
“Fora do mundo islâmico, não há país cuja certificação halal tenha credibilidade equiparável à do Brasil”, diz o diretor de Exportação da Seara Alimentos, Marcelo Siegmann. De acordo com o executivo, o selo halal brasileiro é mais respeitado, inclusive, do que as certificações europeias – o que confere ao Brasil uma inegável vantagem competitiva.

Nos países islâmicos, a Seara vende derivados de aves com certificação halal, obrigatória para produtos de origem animal. Siegmann lembra ainda que o halal brasileiro possui credibilidade superior à certificação de países ocidentais com populações muçulmanas muito maiores que a do Brasil. “Além dos alimentos, temos condições de ampliar a produção de bens halal e conquistar novos mercados em países muçulmanos, incluindo em setores como cosméticos e medicamentos, que também exigem certificação halal”, diz.

A MBRF, empresa resultante da fusão entre Marfrig e BRF, nota um crescimento gradual na procura por alimentos de padrão islâmico fora da região do Golfo, inclusive em países onde muçulmanos são minoria na população. De acordo com o vice-presidente global de Bovinos da empresa, Alisson Navarro, esse movimento vem sendo percebido há alguns anos e tem se intensificado, sugerindo que os produtos halal da MBRF podem estar conquistando a preferência de consumidores não muçulmanos. “A China é um exemplo de país que vem demandando mais produtos certificados halal a cada ano”, diz o executivo.

Atualmente, 20% da receita total da MBRF corresponde à exportação de derivados bovinos e de aves com certificação halal para os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), que reúne Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã. Nesses mercados, a MBRF está presente há 50 anos, e sua marca Sadia lidera com 36% de market share. Com o halal entrando no radar de mais indústrias e consumidores, o Brasil se movimenta para abrir novas prateleiras no mundo.

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