Global – O lado cosmopolita do agro

Durante a COP30, em Belém, cientistas mostram que a curva do metano só vai ceder se o mundo atacar com rigor as emissões da energia a carvão e acelerar o que já foi prometido para 2030. Confira esses e outros detaques do mundo.
Edição: 52
11 de fevereiro de 2026

Brasil

Clima sob alerta
Durante a COP30, em Belém, cientistas mostram que a curva do metano só vai ceder se o mundo atacar com rigor as emissões da energia a carvão e acelerar o que já foi prometido para 2030

Os líderes globais receberam durante a COP30, em Belém, um recado incômodo: as emissões de metano continuam em trajetória de alta, mesmo após o pacto de 2021. A advertência tem base no Relatório Global sobre o Estado do Metano, articulado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Coalizão para o Clima e o Ar Limpo (CCAC). As instituições reconhecem avanços, mas fazem um prognóstico duro: manter o aquecimento médio do planeta em 1,5 °C até 2050 será improvável se o mundo não acelerar drasticamente o cumprimento das metas, encurtando o caminho entre compromissos e resultados.
Há razões concretas para o alarme. O metano – gás de efeito estufa liberado tanto na cadeia dos combustíveis fósseis quanto na digestão de rebanhos – é um acelerador poderoso do aquecimento global. Segundo a Agência Internacional de Energia, ele responde por aproximadamente 30% da elevação de temperatura do planeta desde a Revolução Industrial. Mais ágil que o dióxido de carbono na captura de calor, o metano também tem um ciclo atmosférico mais curto: permanece na atmosfera por 10 a 12 anos, enquanto o CO? se estende por muitas décadas. Essa diferença faz com que cortes nas emissões produzam impactos térmicos mais rápidos e perceptíveis. Ainda assim, projeções indicam que, mantido o ritmo atual, o encolhimento das emissões será de apenas 8% até 2030 – bem distante dos 30% pactuados por 159 nações há quatro anos.
O diagnóstico vem acompanhado de um roteiro de reação. O documento sustenta que a redução compatível com a urgência de 2030 depende, sobretudo, do uso da regulação já em vigor – a exemplo das normas aplicadas nos Estados membros da UE. O relatório vai além do marco legal e defende a ampliação do uso de tecnologias capazes de dar às indústrias instrumentos para mapear, medir e mitigar emissões com mais precisão. Nesse esforço, o PNUMA e a CCAC estimam que mais de 80% da meta global de corte de metano até 2030 pode ser alcançada com custos reduzidos, desde que o setor de energia lidere a transformação, concentrando 72% do potencial total de mitigação, seguido por resíduos (18%) e agricultura (10%).
O gargalo mais crítico, portanto, está no setor de energia – em especial na geração elétrica a carvão, ainda distante das metas climáticas. Na Europa, a Polônia desponta como vilã: o país lidera as emissões de metano associadas às minas de carvão, respondendo por mais de 60% do total do setor no bloco nos últimos anos. O problema, porém, é sistêmico. Mesmo onde há leis e regulações aprovadas, a combinação entre baixa fiscalização e a aplicação irregular de multas compromete a eficácia das regras. Diante da urgência do desafio, torna-se inescapável acelerar o passo contra as emissões.

Europa

Defensivos em foco

Um estudo feito na Europa mediu a exposição humana a defensivos agrícolas. A investigação foi coordenada por 31 cientistas ligados a universidades e centros de pesquisa da Holanda, França, Itália, Portugal, Croácia, Eslovênia e Dinamarca. Foram recrutados 641 voluntários, que usaram sensores vestíveis, como uma pulseira de silicone, projetada para mapear a exposição a 193 substâncias classificadas como pesticidas. Em laboratório, 173 compostos distintos foram detectados nas amostras analisadas ¬– e todas as pulseiras apresentaram ao menos um resíduo, com média de 20 substâncias por participante.
O grupo mais impactado foi o de produtores rurais de manejo convencional, sem protocolos orgânicos, com média de 37 substâncias identificadas por pessoa. Em 72% dos participantes, um trio de inseticidas apareceu de forma recorrente: permetrina, clorpirifós e DDE. Mesmo moradores distantes de áreas agrícolas e consumidores sem trabalho direto no campo exibiram vestígios de 17 dessas substâncias. Confira os principais resultados:

641 participantes
10 países europeus
193 pesticidas testados
173 pesticidas identificados
20 substâncias, em média, encontradas nos participantes do estudo
37 substâncias encontradas em agricultores de produtos não orgânicos
17 substâncias identificadas em consumidores que vivem longe de fazendas
72% dos testes indicaram a presença de três inseticidas: permetrina, clorpirifós e DDE

