Por Cláudia Yamamoto, de Córdoba
Os últimos verões têm sido implacáveis com o agronegócio argentino. A combinação de calor extremo e ausência prolongada de chuvas castiga o cinturão agrícola, uma das regiões mais férteis do planeta, que atravessa Buenos Aires, Córdoba e Santa Fé e sustenta uma parcela relevante da oferta global de alimentos. A Argentina não é um produtor qualquer. Trata-se do maior exportador mundial de farelo e óleo de soja e o terceiro maior fornecedor de milho. O que está em jogo, porém, vai além de um episódio esporádico: é a expressão mais visível de uma transformação climática que vem se acumulando ao longo de décadas e que passa a redesenhar, de forma permanente, as bases da produção nos campos argentinos.
Para entender o presente, é preciso voltar ao passado. Durante a maior parte do século 20, a agricultura argentina funcionou sobre riscos bem conhecidos. El Niño trazia mais chuva, La Niña mais seca, e os ciclos se alternavam com uma regularidade que os produtores aprenderam a incorporar no planejamento das safras. As perdas de um período eram, em geral, compensadas pela recuperação do seguinte. Mas agora isso mudou. Os intervalos entre eventos extremos encurtaram. A intensidade deles aumentou. E a previsibilidade que sustentava a produção agrícola começou a desaparecer.

A Argentina consolidou sua posição como potência agrícola apoiada em uma combinação rara de fatores. A Pampa Úmida possuía, até pouco tempo atrás, condições quase excepcionais: solos profundos de altíssima fertilidade, chuvas razoavelmente distribuídas ao longo do ano e temperaturas que raramente atingiam extremos capazes de comprometer safras inteiras.
A partir dos anos 1980, pesquisadores do Servicio Meteorológico Nacional passaram a documentar uma tendência que, vista isoladamente, parecia promissora: a linha de chuvas regulares avançava para o oeste, empurrando a umidade em direção a regiões que historicamente viviam no limite da aridez. Áreas da zona semiárida pampeana que antes mal sustentavam pasto tornavam-se cultiváveis. No curto prazo, isso foi interpretado como ganho – e de fato o era. A fronteira agrícola se expandiu, incorporando solos que antes serviam apenas à pecuária extensiva. O que levou mais tempo para ficar claro é que se tratava de uma oscilação mais ampla do clima. E, quando o ciclo se inverteu, essas mesmas áreas voltaram a expor sua fragilidade.
A seca de 1988/89 foi um primeiro alerta – importante, mas rapidamente ignorado. Depois, vieram anos de recuperação que reforçaram o otimismo. Nos anos 1990, a virada tecnológica, com a disseminação da soja transgênica, o avanço do plantio direto e a mecanização em larga escala, coincidiu com um período de clima mais benigno. Isso ajudou a consolidar a idea de que a tecnologia havia reduzido a dependência do clima. Em parte, era verdade, mas não na medida que se imaginava.
O sinal mais claro viria alguns anos depois. A seca de 2008/09, associada a um La Niña de intensidade incomum, provocou perdas estimadas em US$ 15 bilhões e derrubou a produção de soja a níveis que não se viam havia quase uma década. O episódio abalou as contas do governo de Cristina Kirchner, fortemente dependentes das receitas de exportação do agronegócio. Em 2011/12, houve uma nova seca severa. Em 2017/18, La Niña voltou com força suficiente para reduzir a produção de soja em quase 30% em relação ao ciclo anterior. Nas safras mais recentes, o padrão se confirmou: episódios de estresse hídrico passaram a se suceder com intervalo cada vez menor, sem que o campo tivesse tempo de recuperar a capacidade produtiva.
No verão de 2025/26, o Servicio Meteorológico Nacional emitiu alertas sucessivos de calor intenso para as principais regiões produtoras, com temperaturas chegando a 40 °C em pontos do cinturão agrícola e déficit hídrico prolongado em áreas críticas de Santa Fé, Entre Ríos e Buenos Aires. La Niña, ainda que em fase de enfraquecimento, seguia influenciando o regime de chuvas, mantendo o centro do país mais seco do que o normal.
No campo, os efeitos foram severos, especialmente para o milho plantado mais cedo. A cultura atravessa fases críticas – como a polinização – justamente quando o calor e a falta de água atingem o pico. É nesse momento que se define o tamanho da espiga e a quantidade de grãos. E é também quando o prejuízo se torna inevitável. Na safra anterior, 2024/25, o estresse hídrico no nordeste do país chegou a reduzir o potencial produtivo da soja em mais de 20% naquela região, levando a Bolsa de Cereais de Buenos Aires a cortar sua projeção em 1 milhão de toneladas.

A crise não poupa ninguém. A pecuária também sofre: pastagens e áreas de forragem perdem vigor, reduzindo o alimento disponível para o gado. Em muitas propriedades, produtores já discutem suplementação alimentar, uma medida que eleva custos num momento de margens apertadas. O Instituto Nacional de Pesquisa Agropecuária identificou sinais claros de estresse hídrico, sobretudo no norte do país, com risco de agravamento no futuro próximo.
Para quem vive do campo, o problema se traduz em decisões difíceis. Plantar mais tarde? Reduzir área? Segurar investimentos? “Hoje, a gente não planeja mais a safra com base no calendário, mas no clima, e o clima virou uma variável impossível de prever”, diz o agricultor Gastón Riggi, produtor de soja em Córdoba. “O risco sempre fez parte do negócio, mas agora ele está presente em todas as decisões.”

Os danos se estendem para além das fronteiras argentinas. Em Rosário, às margens do rio Paraná, um dos maiores complexos industriais de processamento de soja do mundo opera com capacidade diretamente ligada ao desempenho da safra. Gigantes como Bunge, Cargill e Louis Dreyfus construíram ali uma plataforma estratégica de exportação que movimenta dezenas de bilhões de dólares por ano. Quando a produção encolhe, o efeito se espalha por toda a cadeia, dos portos argentinos aos mercados consumidores na Ásia e na Europa.
No plano político, o governo de Javier Milei tenta responder com medidas econômicas. A redução das retenciones – impostos sobre exportações agrícolas – busca dar fôlego financeiro aos produtores. É uma tentativa legítima de aliviar a pressão sobre um setor vital. Mas há um limite claro para qualquer resposta econômica. Incentivos aliviam o caixa, mas não resolvem a falta de chuva. Hoje, é o clima que define o que se produz – e o que se perde.

