COMO A GUERRA AFETA O CAMPO

Crise no oriente médio amplia custos, ameaça cadeias produtivas e coloca à prova o agronegócio brasileiro
Edição: 54
8 de junho de 2026

Por Marco Ripoli

Na virada de fevereiro para março de 2026, a escalada das tensões no oriente médio reacendeu um dos principais pontos de fragilidade do comércio global. Episódios envolvendo irã, israel e ativos estratégicos dos estados unidos trouxeram novamente ao centro do debate um risco conhecido, mas ainda subestimado: a vulnerabilidade das cadeias agroindustriais a choques geopolíticos. Não se trata apenas de segurança internacional. Trata-se de fluxo de mercadorias, custo de insumos, previsibilidade logística e, em última instância, da margem do produtor rural a milhares de quilômetros de distância. No mundo atual, uma crise no golfo pérsico não é regional, mas sistêmica – e seus efeitos se propagam com velocidade crescente.

Em 2025, o brasil exportou us$ 12,4 bilhões em produtos agrícolas para o oriente médio, o equivalente a 7,4% de tudo que o agro nacional vendeu ao mundo. O irã, sozinho, absorveu us$ 2,9 bilhões. Não estamos falando de um mercado periférico, mas de um eixo relevante da demanda global.

O Estreito de Ormuz responde por cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo

Em cadeias específicas, essa dependência assume caráter crítico. O oriente médio respondeu por 29% das exportações brasileiras de carne de frango, totalizando 1,5 milhão de toneladas. No milho, a participação foi ainda mais expressiva: 31,5% do volume exportado, ou 12,9 milhões de toneladas. O irã destacou-se como principal comprador individual de milho brasileiro, com cerca de 9 milhões de toneladas, aproximadamente 22% das exportações totais dessa commodity.
Conflitos na região não impactam apenas a demanda, mas afetam diretamente a logística global. O estreito de ormuz concentra cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo, enquanto o bab el-mandeb é peça-chave para o tráfego entre ásia, europa e parte da áfrica.

Para o exportador brasileiro, isso se traduz em aumento imediato de fretes, elevação dos prêmios de seguro e redirecionamento de rotas marítimas. Navios passam a contornar o continente africano, adicionando semanas às operações e custos relevantes à cadeia logística. Além disso, a região atua como importante ponto de abastecimento para embarcações que seguem para a ásia. Quando esse sistema é pressionado, o impacto extrapola o oriente médio e se espalha por toda a malha global de transporte. O resultado é claro: mais custo, mais incerteza e menor previsibilidade.

Se a logística é o sistema nervoso do comércio global, os fertilizantes são seu insumo vital, e o brasil permanece altamente exposto. O país importa mais de 85% dos fertilizantes que consome. Rotas associadas ao oriente médio concentram 45% da ureia global, 25% da amônia e volumes relevantes de dap, map e enxofre.

Em 2025, 15,6% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo brasil tiveram origem na região. Isoladamente, esse número pode parecer administrável. No entanto, somado à elevada concentração de fornecedores – com china, rússia e nigéria respondendo por mais de 70% do volume –, o quadro revela uma grande vulnerabilidade. Choques recentes confirmam essa fragilidade: aumentos de preços entre 10 e 12% em um único dia, acompanhados pela suspensão de negociações por parte de fornecedores.

Tensões no oriente médio historicamente pressionam os preços do petróleo, com impacto direto sobre o custo do diesel no brasil. Desde operações mecanizadas no campo até o transporte rodoviário de grãos e a distribuição de alimentos, o encarecimento do combustível eleva custos ao longo de toda a cadeia. Ao mesmo tempo, fertilizantes nitrogenados dependem do gás natural como insumo básico, ampliando o efeito da volatilidade energética sobre os custos de produção agrícola. O resultado é uma compressão simultânea de margens, tanto na produção quanto na logística, que tende a se propagar rapidamente por todo o sistema agroindustrial.

O agronegócio brasileiro construiu, ao longo das últimas décadas, uma notável capacidade de adaptação. Diversificou mercados, incorporou tecnologias e ampliou sua competitividade global. Além disso, soube aproveitar oportunidades em momentos de ruptura, como na guerra comercial entre estados unidos e china ou nas disrupções provocadas pelo conflito entre rússia e ucrânia.

O problema é que a estrutura exportadora brasileira ainda é concentrada em poucos mercados e cadeias. A dependência da china já representava um ponto de atenção. Agora, soma-se a instabilidade no segundo eixo comercial relevante: o mundo árabe-muçulmano. O brasil é líder global na produção e exportação de carne halal, uma vantagem construída ao longo de anos de adequação a padrões rigorosos. Perder acesso a esse mercado, mesmo que temporariamente, implica abrir espaço para concorrentes e comprometer posicionamentos consolidados.

Os conflitos no Oriente Médio expõem a vulnerabilidade do agro a choques geopolíticos

Ocupamos hoje uma posição singular no cenário internacional: a de uma potência média com alta relevância alimentar. O brasil mantém relações comerciais com múltiplos polos de poder – estados unidos, china, união europeia, oriente médio e rússia –, o que historicamente garantiu flexibilidade. No entanto, crises geopolíticas tendem a reduzir esse espaço. O agronegócio passa a desempenhar também um papel estratégico na política externa, deixando de ser apenas um sector económico.

Não há solução simples para um problema que combina geopolítica, logística global, dependência de insumos e volatilidade energética. Mas há direções claras que podem ser tomadas:

  • Diversificação de mercados: reduzir concentração em destinos vulneráveis e acelerar a abertura de mercados na áfrica, os conflitos no oriente médio expõem a vulnerabilidade do agro a choques geopolíticos sudeste asiático e américa central.
  • Segurança de insumos: transformar potencial doméstico – como reservas minerais e biotecnologia – em produção efetiva.
  • Infraestrutura logística resiliente: ampliar rotas, fortalecer portos e diversificar modais, reduzindo dependência de corredores críticos.
  • Diplomacia alimentar ativa: utilizar a posição do brasil como fornecedor global de alimentos como ativo estratégico nas relações internacionais.

O agronegócio brasileiro continuará sendo competitivo, mas competitividade, isoladamente, não garante estabilidade em um ambiente de tensão geopolítica. Em um mundo onde rotas podem ser interrompidas, insumos podem escassear e mercados podem fechar temporariamente, uma estratégia eficaz deixa de ser diferencial. Passa a ser condição de sobrevivência.

O agro não para.

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