México

Día de los Muertos ameaçado

As flores de cempasúchil, variedade da Tagetes erecta, atravessam séculos como um dos símbolos mais vibrantes do Día de los Muertos – e, graças ao tom alaranjado de suas pétalas, enfeitam altares e oferendas, iluminando ruas e mercados pelo México. O peso da flor, no entanto, não é apenas espiritual. No sul da Cidade do México, em regiões agrícolas como Xochimilco, ela sustenta um mercado crucial. Neste ano, a produção movimentou US$ 2,7 milhões em receita para os produtores, segundo estimativas oficiais. Porém, eventos climáticos cada vez mais erráticos interromperam um ritual agrícola que parecia previsível: as sementes, tradicionalmente plantadas em julho, cresciam sob a cadência da estação chuvosa, acompanhando o recuo gradual das precipitações até o início do outono. Mas chuva fora do tempo devastou quase 15 hectares de flores e reduziu pela metade a colheita de parte dos agricultores, comprimindo margens e ameaçando o abastecimento na temporada de maior procura. Agora, pesquisadores tentam encontrar variedades mais resistentes, capazes de suportar as variações climáticas e, assim, manter viva a tradição.

Europa

O campo envelhece

Na União Europeia, o campo está envelhecendo: a idade média dos trabalhadores rurais chegou a 57 anos, segundo levantamentos recentes, e só 12% dos profissionais têm menos de 40 anos. A resistência dos jovens em seguir carreira na agricultura já acende alertas sobre a segurança alimentar do continente, como destacou a Comissão Europeia. Para frear essa tendência, o bloco lançou uma estratégia voltada à “renovação geracional”. O plano prevê um pacote inicial de até 300 mil euros em apoio a novos agricultores, além de programas para jovens empreendedores rurais e a criação de um projeto para facilitar a transferência de propriedades, ampliar o acesso às terras agrícolas e coibir a especulação imobiliária. A meta é dobrar a participação de produtores com menos de 40 anos até 2040, atingindo 24% do total.

Japão

O avanço das agritechs

O agronegócio japonês vive um momento vulnerável: 80% dos agricultores têm mais de 70 anos e 60% dos alimentos consumidos no país vêm do exterior, segundo dados recentes do Ministério da Agricultura. Em meio ao envelhecimento da força de trabalho rural e à forte dependência de importações, as agritechs tornaram-se vitais para o futuro do agro. Nesse campo, o país avança: um levantamento da AgFunder mostra que o Japão passou a captar 13% de todos os investimentos em inovação no agro na Ásia, mais que o dobro da fatia registrada um ano antes. A participação crescente já coloca o Japão no terceiro posto entre os maiores destinos de capital agtech do continente, atrás de China e Índia.

Palestina

Oliveiras colhidas sob tensão

As oliveiras são cultivadas na Palestina há milhares de anos. O ciclo da colheita começa a ser organizado em setembro e se estende até novembro, mobilizando territórios, comunidades e laços familiares. Mais de 100 mil famílias dependem diretamente das azeitonas para viver, e quase 90% da produção segue para a fabricação de azeite, ingrediente basilar da culinária palestina e presença indispensável na mesa cotidiana. Parte dos frutos é reservada para consumo in natura, transformada em petiscos e aperitivos que acompanham encontros e celebrações. O azeite ainda tem outros usos: há quem o converta em sabão artesanal e quem aproveite os galhos da árvore para dar forma a peças de artesanato. Em 2025, sob o impacto da guerra, a colheita adquiriu um peso simbólico, tornando-se mais que um ritual agrícola – é um ato de resistência, capaz de unir a população em um dos períodos mais desafiadores de sua história recente.

Senegal

Pastoreio que recupera o solo

No Senegal, a percepção sobre o mob grazing começa a mudar. Essa técnica de pastoreio, historicamente associada à devastação ambiental, passa a ser testada na regeneração de áreas áridas, onde cerca de um terço dos pastos já está degradado, em um cenário agravado por chuvas irregulares e estiagens prolongadas. No experimento, agricultores reuniram seus rebanhos e os direcionaram a zonas delimitadas, evitando que vagassem livremente. A alta concentração força o gado a consumir diferentes gramíneas, enquanto o pisoteio dos cascos rompe a crosta mais rígida do solo, facilitando a infiltração de água. Após o pastejo, o terreno descansa por um ano para se recuperar. Os primeiros resultados animam: áreas que passaram pelo manejo absorveram 60% mais água nas chuvas seguintes, um sinal de que, na seca extrema, o mob grazing pode ser parte da solução quando bem direcionado.

Estados Unidos

Da fazendo ao Halloween

O interesse crescente pelo Halloween, especialmente nos últimos cinco anos, tem feito com que alguns fazendeiros aproveitem a chance para manter os negócios funcionando. Na época da festa, celebrada no final de outubro, eventos são organizados para vender abóboras a preços mais altos que os praticados normalmente. As maiores chegam a custar US$ 12, e o valor arrecadado tem sido usado para pagar as contas das fazendas. O fenômeno é visto há mais tempo nos Estados Unidos, onde a tradição de decorar as casas com abóboras e outros elementos assustadores existe há mais tempo. Mas fazendeiros de outras regiões, como na Inglaterra, também estão sentindo os efeitos da mudança. Além do benefício financeiro, os produtores afirmam que essas ações ajudam a diminuir a distância entre a cidade e o campo.

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