A VEZ DOS PEQUENOS

Tecnologia, especialização e rastreabilidade redefinem as regras do mercado de proteína animal no brasil, abrindo espaço para produtores e agroindústrias de menor porte
Edição: 54
25 de maio de 2026

Por Ronaldo Luiz

O mercado de proteínas animais vive uma virada. Consumidores mais exigentes e a urgência por eficiência produtiva redesenharam as regras do jogo: do ovo à carne bovina, incorporar tecnologia, garantir bem-estar animal e honrar compromissos com a sustentabilidade deixaram de ser diferenciais competitivos para se tornarem requisitos mínimos. Dois movimentos ilustram bem essa transformação. No setor avícola, em especial no segmento de ovos, a industrialização da cadeia produtiva avança e abre espaço para produtos de maior valor agregado. Na pecuária de corte, a ruptura com o modelo extensivo tradicional abre oportunidades também para produtores de menor porte.

O ovo é o exemplo mais eloquente desse movimento. Na Europa e nos Estados Unidos, a industrialização da cadeia produtiva já é realidade consolidada – e o Brasil começa a seguir o mesmo caminho. Baseada na transformação do produto in natura em itens de maior valor comercial, a tendência foi apresentada por especialistas em encontro da Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia Animal (Facta), em fevereiro, e tem potencial para gerar novos negócios, inclusive para produtores e agroindústrias de menor porte.

Os números do setor ajudam a entender o interesse. Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a produção cresceu 7,9% em 2025, com nova alta projetada de 6,8% para este ano. O consumo per capita avançou 6,7% no ano passado e deve crescer mais 7% em 2026. As exportações, por sua vez, dispararam 116,6% em 2025, com previsão de incremento adicional de 12,5%. “Para o setor produtivo, o recado é que o crescimento do consumo reforça a necessidade de se investir em industrialização para ampliar o acesso a novos mercados, tanto no nível doméstico quanto para as exportações”, afirma Jairo Arenazio, CEO da PlumaGen, empresa especializada em tecnologias para sanidade na avicultura.

Na prática, a industrialização se traduz na transformação da proteína in natura em produtos de alto valor agregado: ovo em pó, claras líquidas pasteurizadas, omeletes congeladas, snacks proteicos e suplementos, entre outros. “É o ovo transformado em itens de conveniência, com praticidade, mas sem perda das características e propriedades nutricionais originais”, diz Arenazio.

Os novos formatos encontram boa receptividade no mercado fitness, em suplementação para crianças e pessoas com déficit nutricional. O segmento pet, segundo o executivo, “está prestes a explodir nisso também”. Para produtores familiares, o caminho pode passar por nichos de alto valor, como ovos orgânicos ou de galinhas criadas soltas. Pequenas agroindústrias, por sua vez, podem mirar a indústria de panificação e o fast-food, a partir de processos simples como a pasteurização. E há ainda um flanco pouco explorado: a transformação da casca do ovo – hoje um problema ambiental – em adubo e fertilizantes, num ciclo de economia circular.

O cenário externo também é favorável. Roberto Betancourt, presidente do Sindirações e vice-presidente da Federação Internacional da Indústria de Alimentação Animal (Ifif), destaca a competitividade da ração nacional, a disponibilidade de matérias-primas e a credibilidade sanitária do Brasil. “O País reúne condições únicas para crescer, desde que o setor atue de forma integrada e avance em infraestrutura”, diz. Sula Alves, diretora técnica da ABPA, reforça: “A capacidade de organização do setor tem transformado desafios em oportunidades.”

No agronegócio, virou senso comum que a bovinocultura, de corte ou de leite, só é viável para grandes produtores. Túlio Ramalho, gerente da DSM-Firmenich para a América Latina, discorda. Para ele, o volume de escala deixou de ser o único indicador de sucesso na pecuária moderna. Qualidade, diferenciação e sustentabilidade ganham cada vez mais peso na equação. “A ideia de que inovação e competitividade são condição exclusiva de quem tem grandes orçamentos ficou no passado”, afirma Ramalho.

Com a democratização do acesso a tecnologias de genética, manejo e nutrição, pecuaristas menores vêm obtendo índices produtivos expressivos. Os avanços digitais, em especial, têm nivelado o campo ao oferecer ferramentas e softwares de gestão independentemente do tamanho do rebanho.

A rastreabilidade funciona como uma certificação, um selo de qualidade que abre portas para os produtores no mundo inteiro

A estratégia para o pequeno produtor, segundo Ramalho, passa pela especialização. A escolha por nichos de mercado de alto valor – onde os gigantes do setor frequentemente não conseguem operar com a mesma agilidade – surge como caminho natural. “Uma importante vantagem do pequeno produtor reside na gestão do dono”, diz é ele. “Enquanto grandes operações lidam com a complexidade de equipes espalhadas e alta rotatividade, o pequeno está no dia a dia da lida.”

No confinamento, Ramalho projeta crescimento mais moderado em 2026, após alta de 16% no número de cabeças confinadas in 2025. “Essa tendência reflete uma estação de monta menos produtiva há dois anos, resultando em menos bezerros chegando ao mercado”, diz. Outra transformação em curso é o avanço do boitel (modelo de confinamento terceirizado) em relação à estrutura própria tradicional. Hoje, o boitel representa 19% dos animais confinados no Brasil, totalizando cerca de 1,7 milhão de cabeças.

Em meio a todas essas transformações, um tema atravessa toda a cadeia: a rastreabilidade. Mais do que informar ao consumidor a origem e o processo de fabricação de um produto, ela gera um repositório contínuo de dados capaz de melhorar processos, reduzir desperdícios e orientar decisões com base em evidências. Para a agricultura familiar, o impacto é ainda mais direto: na prática, a rastreabilidade funciona como uma certificação, um selo de qualidade que abre portas.

Frederico Bellini, gerente de Sustentabilidade e Marketing da GS1 Brasil, reforça a importância de padrões globais nesse processo. “Em um segmento onde diferentes empresas, indústrias e produtores usam sistemas próprios ou terceirizados, a adoção de padrões como o código de barras assegura que todos consigam falar a mesma língua digital, para que as informações fluam com qualidade e confiabilidade ao longo de toda a cadeia”, diz. “Isso é crucial para as exportações do agro.”

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