Global – O lado cosmopolita do agro

Invasão perigosa – O avanço do mar sobre aquíferos de água doce ameaça a agricultura em diferentes partes do mundo. Confira esses e outros destaques do mundo.
Edição: 54
27 de maio de 2026

MUNDO – O AVANÇO DO SAL

A água salgada invade aquíferos, compromete o consumo e já muda a agricultura em diversas regiões do planeta

Há um problema silencioso avançando sobre diferentes partes do planeta, da Gâmbia aos Estados Unidos: a intrusão de água salgada em fontes antes confiáveis de água potável. Trata-se de um processo lento, quase invisível no dia a dia, mas com potencial devastador. Projeções indicam que, até 2050, todos os continentes, com exceção da Antártida, terão áreas costeiras com pelo menos um quilômetro de avanço da salinidade para o interior. Na prática, águas de mares e oceanos passam a invadir aquíferos de água doce, comprometendo o abastecimento e a produção agrícola.
Países mais vulneráveis, como Vietnã e Bangladesh, enfrentam perdas significativas, mas o problema também atinge economias ricas. Nos Estados Unidos, trechos da Costa Leste começam a sentir o impacto. Na Flórida e na Louisiana, moradores relatam gosto salgado na água da torneira, um sinal de contaminação que pode trazer riscos à saúde, como aumento da pressão arterial e complicações na gestação. Na Gâmbia, produtores de arroz viram a produtividade despencar. Em Bangladesh, parte da agricultura foi convertida para a criação de camarões, uma alternativa econômica que, no entanto, acelera a degradação do solo.
A origem do problema está diretamente ligada às mudanças climáticas. O aumento do nível do mar, a elevação das temperaturas e a alteração nos regimes de chuva desequilibram a relação entre água doce e salgada, favorecendo o avanço dos oceanos sobre os reservatórios subterrâneos, sobretudo em regiões costeiras de baixa altitude.
Diante desse cenário, os governos buscam soluções. Na Flórida, sistemas de monitoramento de salinidade e separação de água estão sendo implantados para proteger o abastecimento. No Vietnã, bilhões de dólares foram investidos em comportas para conter o avanço do mar no Delta do Mekong, embora haja relatos de falhas operacionais. China e Holanda apostam no reúso de água: o esgoto tratado é devolvido aos rios para elevar o nível dos reservatórios e conter a intrusão salina.

ITÁLIA – DA CINZA AO VINHO

Nas cidades ao redor do Etna, o vulcão ativo da Sicília, a queda de cinzas faz parte da rotina. A cada erupção, toneladas de material são lançadas ao ar e podem se espalhar por até 800 quilômetros. Durante décadas, esse fenômeno foi tratado como um transtorno para os produtores locais: além de danificar sistemas de irrigação e afetar lavouras, exigia a mobilização de equipes inteiras para a limpeza dos campos.
Mas isso pode mudar. Um projeto da Universidade de Catania investiga o potencial das cinzas vulcânicas em diferentes aplicações, que vão da construção civil, como insumo para pavimentação e isolamento, à agricultura. Os primeiros resultados indicam que o material pode funcionar como fertilizante natural. Na região, viticultores já passaram a utilizá-lo para melhorar a drenagem do solo e enriquecer a terra com minerais como ferro, alumínio e sílica. Ainda há entraves regulatórios para o uso em larga escala, mas a pesquisa pode abrir caminho para novas regras, e transformar um velho problema em vantagem produtiva.

PALESTINA – A GUERRA CONTRA O CAMPO

Desde o início da guerra entre Israel e o Hamas, áreas agrícolas na Faixa de Gaza foram severamente atingidas pelos bombardeios. Além da destruição das lavouras, agricultores ficaram meses sem acesso às terras, impedidos de plantar ou colher. Mesmo após o cessar-fogo firmado no fim de 2025, a instabilidade persiste – e o retorno ao campo tem revelado um cenário devastado. Um relatório da FAO estima que cerca de 80% das terras cultiváveis foram danificadas, enquanto apenas 5% permanecem em condições de uso imediato.
A recuperação avança de forma lenta e desigual, esbarrando não apenas na destruição física, mas também em restrições de acesso. Parte dessas áreas está situada nas chamadas “zonas de tampão”, classificadas por Israel como regiões de segurança. Na prática, isso limita ou impede o retorno de agricultores e levanta o risco de perda permanente de terras produtivas. Mesmo onde o cultivo tenta recomeçar, a reconstrução do setor agrícola, essencial para a subsistência local, ainda parece distante.

