AS STARTUPS CONSTROEM O NOVO AGRO

Agtechs ganham espaço no brasil e na américa latina, impulsionadas por avanços tecnológicos, iniciativas sustentáveis e novos modelos de negócio
Edição: 54
3 de junho de 2026

Por Ronaldo Luiz

O mercado global de startups climáticas deve atrair cerca de US$ 80 bilhões até 2029, mas apenas 4% desse capital chega à América Latina e à África. Os números calculados pela gestora argentina Kamay Ventures revelam tanto o tamanho da oportunidade quanto a desigualdade na distribuição dos recursos. Dentro desse movimento, agtechs e foodtechs despontam como os segmentos mais promissores.

Não faltam sinais de que o setor avança em ritmo acelerado. Só no primeiro semestre de 2025, o Brasil recebeu R$ 627,2 milhões em investimentos em agtechs e foodtechs, segundo o Rural Tech Report 2025. Na América Latina, os aportes em agfoodtechs cresceram 25% no último ano, e já são 451 hubs, incubadoras, parques tecnológicos e aceleradoras mapeados pelo Radar Agtech Brasil, da Embrapa. No campo, um estudo da pesquisadora Maira de Souza Regis, da Universidade de Brasília, indica que mais de 90% dos produtores rurais utilizam algum tipo de tecnologia ou sistema digital no dia a dia.

Para Humberto Matsuda, membro do Comitê de Investimentos da Kamay Ventures, o momento favorece startups que conseguem unir impacto ambiental mensurável, eficiência operacional e modelos de negócio escaláveis. “A América Latina tem uma combinação única de desafios estruturais e ativos naturais”, diz. “Isso cria oportunidades enormes para startups que atuam em agro, alimentos, economia circular e soluções baseadas na natureza, especialmente quando conectadas a grandes empresas e cadeias globais.”

Nessa agenda, ele observa a aceleração no desenvolvimento e adoção de tecnologias voltadas à regeneração de solos, biotecnologia, redução de insumos químicos e produção de alimentos mais saudáveis. “Mais do que mitigar impactos ambientais, essas soluções buscam aumentar produtividade, eficiência e competitividade ao longo de toda a cadeia de valor.”

As agtechs e as foodtechs nunca receberam um volume tão grande de investimentos

Para entender o que está em jogo, vale olhar para o histórico das agtechs no Brasil. A primeira onda concentrou esforços nas tecnologias para o dia a dia nas lavouras, como sensores, softwares de desempenho em maquinários e soluções digitais para manejo. A segunda avançou para serviços de fora da porteira, como crédito rural, seguro e logística. Agora, um terceiro ciclo se desenha. “O foco mudou de produzir mais para produzir com inteligência de recursos”, afirma Matsuda.

Humberto Matsuda, da Kamay Ventures: “A América latina traz oportunidades para startups”

Aurélio Favarin, analista de Inovação da Embrapa e editor técnico do Radar Agtech Brasil, aponta que esse movimento já é visível. “É possível observar um grande crescimento do número de startups que tornam a produção mais sustentável e com menos riscos, além de soluções viabilizadoras da produção, como é o caso das agfintechs”, diz. “Também percebemos o grande uso de inteligência artificial, seja ela a solução em si ou uma parte menor da tecnologia.”

A engenheira agrônoma Suelem Gonçalves, coordenadora do curso de Agronomia da Uninassau, reforça o potencial transformador das agtechs “verdes”: produzir alimentos mais baratos, garantir maior estabilidade na oferta e viabilizar cultivos com menor impacto ambiental. “Esta transformação é uma poderosa aliada da sustentabilidade, porque reduz perdas e diminui o uso excessivo de fertilizantes, além de preservar o solo e a água.”

A conectividade avança nas lavouras brasileiras, mas ainda segue distante das necessidades do campo

Tecnologia confiável que atenda às necessidades do mercado é o ponto de partida, mas está longe de ser suficiente. Para Favarin, o ambiente ao redor da startup importa tanto quanto o produto. Estar inserida em um ecossistema com parceiros tecnológicos, investidores e polos de inovação pode ser o diferencial entre crescer ou estagnar. Matsuda vai além e aponta um ingrediente que considera crucial: a capacidade de integrar a solução na cadeia de valor. “No campo, não há espaço para ferramentas complexas que isolam o produtor”, diz. “Uma agtech vinga quando entrega um ROI (retorno sobre o investimento) claro e imediato, mas que também conversa com as grandes indústrias que compram desse produtor.”

Em qualquer discussão sobre agricultura digital, a conectividade surge como um fator fundamental. O Indicador de Conectividade Rural 2025, elaborado pela ConectarAgro, mostra que o Brasil avança nessa área: 34% do campo brasileiro está conectado, ante 19% em 2024. O acesso à internet, porém, ainda se concentra nos escritórios das propriedades, enquanto levar sinal às áreas de campo continua sendo o grande desafio. “A conectividade é um desafio, principalmente quando pensamos na agricultura de precisão e nos maquinários mais modernos que, muitas vezes, exigem internet 5G para funcionar”, diz Favarin.

Para Matsuda, o gargalo é real, mas não paralisa o setor. “O ecossistema latino-americano aprendeu a operar no modelo offline-first: as tecnologias coletam dados no campo e sincronizam quando há sinal”, diz. “A falta de sinal atrasa a velocidade da automação plena, mas a inteligência de dados já é uma realidade na gestão. Onde a conectividade chega plenamente, o agro deixa de ser apenas mecanizado e se torna uma indústria de precisão absoluta.” Mais do que sensores e algoritmos, o que as agtechs verdes estão plantando é uma nova forma de pensar o campo, em que o lucro e o planeta, pela primeira vez, podem crescer juntos.

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