ÍNDIA – A MANGA SE REINVENTA

Maior produtor mundial de manga, a Índia está acelerando mudanças para preservar o cultivo diante de um clima cada vez mais instável. O país, que reúne mais de 700 variedades da fruta, muitas delas adaptadas a condições regionais específicas, investe agora no desenvolvimento de novas linhagens mais resistentes a ondas de calor, secas e variações climáticas extremas. Técnicas de edição genética ajudam a encurtar um processo tradicionalmente lento, permitindo ganhos mais rápidos em produtividade.
Essa transformação já chega ao campo. Produtores começam a substituir variedades tradicionais por cultivares mais resistentes, que apresentam melhor desempenho em condições adversas. Ao mesmo tempo, práticas de manejo ganham importância: o controle da copa e o uso de reguladores de crescimento permitem ajustar o porte das árvores, induzir a floração e antecipar a colheita.

ESPANHA – A FEBRE DO PISTACHE

A febre do pistache chegou à Espanha – e, ao contrário de outros países, já começa a se traduzir em produção relevante. Em 2018, regiões como Castela-La Mancha, Andaluzia e Aragão colhiam cerca de 8 mil toneladas por ano. No ano passado, o volume saltou para 42 mil toneladas. Apesar da expansão acelerada, o país ainda ocupa posição modesta no mercado global.
Para ganhar escala, os produtores têm mudado a estratégia: em vez de vender apenas a matéria-prima, avançam no processamento industrial, onde o valor agregado é maior. Hoje, apenas 10% da produção passa por esse tipo de transformação. Entre as apostas está a pasta de pistache, segmento tradicionalmente dominado pela Itália. Para disputar mercado, os espanhóis apostam em diferenciais como rastreabilidade total e produção sem aditivos. Com o consumo global em alta, o movimento abre uma nova frente agrícola para o país.

SENEGAL – CELEIRO AFRICANO

Duas fazendas no Senegal se tornaram peças-chave no abastecimento de vegetais frescos no Reino Unido. Os projetos foram iniciados no começo dos anos 2000 pelo agrônomo Michael Laurent, que usou imagens de satélite para identificar áreas com potencial agrícola. A região senegalesa de Saint-Louis foi escolhida por reunir alta incidência de luz solar, disponibilidade de água do rio Senegal, terra acessível e mão de obra local. O que começou de forma modesta evoluiu para uma operação de mais de 2 mil hectares e cerca de 9 mil funcionários.
Hoje, a produção é de 2 milhões de maços de cebolinha, 100 toneladas de vagem e 80 toneladas de rabanete por semana. Aproximadamente 70% desse volume abastece redes de supermercados no Reino Unido, enquanto o restante segue para Alemanha e Holanda. Hortaliças, milho e outros vegetais completam a produção. O Reino Unido importa cerca de 40% dos alimentos que consome, mas essa proporção chega a 90% durante o inverno. Nesse cenário, fazendas como as de Saint-Louis se tornaram fundamentais para o abastecimento.

ESTADOS UNIDOS – PÁSSAROS AMEAÇADOS

Um novo estudo indica que o declínio das populações de aves está ganhando velocidade. Pesquisa conduzida pela Universidade de Ohio analisou 261 espécies entre 1987 e 2021 e constatou que cerca de metade apresentou queda significativa no número de indivíduos, enquanto um quarto registrou perdas em ritmo cada vez mais rápido. O diferencial do levantamento está na abordagem: além de medir o tamanho das populações, os pesquisadores mapearam onde as perdas são mais intensas e quais fatores estão por trás do fenômeno.
Os impactos são mais visíveis em regiões como o Meio-Oeste americano e a Califórnia, onde mudanças climáticas e o uso de defensivos pressionam os habitats naturais. O alerta vai além da biodiversidade. Aves desempenham funções essenciais nos ecossistemas – da polinização à dispersão de sementes e ao controle de pragas. A redução dessas populações, portanto, é um risco para o equilíbrio dos sistemas agrícolas e naturais.

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